era pedra e pedra e virou pó
e compôs a poeira nas galáxias
sobre os mares, nos desertos
o cisco nos olhos
o pigarro nas gargantas
o pó na estante entre os livros
dormiu com os livros
e penetrou nos livros
e aprendeu as palavras
e devorou os livros
na magia do saber que transforma
depois de tanta andança
deu-se o improvável
mas nunca o inesperado
tornou-se pedra, estrela e lua
hoje, através das frestas do barraco,
faz voar a imaginação
faz sonho onde havia vazio
ilumina o livro nas mãos
do menino pobre que aprende ler
Set- 2019
Poemas de temática social onde aborda, em linguagem simples, de maneira aberta e franca a fome, a miséria, as desigualdades e os privilégios da elite brasileira, e, voltados para a condição do negro e afro-descendente no Brasil fazem menção a fatos históricos desde o continente de origem (África) aos dias atuais, ao amor, à paixão e ao desejo.
segunda-feira, 1 de abril de 2024
domingo, 31 de março de 2024
Por meu sangue ainda passam
por meu sangue ainda passam
os ventos dos mares necrópoles
e o hálito amargo das ondas
brindam mistérios antepassados
sofridos nas vagas de oceanos hostis
ante os olhos das nações
ainda passam por meu sangue
quintais de antepassadas lidas
as brincadeiras
dos moleques a furtarem frutas
das goiabeiras antigas
a fome nos trópicos
por meu sangue ainda passam
quilombos vencidos pela guerra
vozes de atrozes banzos
marcando com seus brasões as minhas veias
remetendo a dores ainda vivas
sob as cicatrizes
ainda passam por meu sangue
velhas lavadeiras com seus lamentos
e as roupas imundas do passado
rumo aos rios das angústias
quarar as queixas
vivendo sempre dias iguais
por meu sangue ainda passam
os olhos vítreos das senzalas
acomodando desesperos nas noites intermináveis
curando expostas chagas com sussurros
a liberdade estupefata
com os horrores do cárcere
por meu sangue ainda passam
ainda passam por meu sangue
Fev. 2021
sexta-feira, 22 de março de 2024
O barro transborda
o barro da minha cidade está nas bordas.
o negro está nas bordas, está no barro das bordas da minha cidade.
cifrado no barro o negro está, no longe onde se extravia a vida, onde há vida que se nega a negra cor do meu país.
o asfalto chegou (para alguns lugares, às bordas das bordas não).
carnaval sem adereço, lágrima clara sobre pele escura, o negro chora, não é mais dono do estandarte. a passista hoje tem endereço nobre, a favela sobra.
o barro está nas bordas, nada muda, tudo muda numa metamorfose trágica, no geográfico apogeu do abandono desprezo descaso. o investimento do estado é parco, exceto o cinza de barcas sombrias onipotentes onipresentes com seus radares discriminatórios.
quase sempre o alvo é negro, dos disparos deflagrados. a farda a patente o coturno sobre o pescoço da negritude sufoca diversidade, os soldados são negros, treinados para ignorar.
o poder pelo dinheiro aniquila com os sonhos das gentes, antes mesmo que pudessem sonhar.
ninguém está sozinho afundando na lama, almeja-se a cauda duma estrela, dum cometa que irá resgatar a todos dos confins.
o barro está nas bordas, estende-se infinito de cidade em cidade até a próxima capital, a conurbação, megalópole do desespero.
quanto de barro há nos edifícios cobertos de luxo? que braços são os verdadeiros donos do progresso?
os pais são os pés e os braços do meu país, os filhos a cara cara da fome, onde todos trabalham e ninguém come. nestes cantos lamentos mudos mudam a cara da cidade de alegre em triste, onde tudo existe à margem, nas margens de regatos podres, de magros ratos e esquálidos destinos. o muro o mudo olhar a ponte em escombro escondem a parcela condenada dos que habitam vielas barracos ruelas morros com cheiro de morte, onde todos improvisam um sol que não existe, um céu nublado toda vida. os cães fazem a festa no lixo amontoado em fins de ruas.
nas bordas da minha cidade existe vida, existe olhares suplicantes que ninguém vê, ninguém quer ver. o natal passado levou beatriz muito cedo, cedo demais para que se entenda, no dia que nasceu o menino deus, o presente de uma tonelada na cabeça do seio familiar, na cabeça de toda a comunidade acostumada ao barro ao berro, à boneca branca da menina negra sob escombros.
nos terreiros apenas os orixás são os mesmos, as mãos nos tambores são outras, as bocas que entoam as litanias são outras, os corpos que recebem os santos são outros.
a história se repete, o barro das cidades do meu país transborda.
Jan- 22
quinta-feira, 21 de março de 2024
Pedra rara
é nas primeiras horas do dia
que fala aos meus sentidos tua essência
amiga da textura das rosas
da etérea força
do amor
e com a delicadeza das pétalas
vem tocar meu peito
ávido por qualquer carinho
a manhã está plena e eu não me farto
na insuficiência do tempo
nem a noite me rebela
caindo como o rocio na grama
mas me faz dormir
na tua luz
como estes olhos tão recentes
atravessam minhas pupilas
e dormem na memória do meu sangue?
o cheiro campestre da tua pele
a boca virgem dos meus lábios
os cabelos de prata que te enfeitam
tudo tudo me espera dentro
do tempo
espera o toque delicado dos meus dedos
como um anjo espera por deus
dentro de um sonho prestes a brotar
como brota da terra o milho
Agosto- 2022
terça-feira, 19 de março de 2024
História concisa do negro na terra brasilis
no princípio o verbo era no peito
era a senzala, a fome, o tronco
o engenho, a moenda
nas lavouras havia o eito
e não havia salário
depois veio a indústria
a construção, a favela, o torno
a fome, o martelo
o macacão operário
então veio o progresso
e ainda a panela vazia
a escola, o livro, a universidade
e a muito custo então o verso
por fim, já não havia utopia
Dez- 2023
Mensagem
esperei pelos correios um telegrama
mas o carteiro desconhece meu endereço
a internet suplantou os telégrafos
tudo mais fácil à urgência que é a vida
minha sorte talvez mude
e transforme o meu destino
mas nem por e-mail a mensagem não veio
inútil qualquer espera
não há advento possível à dor
de amor ausente
sepulto no silêncio meu drama
e teço mais um poema
de tantos esquecidos
na noite repleta de solidão
noite amena
Mar- 2024
Esse jeito de amar
tanta bela forma de descrever uma mulher
e eu a descrevo carne osso pele pelo que transpira e sangra
o amor transcende a matéria
mas eu só consigo e quero te ver concreta
coisa que se vê e toca e experimenta
Mar- 2024
quinta-feira, 14 de março de 2024
Tem gente com fome
engajo tremendo sorriso
ao contato da luz amena da manhã
amena e doce manhã
mas logo desfalece
esvai-se todo entusiasmo
tem gente com fome
e é pornográfico um sorriso
talvez eu fosse feliz
não fosse tanta gente com fome
e eu tão pequeno poeta
fosse grande
também não sanaria a fome do mundo
poeta pode apenas o verso
e a angústia do povo não espera
renasce a cada manhã
a barriga colada às costas
e o olhar perdidamente triste
famélico olhar
constrange um riso rasgado
de orelha à orelha
mesmo para o espetáculo
da luz amena de uma doce manhã
devia constranger todos os homens
mas tem gente rindo à toa
no conforto de suas posses
e se tem criança sem pão
paciência
o destino quis que assim fosse
eu conquistei minha manhã ensolarada
à beira desta piscina
saboreando este uísque caro
trabalhei muito para degustar esta manhã
e até se aborrece
se alguém lembra das misérias do mundo
mas ali ninguém lembra
ninguém vai lembrar
Jan- 2024
Equilibrista
equilibrando demandas
domo dilúvios das águas anímicas
pela intuição de atávicos
saberes
na dor a gente
cresce pra dentro
o coração
duro feito pedra
estrela
a extraviar-se
no esplendor de galáxias
e amplidão
seguro ao cais
da coragem libertária
desvencilho da âncora do medo
emerjo do naufrágio
atado à vida sou o argumento contido
no enredo
Mar- 2021
quarta-feira, 13 de março de 2024
A palavra amor
amor é palavra chave
que nos persegue dentro da noite
empregada
com arte
abre qualquer porta
Jan- 2024
Estrelas no verso
enquanto os tiranos
atiram corpos
no mar e o desterro
dilacera o peito até dos fortes
atiro estrelas
que voam
no espaço do verso
luzindo o poema protesto
e os lamentos
dos porões fétidos
agora são vozes de muitas vozes
pois irmanando
a ginga que nasce
do encontro da língua
que nasce o verso
com as línguas que o declamam
faz-se a liberdade
e o que se escreve
reverbera
ao som dos tambores
(que ainda percutem
sob a mão negra da ancestralidade)
na astúcia e coragem
contra os algozes
de um povo
que venceu os males
atrozes
Jan- 2024
segunda-feira, 11 de março de 2024
Por milagre de Oxalá, por milagre de Olorum
por milagre de Oxalá
por milagre de Olorum
hoje eu escrevo a minha dordesde tempos remotos eu só sentia
desde tempos remotos eu nem sentia
da prole da mãe negra
mãe que trouxe o barro no ventre
tão acostumada a desmandos
sou a ovelha desgarrada
ovelha que pode tingir o papel de negro
que escapou e escapa na prece
que fizeram aos santos
na encruzilhada no meio do mato
os negros analfabetos
os negros sábios
os negros marcados das senzalas
essa ovelha que ouviu dizer
que ouviu e ouve as vozes dos livros
os lanhos na carne
o sangue coagulado na poeira
os ferros dizimando a dignidade
coisas difíceis ouviu e ouve
ovelha teimosa de olhos e ouvidos bem abertos
ovelha milagre de Oxalá
que escapou e escapa às armadilhas
às armadilhas dos senhores de escravos
senhores que pagam barato por negro capturado
que multiplicam as suas riquezas
ovelha milagre de Olorum
tentando resgatar o rebanho
às vezes em vão que a luta é cruel
que ovelhas desgarradas que virão
por milagre de Oxalá
por milagre de Olorum
ouçam a minha voz
ouçam as vozes dos livros
ouçam do sangue das correntes das lutas
por prece dos negros sábios no meio da mata
por milagre de Oxalá
por milagre de Olorum
Dez- 2023
domingo, 10 de março de 2024
Não é lícito
ainda que fosse hoje
o tempo das lavouras e o engenho
do trabalho sob o açoite
e da opressão contra um povo
não seria lícito
ainda que fosse hoje
o comércio de gente nas praças
navios com carga humana
e capturas sangrentas
não seria lícito
ainda que fosse hoje
o sangue coagulado na terra
senzalas da dor e do desespero
e a insígnia na pele
não seria lícito
ainda que fosse hoje
o eito extenuante e forçado
os desmandos do nobre senhor
e as máscaras de ferro
não seria lícito
ainda que fosse hoje
o bafo podre da boca do feitor
bacamartes contra o peito
dignidades roubadas
não seria lícito
o tempo hoje é outro
reconstruímos o desconstruído
somos o saber autêntico
de quem sofreu e sofre injúrias
somos universidade
o tempo hoje é outro
é tempo de livro e conhecimento
os séculos curvaram-se à luta
e somos viva consciência
somos verdade
não é lícito o seu racismo
sob a máscara da boa convivência
e se escancara é indecência
se é estrutura ruirá
porque somos inteligência
Agos- 2021
Retrato preto e branco
água corre podre sob a pinguela
a paz nas ruas vastas
e nas vitrines
chics das butiques finas
manequins
desbotados exibem
a última moda outono/inverno.
o negro distinto
produz literatura que ninguém lê
o negro faminto sequer sabe escrever.
fulano fundou isso e aquilo
sicrano é partícipe da história
beltrano esteve aqui e além
o morro definha sob
chuva de chumbo grosso
e a criança indigente
refém da apatia nossa nem veste
nem calça,
come fogo pela culatra,
enquanto o poema, fracassa.
Jul- 2020
a paz nas ruas vastas
e nas vitrines
chics das butiques finas
manequins
desbotados exibem
a última moda outono/inverno.
o negro distinto
produz literatura que ninguém lê
o negro faminto sequer sabe escrever.
fulano fundou isso e aquilo
sicrano é partícipe da história
beltrano esteve aqui e além
o morro definha sob
chuva de chumbo grosso
e a criança indigente
refém da apatia nossa nem veste
nem calça,
come fogo pela culatra,
enquanto o poema, fracassa.
Jul- 2020
sábado, 9 de março de 2024
De/negrir
preceitos arcaicos não nos acertam
não negociamos liberdades
no nosso quintal
violência enverga bege não pele negra
em cinzas de carnaval
no céu do preconceito
enegrecemos estrelas no auge da luz
e o ágio cobrado por esta audácia
não reverbera
no existir de quem resiste e não cai na armadilha
do de/negrir o já negro
deter a indecência
do seu legado de palavras tortas
é reinventar a escrita atenta
para a artimanha perversa do seu conceito
com asas negras
e livres escreve-se livros
de respeito
suas regras e normas
não seduzem a autêntica força da nossa sintaxe
e nosso verso cresce honesto e filosófico
com artilharia de orixás em ori
e a poesia se refaz
com a bandeira NEGRA da paz
nem branca
nem tanto faz
Set- 2021
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