quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Irremediavelmente

a eterna chibata
marcando profundamente minha carne
indefesamente negra
e o trauma profundo 
na estampa de meus dias
prostrando-me

o cárcere eterno
deixando estigmas profundos
na biografia do meu ser imutavelmente negro
irreversíveis nódoas
que desfazer e reparar 
não posso

que tisne minha história 
com os mais obscenos enganos
livrar-me-ei de toda chaga e governarei o mundo
pelo bem dos oprimidos
e sua remissão
racista

                          Agos- 2025

Emboscadas

fui calado em minhas demandas
por lanhos na carne e destroços na alma
mas parti as correntes
e me libertei das atrocidades
da escravidão.

mas inventaram
uma segunda classe de humanos
eu estava novamente subjulgado a outro humano
mais uma vez introduziram algemas
grades e correntes.

à trama silenciosa e sofisticada
implicaram-me dia após dia no passar dos anos
apesar da luta organizada de meu povo.
são visíveis as cicatrizes
e os farrapos d'alma.

deste ardil ainda sou cativo
mas virá o dia que de uma vez por todas serei apenas
um cidadão livre de fustigas e armadilhas
NEGRO, mas mais um cidadão livre
das emboscadas racistas.

                              Agos- 2025

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Banto

eu não falo banto
senão meu negro pranto
não teria este
amargo gosto de ocidente.

               Ago- 2025

terça-feira, 29 de julho de 2025

Araponga

E a negra pra os mares
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.

              Jul- 2025

terça-feira, 22 de julho de 2025

A história conta

o patrão 
e seu condomínio de luxo
à base do lucro com a mão de obra
operária
o trabalhador e seu barraco
na favela nos extremos
da cidade

averigue a história 
há 500 anos e não precisarei dizer
quem tem a pele branca
quem tem 
a pele negra

                         Jul- 2025

O coração

uma pedra é apenas uma pedra
de aspecto frio e superfície dura
restringe-se à inércia
de ser pedra

já o coração
pulsante no peito do homem
expande-se matéria viva 
e sentimento

e sob qualquer argumento
quando este se reverte em pedra
e de ódio se abastece
é apenas queda

que se abisma nas trevas
e desfortalece

                    Jul- 2025

Sentir

porque da flor
a gente tira a beleza das pétalas
e o cheiro que exalas
gratuitamente
e nenhuma antítese que lhe enfeie a natureza
mas do homem além da beleza física
e da arte que é capaz 
de produzir
encontra-se arraigado no seu ser
o racismo por exemplo
o ódio ao igual
que se distingue apenas
pela cor da pele

                           Jul- 2025

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Consciência

esta casa
o sangue e o tempo de meus pais
onde encontrei um teto
já armado
onde encontrei
fechados
os portões das universidades
não é senzala
não são porões dos negreiros
onde houveram crimes vis
mas aqui encontro
os ecos
das vozes ancestrais
e seus apelos
sambando nos holofotes
da consciência
emparedada

                          Jul- 2025

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Educação

a escola que eu vejo
é a do escárnio ao público
sevicia o professor
e afugenta
cedo o aluno 
no país da opulência
às elites 

                   Jul- 2025

Linha de frente

meu mocambo no quilombo
é mocambo simples
tem milho cozido farofa e peixe
tenho o corpo fechado
na umbanda
primeiro guerreiro de Ganga
pra matar e morrer
sou linha 
de frente na guerra
contra branco tirano
senhor 
de 
terra

                Jul- 2025

Negro escravo

por que eu tenho 
que arreganhar os dentes 
num sorriso
se sou negro de ganho 
de moenda
e arado?

              Jul- 2025

terça-feira, 8 de julho de 2025

Leis impostas

ruas escuras do gueto
por onde passa dia após dia toda a minha
angústia
de onde saio pro mundo
e me vasto
mas sempre volto
preso às leis impostas à minha pele negra
porque em vez de pontes
encontro muros

                           Jul- 2025

O que fez o negro

vai na direção dos guetos
o negreiro cinza dos poderosos da pátria
pegar negro no tapa ou no tiro
muitas vezes 
os seus iguais na cor 

o que fez o negro
pra merecer a canga o cepo
o antolho
os muros que lhe tolhem o acesso
aos espaços de poder

o que fez o negro
pra merecer a mordaça as algemas
a máscara de ferro
as grades que lhe estorvam o direito
às posições de destaque

fato que nem mesmo 
nos guetos
o negro tem a paz dos dias amenos
sempre em sobresalto amarga 
a mão pesada da tirania
sob a égide das leis

                        Jul- 2025

Há de ter coragem

há de ter coragem 
de palmilhar o chão do senhor de terras
e não se rebelar por parte 
do latifundio

há de ter coragem 
de não sujar as vestes no tronco 
dum pelourinho covarde
tomado de gente

há de ter coragem 
de não dobrar os joelhos carregando 
pedra imensa serra acima
sob sol a pino

há de ter coragem 
de não comer em louça fina 
o coração do senhor de sua gente
numa revolta escrava

                         Jul- 2025

segunda-feira, 7 de julho de 2025

A cor do racismo

por que não me estarrece 
a cor que predomina
eurocêntrica cor enraizada
de sólidos alicerces entranhada
nos lugares de privilégio
em toda parte
por todo canto onde há destaque
onde há posição
um corpo branco pulsando vida
resguardado
escandalosamente inserido
na melhor das hipoteses
radicado no tecido que se quer justo 
que se quer isento
de qualquer mácula que o tisne
de qualquer nódoa
um corpo branco que colhe fortuna
bem-sucedido exitoso
florescente
sobre a sorte desfavorável
dum corpo negro

                    Jul- 2025