quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Crônica despóstica de uma África viva

astros analfabetos
a riscarem os céus carentes de pássaros
nas trevas poluídas da metrópole
noturna.

NÃO!

adultos jovens e crianças negras
a catarem em suas vidas de desastres
uma réstia do alfabeto
massacrado
pela soberba egoísta
do homem
branco.

                    Dez- 2025

sábado, 6 de dezembro de 2025

Despertar

a lua periférica é vesga
catando passos negros aos tropeções
com vestígios de senzala e dor
entre as fibras ópticas
do progresso.

                   Dez- 2025

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Crua realidade

manicômio para o negro
o viés a inclemência
e o ódio do conjunto da sociedade e suas
instituições corrompidas,
mais as fezes fartas do capitalista.
para o branco
sombra, água de coco
e a paz dos
dias amenos.
uns braços da tolerância,
todo amor e afeto.

                   Dez- 2025

Humilhação

branquitude humilha o negro
desde que o negro é raça.
primeiro veio a exploração dos disponíveis
depois o espólio dos abnegados.
os últimos dos negros da história
não contada.
hoje é o negro com a branca
e os seus afetos de escárnios e fel
sobre o desespero.
e a negra com o branco
a perpetuação 
do domínio dos bárbaros.
sobre a ingenuidade.

                 Dez- 2025

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Madrugada

madrugada autivagante 
eu acordo todo mundo descansante
e saio escuro adentro
                           passo lento
de sonante
          para a realidade da batalha

                        Nov- 2025

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Escola primária

oh deus, o que foi a escola da infância?...
tínhamos todos caderno, lápis, borracha e régua.
em gradações diferentes, tínhamos.
bem ou mau vestíamos e calçávamos.
mas apenas eu tinha a pele negra.
a professora sangue azul
gostava e desgostava de uns e de outros.
mas apenas a mim lançava opressores olhares e palavras.
os livros todos nos levavam ao Novo Mundo,
mundo de príncepes e princesas rosas 
de tão branquinhos.
e eu sequer sabia ver 
a bola de ferro que prendiam
aos meus calcanhares.

                        Out- 2025

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Diagnóstico

quando nasci, nenhum anjo
torto ou reto, de sombra ou de luz, me veio dizer nada.
porém, nasci curioso de mais não poder.
mas na escola, diagnosticaram-me desinteressado.
pego hoje um Drummond e me fastio, 
quase nada ou nada escrito ali me diz respeito.
Drummond é poeta eloquente,
como usa em profusão as palavras Drummond.
talvez, ou certamente, houvessem diagnosticado interesses 
outros que não aqueles oferecido na escola de então
minha veia poética ostentasse a estatura 
de um Drummond?

                         Out- 2025

A São Paulo das sombras

estava bastante sujo
ou era negro o mendigo que lançava olhares
de espanto e desespero para o dia?...
por que são pretos ou quase 
pretos os mendigos que vagam distâncias?
nos cemitérios, nas calçadas,
nos esgotos, 
na Praça da República,
são negros os mendigos que vejo!
o que nem todos veem ou quase ninguém vê, 
envolta por sombra espessa,
é esta ferida exposta 
sob o claro céu 
da cidade.

                        Out- 2025

domingo, 26 de outubro de 2025

Uma doméstica

um bambolear de modelo 
de passarela aprendido nos atropelos da caminhada.
a roupa escolhida no capricho de cinderela negra, do jeito que deu.
um resto de sono imperceptível nos olhos.
preta, muito preta! 
linda, muito linda!
muito alheia às complexidades sociais, espana tudo da mente:
exploração da mão de obra infantil, trabalho escravo,
estatística dos homicídios no país;
notícias que ouviu no rádio às primeiras horas do dia.
espana tudo da cabeça,
lava e seca as dores da vida numa brastemp mordeníssima.
direto d'alguma favela no extremo oposto da cidade,
desponga do ônibus no ar nobre dum bairro fino.
o que ela sonha, impossível saber,
mas ia ligeira ao encontro
do dever cumprido.

                                   Out- 2025

sábado, 25 de outubro de 2025

Pela janela do trem

e essa noite de estrelas 
apagadas pairando nos rincões
da metrópole...

num sopro inerte 
feito monumento à miséria 
dos desgraçados
do mundo, 
a favela equilibra-se.

o que é a noite por lá?
as janelas dos barracos trocando
fios de conversa de porões...

o amor esquálido
de uma mãe repleta de culpa...
a pouca paz entre os
becos, uma ferida imensa
que não cura!?

e os sofisticados 
nós nas gravatas do poder, vizinhos,
pesando sobre esta dor...

                Out- 2025

Pedinte no centro da cidade

40 graus, um grande inferno,
a estufa da rua não tem ar condicionado.
o asfalto sobe-lhe ao rosto, 
cobre-lhe o corpo, não há distinção.
ele não tem onde chegar para descansar a vida,
trancar os olhos, ignorar o mundo.
num sono redentor
e profundo.
fome não sabe o que seja, quer um cigarro,
enseja uma marquise.
para largar o corpo de um inchaço
de decomposição.
defunto que ambula a morte nos calcanhares.
a vida em fragalhos e seus pertences
de pano roto, a roupa do corpo, 
o fundo do poço, 
mais nada.

                 São Paulo Out- 2025

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Poe mar

tirar da palavra o sumo
o somos negros
da palavra cheia de ginga escorregada 
da memória
do aprendido em velhos cadernos de infância
dos livros lidos na madrugada
palavra que dialética pousa na noite insone
duma folha em branco.

e nos becos desta noite 
desesperadamente grande
penetrar mudamente na nudez de cada verso 
e extrair o rumo dos passos desta raça
tão acostumada a curvar-se
diante do rei

                       Out- 2025

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Desamor

tem certas palavras
dos homens que nos governam
que parecem as da 
                        ku klux klan

tem certas caras
dos homens que nos governam
que parecem as da 
                        ku klux klan

tem certas ações
dos homens que nos governam
que parecem as da 
                        ku klux klan

quando será que perdemos 
             o amor
por nossa pátria?

                     Out- 2025

Nos corredores da noite

esta carne nada vale amor
no entanto este desejo não arrefece
da tua boca úmida 
do teu corpo quente
e o que posso fazer são versos
enquanto a noite acentua
este alarido de paredes de senzala
e seus gemidos de dor
já procurei além da noite 
noite que fere qual ferro na carne
mas encontrei uma voz
de medo ou indiferença nos teus olhos
a gritar solidão
o verme virá comer em horas mudas
tudo que pensei para nós
e na garganta do verme estará o verbo
mais a luz de teu nome
a lhe obstruir o ar
só então estarei satisfeito
porque estará tudo acabado 
               para sempre.

                          Out- 2025

Preto de alma branca

este preto que se fez gente
sob os cuidados da mãe crioula se esfolando
no tanque com a roupa suja do patrão
do pai negro deixando a alma
no cabo da enxada
agora cospe na cara da luta dos pais
escarra nos cornos da luta ancestre
dizendo que não há racismo 
nesta pátria amarga
que o negro se faz de coitado
fazendo-se vítima
este preto de que falo
é tão branco quanto a folha
onde teço estes versos.

                    Out- 2025