segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Fragmentos de uma dor

ponta de faca do feitor
captura na tocaia cepos grilhões pelourinho
e a condição bestial dos amputados
estigmas da desonra máscaras de ferro
a queda brusca
nos logradouros da imundice

e o sinhô de abastado capital
assegurando sua casta

tenra negra currada
mucama canga e fogão abusos da casa-grande
colônia sujeira subjugo fome 
jovens escravos de velhas faces 
eito lavra banzo de preto velho na enxada
amas negras de leite secas
de tão sugadas 

e nhôzinho nutrido a fartar-se
de regalo no exterior

nos insalubres espaços
a bruta geografia dos descartados
uma dor em cada rosto que sobe e desce
os degraus pedrosos da pouca sorte
e neste avesso tecido 
o histórico contraste:

a riqueza é toda branca
e negra a tragédia da indigência.

                     Jul- 2025

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não há vaga

a universidade é pública
mas atende aos filhos 
da alta classe
de pública torna-se privada
e para o filho
do pobre não há vaga

o diagnóstico é triste
a subsistência 
a possível
o sentido fragilizado da vida
o osso do banquete 
no prato
a liberdade abolida
e do que se precisa nem resto

a conta que nunca fecha
o ministério 
da estatística adverte
a balança
não pende, (de)pende
poder perpétuo, justiça
a exata medida entre a vastidão
e o corpo inerte

as faces estranhas
da mesma moeda
a posse usurpada da terra
um oceano
de negras angústias
o desfalque,
a apropriação indébita
a cínica farsa do mérito

em vez de se extinguir
o abismo, aprofunda-se
o burguês
regala-se sempre
abastado
e mais falta a quem não tem nome
o feto indigente, coitado
já nasce com fome

a história restaurada
quanto maior a exposição dos fatos
mais a litania é constatada
a universidade é pública
mas para o filho
do pobre 
NÃO HÁ VAGA!

       Jun- 2020


domingo, 26 de julho de 2026

DO ENGAJAMENTO

Mãe negra

                                       à minha mãe
Mãe,
brincou os carnavais
sem alegoria ou samba-enredo,
nem estandarte, desfile, passista ou fantasia;
porque pisou apenas as avenidas árduas
das tuas obrigações.

na tua casa não teve "macumba, 
galinha preta, azeite de dendê", nem "ladainha,
reza bonitinha ou canjiquinha pra comer".
não pude evocar por isso a nossa etnia ancestral
que se perdeu diante da carga 
de intolerância.

Mãe,
a urgência perturba,
por que gestando as mães sentem tanto 
as dores e prantos do ser que desentranham?
por que no parto sentem tudo 
do filho que aflige feto e agora fato, 
esta voz que ecoa fora do útero?

mãe negra é a mãe branca,
com os encargos da cor.

        Agos- 2021

13 de maio

13 de maio,
cínico enredo encenado sem ensaio.
13 de maio,
desencargo pão e circo folclore atalho.
do ajuste malacabado da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
arranjo apaziguador da ordem
da cabeça pesada do poder acuado.
atando ao calcanhar escravo a bola de ferro
da injustiça e do encargo.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos subjugados,
peças descartadas.
13 de maio.

                                  Set- 2025

Nada diferente no mundo dos iguais

falta pão na mesa do pobre
e a notícia não comove os que mordem
degustando gostoso o repasto nos finos pratos
dos apartamentos de luxo
sob o lusco-fusco de mais um dia que vai
e quando um governante qualquer
anuncia verba pra educação
a deseducada elite que se farta vocifera
contra o custo brasil
que nada custa à sua vida de misérias
pimenta não deixou de ser refresco
nos olhos do povo

                              Jul- 2026

Homem negro

não se ama além da própria utopia
pedaços de um homem, 
                          partes inteiras de mágoa,
o coração rubro de um homem negro.

o estio vence os braços, vence a boca,
vence o pênis
               -imenso de solidão-

enquanto os olhos têm os olhos
                          esquecidos noutros olhos.

eu quero a centelha no feno
                 muito além do fla flu casual
     sem ausência ou apatia
eu quero a ousadia profana de um corpo
                      imperfeito
difusa qual artérias nas grades do peito.

hediondas paredes de pedra
                à minha volta                                 
                   -mais um emparedado destino-
o amor deflagrado 
       que não violenta.
mas não brincarei no carnaval sem passista
da avenida do tempo,
                a vida escorrendo em suores.

       eu quero mais que o amor alheio,
amor que morde e assopra
               -tirano e frio-
eu quero o amor que volta,
    a felicidade de uma boca, 
                 de uma buceta, de uns seios.

                     14.02.2021       

Negro existe

quando se pesquisa se encontra
pesquisaram a miséria e encontraram miséria
no ventre inchado dos subúrbios
pesquisaram a fome e encontraram fome 
no bucho cheio da miséria
pesquisaram o analfabetismo e encontraram analfabeto
no seio farto da miséria e da fome
poeta negro só sabia de Cruz e Souza e Machado de Assis
tudo que aprendi na escola
andei pesquisando e descobri que preto escreve
quero dizer que fiquei aliviado e triste
pois fui e ainda estou tomando pé da extensão 
do problema
com o histórico de açoites a manchar
biografias
escrever é ato de bravura
a regra ainda é 
encolher-se

                                Out- 2025

Quadro negro

      o estudante negro
                      e todos os anseios                      
                                  de universidade
        o estudante negro
e a restrita comarca 
                   das possibilidades
                              o estudante negro
               e a pesada carga 
do morar periférico
                o estudante negro
                      e os graves entraves
                                     sociais 
                e mais a história
de senzalas escravos
e flagelos
         o estudante negro
                    sentindo ainda mais 
   fundo o duro golpe
               dos punhos de aço
                     RACISMO

                     Set- 2025

Matando hora

num certo discreto torrão
de então incerto destino
os grandes grã-finos de então
decidiram por escravidão

o negro lutou
resistiu, se rebelou

nasce a nossa revolução
Zumbi funda Palmares
o negro trama ação
a golpes de capoeira e facão

e os distintos senhores
ao lucro, ouro, especulação

todos sabem a história
a colônia tornou-se nação
o negro que não esqueceu
luta por reparação

o branco manda
desmanda, senhor da decisão

e esta breve história
é o poeta matando a hora
com versos por se fazer
não sabe senão linhas tecer

o negro ainda sofre
mas hoje sabe escrever

      Mar- 2021

DO AMOR

Dos prazeres de agosto

não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.

                     Set- 2025

Noite alta

o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável 
                       de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
                     o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
                       de nossa íntima 
                                              tempestade.

                        Set- 2025

Nos corredores da noite

esta carne nada vale amor
no entanto este desejo não arrefece
da tua boca úmida 
do teu corpo quente
e o que posso fazer são versos
enquanto a noite acentua
este clamor de paredes de senzala
e seus gemidos de dor
já procurei além da noite 
noite que fere qual ferro na carne
mas encontrei uma voz
de medo ou indiferença nos teus olhos
a gritar solidão
o verme virá comer em horas mudas
tudo que pensei para nós
e na garganta do verme estará o verbo
mais a luz de teu nome
a lhe obstruir o ar
só então estarei satisfeito
porque estará tudo acabado 
               para sempre.

                          Out- 2025

Abraço

nem povos extintos pela guerra
nem livros inacabados que não chegaram a ser
nem escombros de pétalas no jardim do peito
nada que consuma a força de mil braços
ou que sepulte a madrugada embriagada
dos loucos da cidade
nem o cais do porto de muitos séculos
nem os logradouros insalubres da província
de onde os donos de terras negociavam seres
nada
nada nos afastará
da comunhão de nossos corpos
desesperadamente entregues à bruma da madrugada
nada impedirá que renasçamos onde nasce nosso afeto
no alvoroço de nossos braços
encontrando-se no meio da noite

                     Jan- 2024