quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Porque sou negro

das senzalas às avenidas
viadutos e arranha-céus de sangue negro
forjou-se a cidade que hoje estranha-me.
e o próprio país, no seu porte
robusto, tem timbrado 
na sua história, sangue escravo.
e sequer me sinto
acolhido onde quer que eu vá dentro
da terra natal.
em cada pedra do chão onde piso
reconheço-me mendigando
uma paz que não encontro, onde eu possa
me alargar, e fazer parte
do entorno por onde me desloco,
onde eu possa sorver o ar
e livrar-me da canga pesada
a tolher-me o ser.
meu refúgio neste lugar onde me fiz,
nesta nação onde pensei
ser minha casa, é nas páginas de um livro, 
quando me encontro só
junto a meus dilemas, 
resolvendo minhas dores e alegrias, 
(poucas são as alegrias), 
nesta sociedade engatinhando.

                            Set- 2025

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Mais um dia

lanço-me à rua toda manhã
indagando, por que toda roupa que visto
não me cai bem?
é uma atenção da polícia
um puxar de bolsa pra frente
um subir os vidros dos carros
e um céu azul anuncia um dia democrático
não fossem as sombras
dos homens assombrando
os caminhos por onde entra e sai
minha boa fé no mundo.
não é capitalista minha fé, mas sigo a turba
mesmo discriminado, 
porque o pão está caro, e sobreviver
cobra seu preço.
e meu coração é uma pluma
que voa ao vento e plana e cai na grama
mesmo não encontrando
motivo pra tanta leveza
neste ar carregado
da metrópole.

                           Set- 2025

Meus sapatos

meus sapatos já envergados
pelos cantos de tantas pedras e chãos
arrastando o peso das minhas angústias
trazem no seu mutismo
notícias deste teatro de bonecos
que de norte a sul
arvoram-se a devastar
profundamente cada alma que tem um sonho
com sua artilharia de guerra
aposta para o genocídio
dos condenados desta terra
olho com olhos de tristeza esta comédia bufa
que leio no seu couro exausto
e já desenganado adormeço as mágoas
sob as palpebras cansadas

                                  Set- 2025

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Boas-vindas a um negro

havia gritado a plenos pulmões
milhões de vezes liberdade
e como no poema
não parei de gritar não parei
também evoquei Zumbi para guardar
as entradas de meu corpo frágil
mas escutava apenas
minha própria voz num eco
e de chapéu no chão
corpo prostrado sobre um sangue coagulado
sangue dos ausentes da guerra
desesperava-me
quando do outro lado da rua
uma cruz em chamas aterrorizava
num descampado
nos galhos fortes da única arvore
uma forca jazia em silêncio
pensei estar sob efeito dum sonho mau
mas não era sonho
era o vil cartão de boas-vindas
à sociedade "moderna".

                    Set- 2025

Cotidiano

a cada dia ao despertar 
eu acredito na vida
apesar das toneladas de rancor alheio
que carrego sobre os ombros
competentes no intento
fizeram tudo
sob o manto secreto da noite silênciosa
sob cada pedra do caminho
por onde me desloco
deslocado de tudo 
escancaradamente adverso
em cada esquina um olhar de esguelha
a cada rua onde vai meu passo
já cambaleante
a desconfiança a vigiar cada gesto
que natural me escapa
já não tenho destino
que talvez fosse um bar ou biblioteca pública
onde depositar os fragmentos
das certezas tortas
de cada olhar que atravessou
minh'alma tão inutilmente
obstinada

                             Set- 2025

sábado, 30 de agosto de 2025

Olho por olho

meu verso não ostentará leveza de pétalas.
não sei enfrentar uma guerra com cravos e rosas.
porque sou um negro, 
                     numa estrutura social adversa.

                          Agos- 2025

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Quilombo da palavra

a palavra é o meu quilombo
onde liberto da servidão cotidiana
exerço o direito à expressão
e passo a ter voz ativa
que protesta por um lugar ao sol
antes negado
usurpado a mãos de aço pelo opressor
protesta por "chega!"
ao assassinato e encarceramento
de tanto irmão
protesta por direito à minha crença
sem sofrer violência
ou discriminação de qualquer ordem
por meus direitos fundamentais
direito de ser negro
sem ser oprimido subjulgado ou relegado 
à categoria de casta inferior
direito de escolher
onde e como vou construir e usufluir
de minha vida
e escrever o exercício
de minha cidadania como quem ama 
o mocambo onde habita
e abre a porta para a manhã
entrar toda azul.

                    Agos- 2025

Conto de fadas

depois de quase 400 anos de flagelo 
os negros acordaram livres
era a abolição
depois de tantas mortes
em revoltas fugas e quilombos.
mas significava este gesto 
o início de uma luta diuturna e sangrenta
para disvencilhar toda uma casta
de homens e mulheres
da bestialidade
da subcategoria de seres humanos
a que foram atiradas
estas pessoas da pele negra.
e a veda desta sangria
de abnegação
parece não existir parece conto de fadas
contação de estória para entreter
no país do mito da democracia racial.

                            Agos- 2025

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Irremediavelmente

a eterna chibata
marcando profundamente minha carne
indefesamente negra
e o trauma profundo 
na estampa de meus dias
prostrando-me

o cárcere eterno
deixando estigmas profundos
na biografia do meu ser imutavelmente negro
irreversíveis nódoas
que desfazer e reparar 
não posso

que tisne minha história 
com os mais obscenos enganos
livrar-me-ei de toda chaga e governarei o mundo
pelo bem dos oprimidos
e sua remissão
racista

                          Agos- 2025

Emboscadas

fui calado em minhas demandas
por lanhos na carne e destroços na alma
mas parti as correntes
e me libertei das atrocidades
da escravidão.

mas inventaram
uma segunda classe de humanos
eu estava novamente subjulgado a outro humano
mais uma vez introduziram algemas
grades e correntes.

à trama silenciosa e sofisticada
implicaram-me dia após dia no passar dos anos
apesar da luta organizada de meu povo.
são visíveis as cicatrizes
e os farrapos d'alma.

deste ardil ainda sou cativo
mas virá o dia que de uma vez por todas serei apenas
um cidadão livre de fustigas e armadilhas
NEGRO, mas mais um cidadão livre
das emboscadas racistas.

                              Agos- 2025

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Banto

eu não falo banto
senão meu negro pranto
não teria este
amargo gosto de ocidente.

               Ago- 2025

terça-feira, 29 de julho de 2025

Araponga

E a negra pra os mares
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.

              Jul- 2025

terça-feira, 22 de julho de 2025

Poeta Oliveira

                             a Oliveira Silveira em memória

poeta negro misto 
de cor mista afro singular
da terra de Rosário do Sul, Touro-Passos,
na Serra do Caverá.
rascunha ao pé da folha,
a forte punho negro rebusca a língua,
desdobra o verso, 
ecos de tambor, cantar.
cantou de Palmares 
à cultura popular,
dos trabalhadores aos orixás.
e no banzo da gente negra também foi África.
o mundo está na extensão de sua obra
legítima consciência negra.
poeta negro misto,
rabisco no solo brasileiro
rebentando em arte, vistoso baobá.
messageiro exu bará.
quem dera fosse meu este estro poeta.
tramando a sua próxima
nos braços
de Oxalá.

                            Jul- 2025

A história conta

o patrão 
e seu condomínio de luxo
à base do lucro com a mão de obra
operária
o trabalhador e seu barraco
na favela nos extremos
da cidade

averigue a história 
há 500 anos e não precisarei dizer
quem tem a pele branca
quem tem 
a pele negra

                         Jul- 2025

O coração

uma pedra é apenas uma pedra
de aspecto frio e superfície dura
restringe-se à inércia
de ser pedra

já o coração
pulsante no peito do homem
expande-se matéria viva 
e sentimento

e sob qualquer argumento
quando este se reverte em pedra
e de ódio se abastece
é apenas queda

que se abisma nas trevas
e desfortalece

                    Jul- 2025