sábado, 6 de setembro de 2025

Rapsódia rap

de parto negro
                    em parto negro
testemunhei muito corpo negro 
-em peripécias periféricas-
                           partir num rabecão.

aí me dizem:
olho por olho e acabaremos
             todos cegos!

mas quando olho 
as estatísticas
e perscruto vivências pra estes lados
onde é que a faca fere 
                     muito mais fundo 
a serrar as pálpebras?

as mesmas pálpebras
                          de histórias
e tonalidades idênticas
das mesmas balas assassinas
às mesmas sinas.

                      Set- 2025

Escravatura

alforria consegui nos tribunais
em tardes de tensas deliberações
protestos e discussões
mas de liberdade
gozei apenas no ventre de mãe África
de onde fui capturado e trazido
e por arrobas vendido
e jogado em frias senzalas
nas terras de homens sórdidos
com sede de ouro e posses

                        Set- 2025

Histórias de terreiro

no couro do tambor 
sons d'África a descontruir estigmas
que vem trazendo de longe a raça
plantados à traição na pele
pra disfarçar enganos
vieram contar histórias de abolição
mas não desceu a farsa
goela abaixo
porque tambores d'África de livres sons 
de trovão 
batuque em couro forte
desenham em noites de terreiro
a verdadeira história
de meu povo
e as digitais no couro
gritam liberdade

                   Set- 2025

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

As angústias de um negro

as angústias de um negro
são os fantasmas de um tempo cruento
ainda vivo na memória do corpo
tempo de ferros e ferrugens

as angústias de um negro
são os estigmas de vergonha nos guetos da pele
cicatrizes do parto das sujas violações
marcas da falência nossa

as angústias de um negro
é abraçar o dia a dia naturalizado nas sombras
tranzido com a farsa a sugar-lhe o sangue
a fazer-lhe natureza morta

gingando a sorte a escapar por um fio

                           Set- 2025

Porque hei de lutar

porque hei de lutar
mesmo usados muídos pilados vendidos trocados
como diz o bonito jongo
porque hei de lutar
mesmo depois de bombardeado no íntimo
pelo ocidente sem qualquer pudor
porque hei de lutar
mesmo depois do ensino fajuto
do alimento mirrado da condição de subempregado
da liberdade vigiada
da maturidade tardia do amor à míngua
da cachaça engolida contra vontade
das pedras brutas na história de meus ombros
eu hei de lutar hei de lutar

                      Set- 2025

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Por conta e risco

não fui à universidade para além de constatar
meu lugar do lado externo de seus muros.
não cheguei, nas minhas andanças,
além das linhas de limite da placenta a muito apodrecida.
prova cabal que fui concebido,
gestado e parido, mesmo que dum ventre negro.
este ventre que escapa a vis afrontas.
hoje resta-me o vulto a palmilhar os chãos da cidade,
por conta e risco de minha sorte esquálida.

                                     Set- 2025

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Porque sou negro

das senzalas às avenidas
viadutos e arranha-céus de sangue negro
forjou-se a cidade que hoje estranha-me.
e o próprio país, no seu porte
robusto, tem timbrado 
na sua história, sangue escravo.
e sequer me sinto
acolhido onde quer que eu vá dentro
da terra natal.
em cada pedra do chão onde piso
reconheço-me mendigando
uma paz que não encontro, onde eu possa
me alargar, e fazer parte
do entorno por onde me desloco,
onde eu possa sorver o ar
e livrar-me da canga pesada
a tolher-me o ser.
meu refúgio neste lugar onde me fiz,
nesta nação onde pensei
ser minha casa, é nas páginas de um livro, 
quando me encontro só
junto a meus dilemas, 
resolvendo minhas dores e alegrias, 
(poucas são as alegrias), 
nesta sociedade engatinhando.

                            Set- 2025

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Mais um dia

lanço-me à rua toda manhã
indagando, por que toda roupa que visto
não me cai bem?
é uma atenção da polícia
um puxar de bolsa pra frente
um subir os vidros dos carros
e um céu azul anuncia um dia democrático
não fossem as sombras
dos homens assombrando
os caminhos por onde entra e sai
minha boa fé no mundo.
não é capitalista minha fé, mas sigo a turba
mesmo discriminado, 
porque o pão está caro, e sobreviver
cobra seu preço.
e meu coração é uma pluma
que voa ao vento e plana e cai na grama
mesmo não encontrando
motivo pra tanta leveza
neste ar carregado
da metrópole.

                           Set- 2025

Meus sapatos

meus sapatos já envergados
pelos cantos de tantas pedras e chãos
arrastando o peso das minhas angústias
trazem no seu mutismo
notícias deste teatro de bonecos
que de norte a sul
arvoram-se a devastar
profundamente cada alma que tem um sonho
com sua artilharia de guerra
aposta para o genocídio
dos condenados desta terra
olho com olhos de tristeza esta comédia bufa
que leio no seu couro exausto
e já desenganado adormeço as mágoas
sob as palpebras cansadas

                                  Set- 2025

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Boas-vindas a um negro

havia gritado a plenos pulmões
milhões de vezes liberdade
e como no poema
não parei de gritar não parei
também evoquei Zumbi para guardar
as entradas de meu corpo frágil
mas escutava apenas
minha própria voz num eco
e de chapéu no chão
corpo prostrado sobre um sangue coagulado
sangue dos ausentes da guerra
desesperava-me
quando do outro lado da rua
uma cruz em chamas aterrorizava
num descampado
nos galhos fortes da única arvore
uma forca jazia em silêncio
pensei estar sob efeito dum sonho mau
mas não era sonho
era o vil cartão de boas-vindas
à sociedade "moderna".

                    Set- 2025

Cotidiano

a cada dia ao despertar 
eu acredito na vida
apesar das toneladas de rancor alheio
que carrego sobre os ombros
competentes no intento
fizeram tudo
sob o manto secreto da noite silênciosa
sob cada pedra do caminho
por onde me desloco
deslocado de tudo 
escancaradamente adverso
em cada esquina um olhar de esguelha
a cada rua onde vai meu passo
já cambaleante
a desconfiança a vigiar cada gesto
que natural me escapa
já não tenho destino
que talvez fosse um bar ou biblioteca pública
onde depositar os fragmentos
das certezas tortas
de cada olhar que atravessou
minh'alma tão inutilmente
obstinada

                             Set- 2025

sábado, 30 de agosto de 2025

Olho por olho

meu verso não ostentará leveza de pétalas.
não sei enfrentar uma guerra com cravos e rosas.
porque sou um negro, 
                     numa estrutura social adversa.

                          Agos- 2025

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Quilombo da palavra

a palavra é o meu quilombo
onde liberto da servidão cotidiana
exerço o direito à expressão
e passo a ter voz ativa
que protesta por um lugar ao sol
antes negado
usurpado a mãos de aço pelo opressor
protesta por "chega!"
ao assassinato e encarceramento
de tanto irmão
protesta por direito à minha crença
sem sofrer violência
ou discriminação de qualquer ordem
por meus direitos fundamentais
direito de ser negro
sem ser oprimido subjulgado ou relegado 
à categoria de casta inferior
direito de escolher
onde e como vou construir e usufluir
de minha vida
e escrever o exercício
de minha cidadania como quem ama 
o mocambo onde habita
e abre a porta para a manhã
entrar toda azul.

                    Agos- 2025

Conto de fadas

depois de quase 400 anos de flagelo 
os negros acordaram livres
era a abolição
depois de tantas mortes
em revoltas fugas e quilombos.
mas significava este gesto 
o início de uma luta diuturna e sangrenta
para disvencilhar toda uma casta
de homens e mulheres
da bestialidade
da subcategoria de seres humanos
a que foram atiradas
estas pessoas da pele negra.
e a veda desta sangria
de abnegação
parece não existir parece conto de fadas
contação de estória para entreter
no país do mito da democracia racial.

                            Agos- 2025

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Irremediavelmente

a eterna chibata
marcando profundamente minha carne
indefesamente negra
e o trauma profundo 
na estampa de meus dias
prostrando-me

o cárcere eterno
deixando estigmas profundos
na biografia do meu ser imutavelmente negro
irreversíveis nódoas
que desfazer e reparar 
não posso

que tisne minha história 
com os mais obscenos enganos
livrar-me-ei de toda chaga e governarei o mundo
pelo bem dos oprimidos
e sua remissão
racista

                          Agos- 2025