sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Laço que não desata

amar você é o delito 
que cometo sem culpa diariamente,
e sou autor satisfeito no tribunal desta sorte
que nos obriga a viver o outro,
e submete a uma dor que não machuca,
apenas desenha signos.

os seus vestígios de mulher
espalhados na história deste corpo negro,
são bens que você não quis guardar,
ou doar a qualquer um,
essa generosidade eu jamais
esquecerei.

entregue a essas delícias
nego alvará de soltura, a boa liberdade 
deixo para os fracos,
que não souberam doma-la.
e quanto mais sinto o hálito do seu sexo
nestas narinas largas,

tanto mais é bruta a força que faço
de não ceder assim fácil à sedução de outros olhos,
em qualquer rua, ou transporte público.

     Mar- 2021

Entre uma pedra e outra, um acervo.

grafei seu nome a canivete
(daques que os pivetes usavam 
pra enquadrar), no tronco de uma árvore antiga, 
que a prefeitura, há pouco, veio remover.
entre uma brincadeira de subúrbio e outra,
que o tempo fez desaparecer,
briguei com todos os argumentos que tinha,
para experimentar sua boca virgem:
xavecos truncados, missivas ininteligíveis,
e até versos, extraídos da imensa noite.
depois de juntar tantas pedras, 
fui desbravar a cidade cinza,
e tudo se perdeu sem um desfecho 
nos atropelos dos dias.
hoje, compreendo bem, a lógica da sua agonia. 
prazeres à parte: unir uma miséria à outra 
não é bom negócio, definitivamente.


      Mar- 2021

Cabeleira afro

a sua cabeleira afro,
exibida em livre elegância,
é a força que embeleza e traduz 
toda a sua negritude.
corte de exclusiva sedução,
do puro orgulho 
carapinha.
desfila negra, desfila,
o rico teor da sua beleza,
traz suavidade às ruas ásperas
da São Paulo degradada,
e de caráter racista...
ensina a toda essa gente
o valor da crespa natureza,
em fios de verdade —
insubordinada.

                    Jul-2026

Sou negro banto

sou negro banto
isso é convicção entranhada
negro soul e negro banto
apesar das misturas nefastas
impostas à força de armas
(foram os abutres)
não sou senzala
não somos todos de cor
não vi carro de boi ou moenda
não dancei em roda de jongo
não frequentei terreiros
sou eu mais pobre
mas menos negro não sou
não nego as minhas origens
meu idioma é o pretoguês
não falo o idioma branco invasor
afro-brasileiro soul
trago impregnado costumes 
de povos estranhos
mas negro banto sou
negro d'África 
tenho sangue ruim nas veias
mas sou negro d'África
negro banto soul

                      Jul- 2026

O capitalista

o capitalista
dispõe da máquina e do capital,
senhor da ordem do dia, elege, governa e legisla, 
ninguém tem mais influência.

ignora o conceito de mais-valia, 
mas pratica o lucro, explora e multiplica,
sapateia nas víceras do trabalhador,
acumula sua miséria em patrimônio.

sua vida é uma grande sifra,
pensa e age em sifra, ama em sifra,
sofre em sifra, transpira sifra.

por fim, aos poucos suicida-se,
asfixiado pela própria ganância.

                          Agos-2026

Fragmentos de uma dor

ontem e hoje 
o fragor do ferro doendo
ventos de entraves e medo
a fome das elites legando
guetos de quedas e cravos
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas 
através dos séculos 

abuso à tenra idade
nos amplos casarões do café
o éden agora são borros
diante das pupilas serenas
de uns olhos sem culpa
as negras de leite secas
e o fruir dos desmamados
tragando noites europeias

os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele verga o corpo 
ontem e hoje

                        Jul- 2026

IN MEMORIAM

Vó Carmelinda

                               a Carmelinda Dias, minha avó.

trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo arco,
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.

trago vivo ainda o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
esgotadas de abolições.

os olhos enxergavam sob névoa densa
um aglomerado áspero de barracos,
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.

preta que sofria a garatuja do próprio nome,
trazia magras as suas estórias de vó:
retalhos de vivências antigas
escavados da fumaça.

de utopia acuada por imensas pedras,
a Vida era negra.

                     Jul- 2025

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Pedaços da fome

                   à escritora Carolina Maria de Jesus 

a vida agora é de alvenaria,
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio, 
o trabalho e a solidão.
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto este gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome? 
despejada de cada quarto, 
de todo canto, preterida da vida. 
zela da veste grã-fina, 
desdobra-se a cuidar deste chão, 
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!

           Maio- 2020

Poeta Oliveira

                             ao poeta Oliveira Silveira 

pois é, 
poeta de Touro-Passo, universal.
a notícia do seu trabalho chegou ao Brasil
profundo, fertilizou a terra estéril, 
e as sementes de potência que você desentranhou,
germinaram uma consciência.
a mensagem está transmitida, valeu a inspiração 
e transpiração dos muitos anos.
trago a peso de ouro cada vírgula pensada,
e os caminhos que você percorreu, desbravando
a floresta imensa, já consigo enxergar. 
e quem sabe um dia, ao sabor da vontade de Oxalá, 
em algum tempo, estradas já assentadas,
eu também consiga trilhar.

                            Jul- 2025

ENCERRA AQUI O LIVRO PALAVRAS À MARGEM

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

HAICAIS

pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que 
ele acho(u)?


o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima 
do peixe?


eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se 
equilibra.


espicha-se toda
a lagartixa, e devora a 
barata viva.


o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será 
banquete de verme!


digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade


costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental


não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência


inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo


"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é 
o boi no prato?...


haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.


digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!


castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come


abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?


diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.


desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te


quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu


conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?


ENIGMA

sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes 
sem deitar?


A GALINHA

no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem, 
dormiu.


INVERNO

bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.


PRIMAVERA

brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!


AMOR MENINO

hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.


MANHÃ

vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!


DEPOIS DA CHUVA

flutua deslumbrante 
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.


FLORES DE ABRIL

finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...



                  2011- 2012- 2013- 2018- 2019

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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

No silêncio dos dias

o açoite da artilharia do tempo
contra as sólidas muralhas deste amor
tenta o sequestro 
do que existe frágil na pedra
a muda apatia
na tragetória fria da queda
luz que estilhaça esplendor e treva

a força da pedra que dura
está naquele sopro efêmero de ternura
no âmago
da própria substância
e sob a fustiga do vento no tempo
esgarçado de uma dor

o alarde da gente
oculto no silêncio dos dias

     Mar- 2021

O que é do negro

o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado por cruel afronta
à vida vunerável mesmo antes de concebido
                    a prostrar qualquer homem
                    no âmago ferido
                    
o que é do negro
rendido à força de um tiro letal
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
                    atirado à terra seca da indigência
                    sem porvir que prospere

o que é do negro
implicado desde sempre a todo tipo de situação tóxica
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
                     ao arsenal de ultrajes da raça oposta 
                     sem misericórdia ou pudor

o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro

a flor que brota na pedra
não acessa nutrientes que a fortaleça
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
                      lutando por um escape que 
                      o liberte desta teia de apagamento

                     Jul- 2025