sexta-feira, 8 de março de 2024

Teus olhos

                                       à Eliane

uns olhos cheios de abismos
cactos feridos sob pedras
olvidos e névoa espessa
que me ver já não podem

estrelas no sótão de ilusões
aos esplendores da vida dedicadas
sem que a réstia de luz
ofereça o norte que não encontram
e vagam horizontes 
perdidos no crepúsculo que não há
não pode haver no tempo

no tempo dilatado de outonos
passeavam em desespero
nas mesmas ruas
nas mesmas temidas órbitas
no adejar de silênciosas batalhas
em fragosos campos de pedra
sonhos e distâncias remotas

passaram por mim uns olhos
flores inacessíveis 
na fotossíntase das manhãs
e com viés de sepulcro
como as cores de um arco-íris
não deixaram vetígios

        Jul- 2021

quinta-feira, 7 de março de 2024

O valor do voto

- a inflação come meu salário
e eu não visto não calço não como
reclama o operário

mas o que mais pesa no bolso
é o embolso do erário
que não vai pra escola creche ou hospital

e de volta eu digo:

- o olhar mais atento ao voto
é solução única pra tal escárnio!

            Mar- 2024

Gueto

nos becos escuros das favelas todo gato é pardo e preto
do que adianta não sair do gueto se no cair de cada crepúsculo
é no "confronto" com a polícia o caminho pro sepulcro?

                 Mar- 2024

As baratas não envelhecem

em que esquina pulou do bolso 
o meu dinheiro escasso 
enquanto me distraio a pegar o trem pro trabalho?
os gabinetes da administração pública recendem a carne podre.
por que desta fome de golias, este estômago dilatado ao extremo?
tua cara larga já não cabe mais nos espelhos da tua casa.
teus retratos na parede não correspondem mais ao teu aspecto endinheirado.
tua mobília de jacarandá não suporta mais o peso da tua bolsa.
o fisco me tirou até o último centavo que evaporou sob o seu cuidado.
as baratas estão roendo até os ossos do banquete do erário.
mas as baratas não envelhecem e, 
até os engenheiros de babel sucubiram à ira do tempo.

                       Mar- 2024


Artigo de luxo

forro nunca foi livre
mas escravo do mesmo dono
nas duras engrenagens do progresso
não conta a história
não contará

ventre livre foi prisão
na miséria encarcerou seus filhos
e o leite da mãe negra engordou 
muita cria dos engenhos
gordos bezerros 
da prospera pátria

negro foi artigo de luxo
carne exposta à venda nos mercados 
em praça pública
animal de boa tração gerador
da riqueza alheia

não aceito a utopia
da falsa liberdade concedida
depor-se-á o rei da barriga do homem
cedo ou tarde
alimenta-nos a certeza
que não fomos feitos
para o açoite
ou para o cárcere

não à canetada del-rei
à bondade esperta de qualquer princesa
à hipocrisia do riso branco
negro é artigo de luxo
porque veste
a roupa da batalha
e com ela vai atrás da real
liberdade

         Agos- 2021

quarta-feira, 6 de março de 2024

Sala de aula

ele era o único pretinho da sala
nem ele nem a professora o sabiam
mas os demais pretinhos e inhas à hora da aula
na mais otimista alternativa
ralavam nos lixões nos faróis ou ociosos nas favelas
ou com suas caixas de engraxate lustravam os sapatos 
dos executivos sovinas em plena faria lima

                     Mar- 2024

Um pedido

palmares e outros quilombos
que venceram guerras contra o colonizador
ensinai resistência aos filhos periféricos
desta nacão de contrastes
contai a história de zumbi e demais guerreiros
para que o povo preto orgulhe-se de de onde veio
e o destino seja próspero no nosso meio

                   Mar- 2024

Sociedade enferma

num país corroído pelas bases por regime escravocrata,
onde abolição meia-boca jogou os negros na sarjeta.

nada de novo no front:

cadeias apinhadas de pessoas pretas e pardas.
universidade formando doutores brancos para sociedade enferma.

               Mar- 2024

As grandes chagas

guerras agem contra a vida no mundo
revoluções tentam um pouco de bom senso em nações dispersas
golpes instauram ditaduras em países indefesos
muros caem unindo expectativas

outros erguem-se apartando sonhos já falidos
e como pano de fundo a tragédia da fome apartheids extermínios
e na áfrica um tanto de cada chaga
de cada espectro maléfico que o homem cria

                         Mar- 2024

Um copo de veneno

o agrotóxico está na mesa
a mãe serve o alimento a seus filhos
um copo de veneno com amor
entanto a mãe não sabe
quem pode e sabe paga pelo orgânico
inclusive o deputado
que defende enfático o uso de tais defensivos
e faz lobby e é amigo do produtor
enquanto o pobre
alimenta-se da própria morte
e tudo segue como ordem natural 
das coisas
e foi reeleito o hipócrita
locupleta-se
da miséria olheia

            Mar- 2024

Ofício do verso

ao cabo tudo é dor
pássaros sem a posse 
do espaço estamos
o poema 
que morre aos olhos
e tenta no âmago a essência
pequenas glórias
que o céu almejam no mar da vida

ecoa a palavra 
que não sustenta o verso 
na trágica metáfora da tarde
desatar os fios da lavra
tece o tempo

(o novelo mais se ata)

rompem os elos
explode arte-vida 
em musgo
tudo nos escapa
restam ranhuras n'espanto 

o poeta é um egoísta
tentando o belo por ruínas
no instante fatal

   Mar- 2021

terça-feira, 5 de março de 2024

Um fenômeno de amor

fecho os olhos e você é a água que me mata a sede
vou à rua e você é a praia em que me banho e refresco
o ar que respiro tem teu cheiro natural de flor
a fruta que como tem o sabor dos teus lábios que nunca beijei
o vento leve que toca meu rosto tem a textura de tuas mãos macias
e a água a comida a praia o ar o vento compõem o que sou
um ser inteiramente impregnado da tua presença

                   Mar- 2024

Poder público

a britadeira da prefeitura 
me desperta antes do relógio
no exato momento 
em que as bocas uniriam-se
num beijo apaixonado
como odeio o poder público
e suas obras em ano de eleições
inúteis obras eleitorais
ó incompetente prefeito
leve saneamento a quem 
precisa com urgência
e deixe-me sonhar com a boca
de minha amada
meu voto não é de cabresto
é antes voto de oposição
ao seu desgoverno
maldito alcaide empata foda

             Mar- 2024

A renúncia do poeta

grafar teu nome no atropelo
das obrigações diárias no outono poluído 
da metrópole de pedra
escrever entre ruído e fuligem 
o enredo dum amor 
que não se desgaste feito engrenagem
na grave inércia do mármore exista

o tempo é credor dos corpos
hábitos e costumes
com o amor coexiste na órbita do indizível
é frágil o verbo
rica a poesia que há na vida

então quero existir
noite adentro da intimidade nossa
na fortaleza dum apartamento
tratar de boletos e despesas no café da manhã
averiguar nos jornais algum alento concreto 
contra a violência

vez em quando evadir pro campo

      Mar- 2021

segunda-feira, 4 de março de 2024

Medusa

revolução é a noite indecifrável e muda
neste quarto de paredes de gelo
onde eu imagino a tua imagem mulher
que havia perdido n'alguma manhã de outono

porque é mulher está nos meus pensamentos
cravada como rocha sobre outra rocha
e te encontro entre palavras e livros
fechados no silêncio da madrugada fria

e te vejo sempre assim medusa implacável
que me fez pedra quando eu era todo afeto
disponível a teus braços de neve que ofusca

                        Mar- 2024