terça-feira, 9 de setembro de 2025

Desejos represados

aqueles toques agrestes no teu corpo
que as mãos indecisas e ainda jovens doaram
não foram sagrada música entoando liberdade
em noites de antigos cativeiros

foram desejos represados
                   de um cotidiano ausente 

e as cartas que eram para ser de amor
são avulsos bilhetes imaginados nalgum tempo
para lembrar-te
                   -como fosse necessário-

que teus beijos são inesquessíveis e as chaves
precisam estar sob o capacho da porta.

                     Set- 2025

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Artérias abertas

terra indígina sangrando
artérias abertas no brasil extremo
protesto indígina 
                frente ao planalto

ouro escoando pelas
fronteiras

hipocrisia parlamentar
conchavos negociatas propina
e a bunda opulenta
              sentada sobre a taba

                       Set- 2025


Crônica de Brasília

o poder em Brasília
roendo até o osso do erário
            a soma da magra
renda operária

o poder em Brasília
              engordando o gado
para próxima feira
agropecuária.

o poder em Brasília
sem nome sem rosto ou digitais
            engordando o gado
com a gorda conta
bancária

                  Set- 2025

Esquinas

as ruas aliciam jovens
em papelões sob as maquises
                         doendo

as ruas seduzem jovens
              até a próxima esquina
rasgando a pele
                  pelos ossos.

                   Set- 2025

domingo, 7 de setembro de 2025

Escolhas de cativeiro

o sequestro do meu corpo quilombo
pelos tremores de prazer do corpo teu
ganhou-me naquela noite amena
pagou-se o resgate
mas cativo dos teus desmandos
não quis a sagrada liberdade
um corpo negro é talhado de muitos nãos
desenganos e desencontros
mas é consagrado no amor por escolhas
como um corpo que não sofreu
cativeiro na história
se escolhi o calor dos teus braços
considere a licitude desta inacabada 
crônica do nosso encontro
fato consumado e imutável de amor.

                      Set- 2025

Swing da cor

depois de tanto fragelo e senzalas
de tantos estigmas e eitos
a dilacerar a alma em angustiadas noites
não descansei nas lavouras
nas lutas e revoltas
na macumba dos quilombos
sequer descansarei meus domingos
com televisão futebol
igrejas ou carnaval
eu quero pena capital ao opressor 
de meu povo gastigado
gozando do fruto do sangue ancestre
em tardes de sol churrasco 
e whisky nas piscinas
das mansões dos bairros nobres
com cheiro de cadáver 
apodrecendo de cada pele negra
em lanhos fatiada
há 500 anos de uma história encoberta
com verniz de legalidade.

                        Set- 2025

Eu tenho uma história

não a quero nesta noite
turbulenta de sirenes tempestade e caos
na cidade sitiada de pássaros e escuridão
não quero a farsa de mares
nunca antes navegados
quero a verdade dura dos nativos da terra
quero conhecer teus abismos
das janelas de teus olhos
e abrir-te os portões deste corpo quilombo 
para servir meus segredos
num banquete de boas-vindas
você não merece
a superfície falsa de terras inesploradas
tenho na biblioteca da pele
pinturas rupestres
que remontam a tempos de descobertas
para um mergulho fundo
na história represada
do latifúndio do meu ser amadurecido
ostentando pedras das tantas ruas
na memória dos sapatos.

                        Set- 2025

Desejo

não, eu não te quero perto,
de segunda à segunda por todos os anos
que me restam de vida,
à meia distância dos meus humores carnais.
percebendo meus dilemas íntimos
numa sacada de olhar.
eu te quero dentro,
feito a estrutura esquelética
que minha carne penetra pelos poros
numa complexa engenharia.
não quero simplificar.
falando assim talvez entendas
que esta distância de quilômetros
de asfalto e céus
esgota o ânimo de meu corpo guardado 
para desfrute dos teus sentidos.

                   Set- 2025

Livro sagrado

não pude ler este livro na íntegra
instigante livro inacabado
por uma noite passei meus olhos por suas páginas
noite especialmente saborosa
deixei-lhe nalgum canto que não encontro
talvez seja sua nudez secretamente indevassável 
por olhos com urgência de iletrado
por timidez congênita talvez
refiro-me a um livro corpo mulher
fechado em sagrados rituais de terreiro

                  Set- 2025

Fagulha

entre o dever e o fogo
de nosso encontro
perdemo-nos no remoinho de gentes
e a fria carnadura da cidade
fomos mais as regras das obrigações diárias
a nos ditar o ritmo da vida
e a chama ardendo cedeu prematura
mas sob as cinzas
restou a fagulha que quando menos 
se espera havendo lenha 
em fogo se torna
e nosso encontro incendeia
e passamos a viver 
um no peito do outro
perpetuamente

                   Set- 2025

sábado, 6 de setembro de 2025

Velhas crenças

segundo todos os indícios
não houve libertação
apenas uma farsa mal acabada 
de abolição.

que atrela o negro
à penúria de possuir a pele negra.
de atar o indivíduo à mesma 
danosa sorte.

que faz de gente besta
a chafurdar migalhas de existência
em mofados currais ungidos
de velhas crenças.

                    Set- 2025

Rapsódia rap

de parto negro
                    em parto negro
testemunhei muito corpo negro 
-em peripécias periféricas-
                           partir num rabecão.

aí me dizem:
olho por olho e acabaremos
             todos cegos!

mas quando olho 
as estatísticas
e perscruto vivências pra estes lados
onde é que a faca fere 
                     muito mais fundo 
a serrar as pálpebras?

as mesmas pálpebras
                          de histórias
e tonalidades idênticas
das mesmas balas assassinas
às mesmas sinas.

                      Set- 2025

Escravatura

alforria consegui nos tribunais
em tardes de tensas deliberações
protestos e discussões
mas de liberdade
gozei apenas no ventre de mãe África
de onde fui capturado e trazido
e por arrobas vendido
e jogado em frias senzalas
nas terras de homens sórdidos
com sede de ouro e posses

                        Set- 2025

Histórias de terreiro

no couro do tambor 
sons d'África a descontruir estigmas
que vem trazendo de longe a raça
plantados à traição na pele
pra disfarçar enganos
vieram contar histórias de abolição
mas não desceu a farsa
goela abaixo
porque tambores d'África de livres sons 
de trovão 
batuque em couro forte
desenham em noites de terreiro
a verdadeira história
de meu povo
e as digitais no couro
gritam liberdade

                   Set- 2025

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

As angústias de um negro

as angústias de um negro
são os fantasmas de um tempo cruento
ainda vivo na memória do corpo
tempo de ferros e ferrugens

as angústias de um negro
são os estigmas de vergonha nos guetos da pele
cicatrizes do parto das sujas violações
marcas da falência nossa

as angústias de um negro
é abraçar o dia a dia naturalizado nas sombras
tranzido com a farsa a sugar-lhe o sangue
a fazer-lhe natureza morta

gingando a sorte a escapar por um fio

                           Set- 2025