terça-feira, 7 de outubro de 2025

Preto de alma branca

este preto que se fez gente
sob os cuidados da mãe crioula se esfolando
no tanque com a roupa suja do patrão
do pai negro deixando a alma
no cabo da enxada
agora cospe na cara da luta dos pais
escarra nos cornos da luta ancestre
dizendo que não há racismo 
nesta pátria amarga
que o negro se faz de coitado
fazendo-se vítima
este preto de que falo
é tão branco quanto a folha
onde teço estes versos.

                    Out- 2025

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Negro existe

quando se pesquisa se encontra
pesquisaram a miséria e encontraram miséria
no ventre inchado dos subúrbios
pesquisaram a fome e encontraram fome 
no bucho cheio da miséria
pesquisaram o analfabetismo e encontraram analfabeto
no seio farto da miséria e da fome
poeta negro só sabia de Cruz e Souza e Machado de Assis
tudo que aprendi na escola
andei pesquisando e descobri que preto escreve
quero dizer que fiquei aliviado e triste
pois fui e ainda estou tomando pé da extensão 
do problema
com o histórico de açoites a manchar
biografias
escrever é ato de bravura
a regra ainda é 
encolher-se

                                Out- 2025

Ser negro

ouvir o rádio
é um tormento para o meu ser todo preto
porque do outro lado
é sempre um branco a falar
com suas palavras 
brancas
o que sequer quero
ouvir

ler o jornal 
é um suplício para o meu ser inteiro negro
porque as mãos que escreveram 
as notícias
são sempre brancas mãos
com suas palavras
brancas
nem sempre íntegras
ou justas

como assistir tv, 
consultar o médico, ir à biblioteca pública,
ao banco, à universidade
ao dentista.
e quase todos 
os espaços públicos. 
é um desafio ser negro 
pelas portas
do fundo
com o mundo
de revés.

                   Out- 2025

domingo, 5 de outubro de 2025

Método

geralmente preto
o criminoso do morro
está a cumprir ordens
pensando ser chefe
e acaba morto ou preso
geralmente branco
o criminoso do asfalto
é quem dá as ordens
e acaba em Brasília
ou no Leblon
não é outro o método
como se estrutura
a sociedade doente
desta nação desigual.

             Out- 2025

Os escravos

comando vermelho pra mim
são corações pulsando 
na rocinha ou alemão
corações sentindo
na cidade do cristo estupefato
não criminosos 
a organizarem-se em facções
rendendo o povo das favelas
com fuzis granadas e opressão
mesmo sob o manto
da dor ancestral
sob o timbre das peles marcadas
esses munidos vilões
são escravos da casa grande
são feitores
a trancarem algemas e grilhões
guardando as chaves nas gavetas
das salas dos senhores.

                   Out- 2025

Não é a cor?

numa Paulista insuspeita
um meio-dia azul 
democrático
eu apenas usava o espaço público
como centenas
de outros transeuntes
deslocando-me
eram cinco policiais muito jovens
sacaram as armas
e como numa Congo deflagrada
abordaram-me
eu não tinha nada é claro
mas ficou a cicatriz
no coração acostumado
com açoites da vida
na negra pele.

                     Out- 2025

sábado, 4 de outubro de 2025

Nuanças

seja mulata seja pardo ou crioulo
sambando na avenida
                        ou no chão de fábrica
não importa o tom da sua dor
se não pode dizer que é branco é negro
o branco gosta 
                       de ser branco
no campo ou na cidade
e o negro tem que gostar de negro ser 
onde quer que esteja
mesmo com este lamento
                           de antigas datas
reverberando na integridade do corpo
isto é negritude
        é isto conciência negra.
libertar-se das correntes de desespero
romper com os elos desta dor.

                          Out- 2025

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O livro

eu gosto do objeto livro
e gosto ainda mais do que ele encerra
em forma de palavras
e gosto mais ainda das palavras
quando elas dizem
em altivas e negras imagens
as demandas 
           e angústias
de meu povo ignorado.

                    Out- 2025

Perspectiva

ouço uma música 
                           que pergunta:
"o que que tem na sopa do nenem?"
na sopa do nenem 
                     tem miséria
desespero de mãe
e uma fome desatada
que vem marcancando 
                          historicamente
com estigmas eternos
o ontem
                o hoje
                            o amanhã.

                         Out- 2025

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Roleta-russa

vejo através desta janela
os meninos do centro da cidade brincando 
de roleta-russa
heróis das angústias alheias
enquanto o burguês curte uma de felicidade
com um conforto surrupiado 
que a séculos vem herdando e vai legar
e os heróis do centro da cidade
estão nus e crackeados
a metropole é um covil de pólvora prestes a explodir
no colo dos inocentes do centro da cidade
cheirando à aids miséria e fome
quem salvará os valentes do centro da cidade
que ostentam algemas no pulso sol de marquise 
e poeira de chão de cela de cadeia
mais dentes cariados e ossos amostra sob a pele?
o burguês que estuda direito
no Largo São Francisco?

                          Out- 2025

Oceano

pacífico oceano
que sob a imensidão és tão imenso
de azul e vida
selvagens águas de lágrimas infinitas
por que permitistes que essas naus obscuras de tantos crimes 
e massacres atravessassem tuas águas rumo à dor
torturante de tanta gente?
por que sepultastes tantos corpos marcados
nas tuas marés?
por que sob o céu cristalino acolhestes no teu seio
homens tão cruéis nos intentos e ações
de mãos assassinas
a subjulgar e torturar tantos corpos negros
no todo e no fim inocentes?
por quê? 
             por quê?

                           Out- 2025

Um estranho

por justiça para meu povo eu brigo
e brigo cotidianamente como os que brigam
por um prato de comida cotidianamente
e uma briga das mais duras posto que com palavras
                          no entanto brigo
e dou a vida por esta briga
dou a vida
mas sou um estranho
           um estranho em minha própria terra
do que vale a palavra dum poeta? 
não apenas dum poeta desta pátria devastada
        mas dum poeta negro desta pátria?
como um Jesus negro é estranho
aos olhos até do mais negro dos homens de cor
                      eu sou um estranho
e é estranha simplesmente a minha negritude
e mais estranha esta negritude é.
                         é estranha minha negritude.
e mais estranha brigando com palavras por justiça 
ao povo negro desta terra.

                          Out- 2025

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Cardu-me

busca-te a imprecisão amarga
de meu verso mulher
talvez atrás da noite que ficou perdida
nalgum tempo que fez-se brisa
talvez neste cardume 
de palavras que é o poema
talvez na imprecisa memória dum instante
e te encontre talvez num tempo
que não há
não pode haver
no fabuloso instante 
de um sonho

                        Set- 2025

terça-feira, 30 de setembro de 2025

13 de maio

13 de maio,
rio sem leito desaguando n'abismo.
13 de maio,
braço de arroio seguindo para o breu.
do ajuste malacabado 
da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
apaziguando a culpa 
da cabeça pesada do império.
atando ao passo do escravo a bola de ferro
da própria sorte.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos confinados,
escravos do vento contrário,
13 de maio.

                                  Set- 2025

Embriaguez

destilar no corpo o sabor 
                              de tua boca
produzindo a bebida que me entontece 
                             e embriaga
e no trançar de pernas 
deste amor
perder-me pelas ruas
                    do teu ser mulher.

                          Set- 2025