Poemas de temática social onde aborda, em linguagem simples, de maneira aberta e franca a fome, a miséria, as desigualdades e os privilégios da elite brasileira, e, voltados para a condição do negro e afro-descendente no Brasil fazem menção a fatos históricos desde o continente de origem (África) aos dias atuais, ao amor, à paixão e ao desejo.
domingo, 26 de julho de 2026
Dos prazeres de agosto
não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.
Set- 2025
Noite alta
o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável
de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
de nossa íntima
tempestade.
Set- 2025
Nos corredores da noite
esta carne nada vale amor
no entanto este desejo não arrefece
da tua boca úmida
do teu corpo quente
e o que posso fazer são versos
enquanto a noite acentua
este clamor de paredes de senzala
e seus gemidos de dor
já procurei além da noite
noite que fere qual ferro na carne
mas encontrei uma voz
de medo ou indiferença nos teus olhos
a gritar solidão
o verme virá comer em horas mudas
tudo que pensei para nós
e na garganta do verme estará o verbo
mais a luz de teu nome
a lhe obstruir o ar
só então estarei satisfeito
porque estará tudo acabado
para sempre.
Out- 2025
Abraço
nem povos extintos pela guerra
nem livros inacabados que não chegaram a ser
nem escombros de pétalas no jardim do peito
nada que consuma a força de mil braços
ou que sepulte a madrugada embriagada
dos loucos da cidade
nem o cais do porto de muitos séculos
nem os logradouros insalubres da província
de onde os donos de terras negociavam seres
nada
nada nos afastará
da comunhão de nossos corpos
desesperadamente entregues à bruma da madrugada
nada impedirá que renasçamos onde nasce nosso afeto
no alvoroço de nossos braços
encontrando-se no meio da noite
Jan- 2024
Terra do meu amor
terra seca que não germina
exausta terra rachada
terra nordestina
do meu país
terra da caatinga e do sertão
houve escravidão na sua jurisdição
mas o seu condão
é de liberdade
terra que perdeu fertilidade
tantas vezes violada
que enriqueceu iaiá e nhonhô
velha terra castigada
de vovó e de vovô
de toda uma linhagem de escravos
tantos crimes sob seus domínios
terra sagrada do meu amor
e de vovó e de vovô
deixo aqui este poema
terra que tantas vezes sangrou
onde coagulou o sangue ancestral
gigante terra menina
terra que não dá pasto nem cana
terra que não germina
minha pobre terra nordestina
Fev- 2024
Agosto
na tua pele arde
qualquer coisa de fruta
talvez o cheiro talvez o sabor
que na boca
fica depois do amor
os lençóis falam
de nossa pele indefesa
da chama que não se apaga
nossa fome
nossa orgia negra
ainda que durma
o corpo que se esgota
a noite teima e nos reclama
mesmo nas dores
que esconde a cama
amar ensina
a sina de viver o outro
o que a vida fustiga e fere
sepultamos na cinza
face de agosto
Agos- 2021
Gratidão
agradeço
ao sêmen que a transportou
ao óvulo que a recebeu
e originou
ao cordão que a nutriu
e alimentou
à placenta que a protegeu
e sustentou
à mulher e ao homem
que a criou
agradeço!
agora
nesse mundo desumano
onde há tanta injustiça
lutamos você e eu
nosso amor em apogeu
Jan- 2024
terça-feira, 14 de julho de 2026
Mágoa pequena
minha mágoa é pequena
frente ao passivo que ainda não acertamos
tens de pagar com juros altos
todo delito praticado contra meu povo
e ainda te aguarda
desonrado homem branco
tombo maior que levou o negro
nos dias de eito açoites e violações
pois nas voltas que dá o mundo
ainda volta pra sua conta
toda brutalidade cega que praticaste
sob céus pejados de estrelas
e quero apreciar num camarote de carnaval
este dia historicamente belo
Jul- 2026
segunda-feira, 13 de julho de 2026
Homens negros também amam
importar o melhor do seu mundo
diretamente para o pior dos meus dias
para colher as alegrias
que não foram possíveis colher
do que você me ofereceu nos dias cruciais
em que nossos destinos se cruzaram
você roubou minha paz
e nunca foi capaz de devolver
um gesto uma flor
sequer o desprezo me foi restituído
do seu proceder
e ficou tudo sem ser explicado
sem ser absolvido ou mesmo assimilado
feito crime contra integridade física de indefeso
cometido por alguém sem escrúpulo
Jul- 2026
Crespo
é crespa a lei dos meus fios
por decreto de cópula de pai preto e mãe cabocla
e às vezes as palavras que escrevo
ou pronuncio também fluem crespas
mas a crespitude que me forma
não atuou no palco dos poucos dias
do nosso breve lance
e mesmo assim sem alarde
embaraçou-se a fluência do que fomos dois
porque sem ser crespa nem nos fios nem na gênese
encrespaste o precoce amor pulsando
da juventude nossa
Jul- 2026
domingo, 12 de julho de 2026
Proletário marxista
mal e a duras penas aprendera a mais-valia
nos bares fronteiros ao sindicato
emancipara-se cruzando os braços nas grandes
greves dos anos 1980
rodando panfleto revolucionário
e arriscando-se em piquetes nas portas das fábricas do abc
brigando contra o patrão e as mamatas burguesas
a luta companheiro vem de longe
do barquinho de papel
desdobrando-se nas águas do tanque materno
aos negreiros cruzando os mares
das desilusões dos negros perseguidos
das terras d'áfrica castigada
da graxa no macacão operário
à posse dos meios de produção séculos antes
do início mesmo da ganância do homem
Jul- 2026
Negra Tarcila
a fímbria bordada
de teu vestido amarelo
foi outrora limete de teu corpo belo
hoje singem-te meus dedos
e nos amando
nesta relva sob o orvalho
desatamos os nós
de nossos segredos
esta intrincada orla de retalhos
que perpassa estes dias
e nos atravessa
Jul- 2026
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Vamo saravá mãinha
vamo saravá mãinha
que macumba não tem nada do demônio
é a crença do preto e sua fé
vamo mãinha agora que a gente pode bater tambor
e não apanhar de rebenque
nem da polícia
Jul- 2026
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