Poemas de temática social onde aborda, em linguagem simples, de maneira aberta e franca a fome, a miséria, as desigualdades e os privilégios da elite brasileira, e, voltados para a condição do negro e afro-descendente no Brasil fazem menção a fatos históricos desde o continente de origem (África) aos dias atuais, ao amor, à paixão e ao desejo.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Palavras à margem
andando por estas ruas
observo sujeiras hereditárias:
estreitos, ajus-
tes, a asfixia, entraves.
me bastas no culto agradecidos, mas,
fatalidade, despejados; ecos
de agonias ancestrais.
e o peito aperta...
entre um e outro olhar,
a náusea: do tanto fazer de conta,
engolir máscaras, nem tantos
e nem cismas:
dos tantos sapos e cercos,
e tanto encolher-se.
— não há espaço justo
ou vida plena
sob mãos de aço que segregam
empregadas à jugular —
já não quero nada
diante dos prazeres urbanos,
das intenções dos engenheiros da dor
e seus orgasmos deliberados
de poeira e pedras.
sorrir já não quero!...
enroscado,
o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.
Jan-2024
Arte de preto
usar cabelo de preto,
e ainda exigir do poema, verdade,
isso também é arte.
acurar de ginga a estética,
pentear com as própria regras a língua,
revolucionar-se.
no batente de todo dia,
cabeça feita, conciência negra,
e muita atitude malunga,
desembaraçar-se.
arte preta é problema
para o opressor, cabelo de preto, como bem
se entende, ameaça pro sistema
e engrenagens dos sinhôs,
encarapinhar-se.
ontem, negra pronta,
exibia argulhosa, nas ruas ásperas
da São Paulo degradada,
e de caráter racista!
a sua natureza crespa,
em fios de verdade —
insubordinada.
Jul-2026
domingo, 16 de agosto de 2026
Ainda me importo
não sei por que ainda me importo,
você ganhou contornos de rosa pra mim:
bela, mas cheia de espinhos,
murchando num canto de jardim
até cairem as pétalas...
meu delito foi te amar
diariamente, sem perceber que amor,
pra você, não bastava, e até hoje não sei
o que você esperava de mim;
talvez nada, demais talvez.
sinto, que não quis ficar,
ou nem te ocorreu: que todo homem
tem esta fase oculta, gostosa de experimentar,
a fase de tocar com os olhos,
dizer coisas inesperadas...
e as delícias de mulher,
entre pelos, lábios, fogo, sabor de urina,
e o odor único e úmido de cio,
que guardo nestas narinas largas; cato às pressas,
em qualquer rua, ou transporte público,
de seres, como eu, despercebidos.
Mar-2021
sábado, 15 de agosto de 2026
Pedinte no centro da cidade
40 graus, entardecer abrasador,
na estufa da rua não tem o ar dos escritórios.
o asfalto invade-lhe a face, penetra-lhe a pele;
não há distinção.
ele não tem canto onde chegar e restaurar o ânimo,
trancar os olhos, ignorar o mundo,
num sono que o resgate, trégua amiga.
fome não sabe o que é, quer um cigarro,
enseja uma marquise
para largar a carne dum inchaço de decomposição:
cadáver que ambula com a morte nos calcanhares.
a vida à míngua e seus pertences de pano roto,
a roupa do corpo.
distâncias estampadas na rigidez do rosto.
mais nada.
São Paulo, Out-2025
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
O capitalista
o capitalista
dispõe da máquina
e do capital,
voz potente que ecoa,
ele elege, governa e legisla,
nítido retrato
do poder absoluto.
confina o gado, respira posse,
pratica o lucro,
acumula e multiplica,
sapateia nas víceras do trabalhador,
desdobra a própria miséria
em patrimônio.
desfigura
de cifra o sabor da vida,
o seu âmago exala moeda,
impregnando de aridez
as relações humanas,
e tudo é universo
de estrelas apagadas.
ainda dorme, ad aeternum,
sobre as plumas dessa queda.
Agos-2026
Fragmentos de uma dor
ontem e hoje
o fragor do ferro doendo
ventos de estigmas e grades
a fome das elites legando
guetos de tombos e cravos
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas
através dos séculos
abuso à tenra idade
nos amplos casarões do café
o éden agora são borros
diante das pupilas serenas
de uns olhos sem culpa
as negras de leite secas
e o fruir dos desmamados
tragando noites europeias
os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele verga o corpo
ontem e hoje!
Jul- 2026
Dona Nenê
a Carmelinda Dias, minha avó.
trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo arco,
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.
trago vivo ainda, o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
esgotadas de abolições.
os olhos enxergavam sob névoa densa
um aglomerado áspero de barracos,
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.
preta que sofria a garatuja do próprio nome
trazia magras as suas estórias de vó:
retalhos de vivências antigas,
escavados da fumaça.
de utopia acuada por imensas pedras,
a Vida era negra.
Jul- 2025
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Pedaços da fome
à escritora Carolina Maria de Jesus
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio,
o trabalho e a solidão.
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto esse gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome?
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto esse gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome?
despejada de cada quarto,
de todo canto, preterida da vida.
zela da veste grã-fina,
desdobra-se a cuidar deste chão,
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!
Maio- 2020
Maio- 2020
Poeta Oliveira
ao poeta Oliveira Silveira
pois é,
poeta de Touro-Passo, universal.
a notícia do seu trabalho se espalhou,
e desaguou nestes
cantos escuros deste país.
e o seu palmares, os seus orixás,
os seus tambores, sons de cratera,
as suas origens descobertas
em velhos arquivos:
germinaram uma consciência,
a mensagem está transmitida.
e digo mais:
oliveira, poeta da conciência negra,
você deixou inscritos um desejo,
e uma luta coletiva:
de libertar as gerações vindas.
e digo, vem libertando.
pois negro
eu não sei ore-levo
de sua região,
mas a minha é escura.
Jul-2025
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que
a rã de Bashô, que será que
ele acho(u)?
o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima
o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima
do peixe?
eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se
eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se
equilibra.
espicha-se toda
a lagartixa, e devora a
espicha-se toda
a lagartixa, e devora a
barata viva.
o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será
o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será
banquete de verme!
digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade
costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental
não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência
inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo
"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é
digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade
costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental
não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência
inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo
"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é
o boi no prato?...
haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.
digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!
castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come
abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?
diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.
desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te
quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu
conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?
ENIGMA
sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes
haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.
digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!
castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come
abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?
diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.
desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te
quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu
conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?
ENIGMA
sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes
sem deitar?
A GALINHA
no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem,
A GALINHA
no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem,
dormiu.
INVERNO
bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.
PRIMAVERA
brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!
AMOR MENINO
hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.
MANHÃ
vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!
DEPOIS DA CHUVA
flutua deslumbrante
INVERNO
bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.
PRIMAVERA
brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!
AMOR MENINO
hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.
MANHÃ
vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!
DEPOIS DA CHUVA
flutua deslumbrante
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.
FLORES DE ABRIL
finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...
2011- 2012- 2013- 2018- 2019
.
sigo por esta rua.
FLORES DE ABRIL
finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...
2011- 2012- 2013- 2018- 2019
.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
No silêncio dos dias
o açoite da artilharia do tempo
contra as sólidas muralhas deste amor
tenta o sequestro
do que existe frágil na pedra
a muda apatia
na tragetória fria da queda
luz que estilhaça esplendor e treva
a força da pedra que dura
está naquele sopro efêmero de ternura
no âmago
da própria substância
e sob a fustiga do vento no tempo
esgarçado de uma dor
o alarde da gente
oculto no silêncio dos dias
Mar- 2021
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