sábado, 20 de setembro de 2025

Dos prazeres de agosto

não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.

                     Set- 2025

Dor secular

não conheço palavra que depure
o sangue jorrado dos "disponíveis" das terras desvalidas 
           do torrão de minha gente
no entanto tenho nas mãos um livro pejado de palavras brancas
vertidas sobre a desdita que enverga
meus ombros cansados 
                     de argumentos vazios
e mesmo entre as imensas pedras deste muro 
que estorva a liberdade de meus pés pela cidade
recuso-me a servir minha pele em tiras aos comensais 
desta república de absurdos pátria amada.

                          Set- 2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Alma - negra -

há uma paz rondando as esquinas
que não contempla meu corpo negro
minha pele imersa nas trevas
quando invisto em livrar-me de estigmas
legados a mim por um pacto
                                              obscuro
fronteiras de quintais invadidas
mares sangrentos de um macabro mercado
de necrópole das marés às margens do mundo

eu digo irmão:
não há perdão no vale atrás das montanhas
lá onde todos plantam e colhem e comem
idealizam constroem e moram
sofrem alegram-se e amam
em comunhão com a branca manhã
que rompe feliz
entre as grades do peito
coração quilombo.

                    Set- 2025

Cotidiano

sempre um poeta nas ruas assombradas
da cidade arruinada
e mãos de mando nas luxuosas salas de vidro
a produzir gordas rendas do arsenal de mãos operárias
o poeta num banco de praça lamenta o espetáculo bufo
- a vida pra lá deste jardim é triste.
                                    e obedientes ovelhinhas 
a cumprir expediente nas repartições
nos escritórios nas capitalistas engrenagens
de desigualdades
o poeta recolhe o chapéu pousado no banco da praça
guarda os papéis na bolsa de couro
e parte cabisbaixo com tantas misérias
pra encaixar no poema que tece sob a crespa dor
                              do seu dia de cão.

                             Set- 2025

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Uns olhos

ei,
irmão de pele anseio e adversidade
rebento da incerteza
                          entre as feras
                      daqui é possível te ver inteiro
esta cristalina pureza 
nos teus olhos
que mesmo na sorte são verdes ou azuis
antes é a grande expectativa
                                            pelo acerto almejado

expectativa geral

digo-te, 
há um quilombo no fim de cada esquina
da cidade tormentosa.
mesmo sob a vontade de nos querer enredar
neste novelo de insanidades.
e em nosso quintal um tambor 
à nossa espera.

                          Set- 2025

Se há conselho!...

toca tambor moleque toca tambor
que teu caminho é cheio de pedras e obstáculos
toca tambor que tua pele é negra
e tambor uma universidade
toca mas seja amigo das letras
toca tambor que tambor não é utopia
feito o almejar de toda a raça
toca que Ganga Zumba chega à pele fatiada em tiras
toca que Zumbi chega ao aferro e sangue vertido
toca que este som é o som de cratera do poeta
não de esquecimento do inimigo
tira do couro toda a luta de uma raça
toca que tambor é território livre de canga
é teu Palmares moderno
toca tambor e seja amigo dos livros
que o livro é uma placenta que se rompe
e o tambor a mãe que ensina educa e cuida
no seio deste encontro só nosso.

                             Set- 2025

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Refleções

o que eu quero tirar dum copo
se sou todo estilhaços de vidro nesta cadeira
e pensar que teus braços são muito mais confortáveis 
que este frio balcão de bar
a noite a escorrer-me por entre os dedos

mas senãos gritam sob o dilema que se desenha
fria e infalivelmente no pensamento

ser negro é olhar com muito mais cuidado
as ruas desertas por onde entram e saem os desejos
para sopesar na solidão de quatro paredes
o enredo de um encontro fortuito.

                                Set- 2025

Meu segredo

aquela sede de lábios
como a tirar-te da boca o ser inteiro
aquela fome de amor na carne
como a privar-me dos sentidos que a razão impõe
tudo isso no instante impreciso de um
corriqueiro - bom dia! 
de dois colegas de escritório.
nos becos da cidade
agitada.

                     Set- 2025

Ars poética

quando tua ausência se faz
e a noite embebida em silêncio e desastres
a bafejar seus fantasmas de brisa
desafia minha ars poética

a noite é uma abstração indefinida
do teu corpo desnudo
teu beijo escorrendo dos lábios 
a tisnar minha camisa

a aridez do papel inquisidor
e o desafio escruciante de inventar-te 
em versos conexos com o desejo
e você ainda assim se ausenta

indiferente à minha dor de poeta

                     Set- 2025

Desejos represados

aqueles toques agrestes no teu corpo
que as mãos indecisas e ainda jovens doaram
não foram sagrada música entoando liberdade
em noites de antigos cativeiros

foram desejos represados
                   de um cotidiano ausente 

e as cartas que eram para ser de amor
são avulsos bilhetes imaginados nalgum tempo
para lembrar-te
                   -como fosse necessário-

que teus beijos são inesquessíveis e as chaves
precisam estar sob o capacho da porta.

                     Set- 2025

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Artérias abertas

terra indígina sangrando
artérias abertas no brasil extremo
protesto indígina 
                frente ao planalto

ouro escoando pelas
fronteiras

hipocrisia parlamentar
conchavos negociatas propina
e a bunda opulenta
              sentada sobre a taba

                       Set- 2025


Crônica de Brasília

o poder em Brasília
roendo até o osso do erário
            a soma da magra
renda operária

o poder em Brasília
              engordando o gado
para próxima feira
agropecuária.

o poder em Brasília
sem nome sem rosto ou digitais
            engordando o gado
com a gorda conta
bancária

                  Set- 2025

Esquinas

as ruas aliciam jovens
em papelões sob as maquises
                         doendo

as ruas seduzem jovens
              até a próxima esquina
rasgando a pele
                  pelos ossos.

                   Set- 2025

domingo, 7 de setembro de 2025

Escolhas de cativeiro

o sequestro do meu corpo quilombo
pelos tremores de prazer do corpo teu
ganhou-me naquela noite amena
pagou-se o resgate
mas cativo dos teus desmandos
não quis a sagrada liberdade
um corpo negro é talhado de muitos nãos
desenganos e desencontros
mas é consagrado no amor por escolhas
como um corpo que não sofreu
cativeiro na história
se escolhi o calor dos teus braços
considere a licitude desta inacabada 
crônica do nosso encontro
fato consumado e imutável de amor.

                      Set- 2025

Swing da cor

depois de tanto fragelo e senzalas
de tantos estigmas e eitos
a dilacerar a alma em angustiadas noites
não descansei nas lavouras
nas lutas e revoltas
na macumba dos quilombos
sequer descansarei meus domingos
com televisão futebol
igrejas ou carnaval
eu quero pena capital ao opressor 
de meu povo gastigado
gozando do fruto do sangue ancestre
em tardes de sol churrasco 
e whisky nas piscinas
das mansões dos bairros nobres
com cheiro de cadáver 
apodrecendo de cada pele negra
em lanhos fatiada
há 500 anos de uma história encoberta
com verniz de legalidade.

                        Set- 2025