sábado, 4 de outubro de 2025

Nuanças

seja mulata seja pardo ou crioulo
sambando na avenida
                        ou no chão de fábrica
não importa o tom da sua dor
se não pode dizer que é branco é negro
o branco gosta 
                       de ser branco
no campo ou na cidade
e o negro tem que gostar de negro ser 
onde quer que esteja
mesmo com este lamento
                           de antigas datas
reverberando na integridade do corpo
isto é negritude
        é isto conciência negra.
libertar-se das correntes de desespero
romper com os elos desta dor.

                          Out- 2025

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O livro

eu gosto do objeto livro
e gosto ainda mais do que ele encerra
em forma de palavras
e gosto mais ainda das palavras
quando elas dizem
em altivas e negras imagens
as demandas 
           e angústias
de meu povo ignorado.

                    Out- 2025

Perspectiva

ouço uma música 
                           que pergunta:
"o que que tem na sopa do nenem?"
na sopa do nenem 
                     tem miséria
desespero de mãe
e uma fome desatada
que vem marcancando 
                          historicamente
com estigmas eternos
o ontem
                o hoje
                            o amanhã.

                         Out- 2025

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Roleta-russa

vejo através desta janela
os meninos do centro da cidade brincando 
de roleta-russa
heróis das angústias alheias
enquanto o burguês curte uma de felicidade
com um conforto surrupiado 
que a séculos vem herdando e vai legar
e os heróis do centro da cidade
estão nus e crackeados
a metropole é um covil de pólvora prestes a explodir
no colo dos inocentes do centro da cidade
cheirando à aids miséria e fome
quem salvará os valentes do centro da cidade
que ostentam algemas no pulso sol de marquise 
e poeira de chão de cela de cadeia
mais dentes cariados e ossos amostra sob a pele?
o burguês que estuda direito
no Largo São Francisco?

                          Out- 2025

Oceano

pacífico oceano
que sob a imensidão és tão imenso
de azul e vida
selvagens águas de lágrimas infinitas
por que permitistes que essas naus obscuras de tantos crimes 
e massacres atravessassem tuas águas rumo à dor
torturante de tanta gente?
por que sepultastes tantos corpos marcados
nas tuas marés?
por que sob o céu cristalino acolhestes no teu seio
homens tão cruéis nos intentos e ações
de mãos assassinas
a subjulgar e torturar tantos corpos negros
no todo e no fim inocentes?
por quê? 
             por quê?

                           Out- 2025

Um estranho

por justiça para meu povo eu brigo
e brigo cotidianamente como os que brigam
por um prato de comida cotidianamente
e uma briga das mais duras posto que com palavras
                          no entanto brigo
e dou a vida por esta briga
dou a vida
mas sou um estranho
           um estranho em minha própria terra
do que vale a palavra dum poeta? 
não apenas dum poeta desta pátria devastada
        mas dum poeta negro desta pátria?
como um Jesus negro é estranho
aos olhos até do mais negro dos homens de cor
                      eu sou um estranho
e é estranha simplesmente a minha negritude
e mais estranha esta negritude é.
                         é estranha minha negritude.
e mais estranha brigando com palavras por justiça 
ao povo negro desta terra.

                          Out- 2025

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Cardu-me

busca-te a imprecisão amarga
de meu verso mulher
talvez atrás da noite que ficou perdida
nalgum tempo que fez-se brisa
talvez neste cardume 
de palavras que é o poema
talvez na imprecisa memória dum instante
e te encontre talvez num tempo
que não há
não pode haver
no fabuloso instante 
de um sonho

                        Set- 2025

terça-feira, 30 de setembro de 2025

13 de maio

13 de maio,
rio sem leito desaguando n'abismo.
13 de maio,
braço de arroio seguindo para o breu.
do ajuste malacabado 
da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
apaziguando a culpa 
da cabeça pesada do império.
atando ao passo do escravo a bola de ferro
da própria sorte.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos confinados,
escravos do vento contrário,
13 de maio.

                                  Set- 2025

Embriaguez

destilar no corpo o sabor 
                              de tua boca
produzindo a bebida que me entontece 
                             e embriaga
e no trançar de pernas 
deste amor
perder-me pelas ruas
                    do teu ser mulher.

                          Set- 2025

Os ratos

os ratos periféricos
           alimentam-se de nossos lixos
nossos esgotos nossos
                       restos
quando se tem descarte
         da sobra dos homens pobres
são seres esquálidos

os ratos dos bairros nobres
opulentos bichinhos saudáveis
alimentam-se
            de restos finos
                      da sobra dos abastados
nutrem-se mais que muitos
                  meninos

                      Set- 2025

sábado, 27 de setembro de 2025

Noite alta

o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável 
                       de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
                     o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
                       de nossa íntima 
                                              tempestade.

                        Set- 2025

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Cabeleira

ai ai ai, 
como sofre minha sobrinha
penteando a cabeleira de preta.
fosse ela eu deixava embaraçar e crescer.
mas é uma criança
bombardeada por costumes alheios à cultura de seu povo.
cabelo de preto não tem amizade com pente.
foi um branco quem inventou o pente
como quem inventou escravizar
castigar fisicamente e torturar
prender gente em ferro 
e senzala.

                         Set- 2025

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Uma lembrança

a baba do seu ódio não me afeta
já não podes mais me açoitar com rebenque
nem me agrilhoar no tronco
em logradouros
ou me trancar na senzala.
há uma fronteira que não podes mais atravessar
tendes embora respeitado muito pouco
os limites
entre o seu querer
e o poder.

                            Set- 2025

Senãos

vê-se pelas favelas afora
preto comendo preto pelas entranhas
depois de terem sido comidos
                                               por brancos
também pelas entranhas
por toda extensão da história.

o que deles poucos sabem

mas há um verdadeiro câncer
precisando ser extirpado do tecido social
- e não é o irmão de cor:
o câncer chamado racismo.

                      Set- 2025

domingo, 21 de setembro de 2025

O que os livros calam?

de repente este vento leste
infinitas vezes senti na pele seu furor soprando dos oceanos
trazendo notícias de velhos fatos incógnitos dos livros
soprando a dor latente de tantos séculos esquecida das nações
que dorme pousada na pele de uma raça
os olhos traspirando medo
o corpo muído de exaustão
nos ombros o peso da tragédia
que não apagaram os séculos
e querem contar a história encoberta às novas gerações
as trevas dos mares escondem segredos de antigos flagelos
boiando nas vagas o silêncio de bocas amordaçadas
e a triste constatação:
os livros calam obrigações prementes.

                      Set- 2025