sábado, 8 de agosto de 2026

Vó Carmelinda

                                      in memoriam

trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo de arco
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.

trago ainda vivo o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
mesmo depois da abolição.

os olhos enxergavam sob antiga névoa
o áspero amontoado de barracos
e refletiam a trajetória trôpega dos dias,
a esquecida fé no homem que governa.

negra que não lia e garatujava o próprio nome,
trazia magras as suas estórias de vó;
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.

de utopia acuada por imensas pedras,
a vida era negra.

                     Jul- 2025

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Fragmentos de uma dor

ontem e hoje 
o fragor do ferro doendo
aragem de entraves e gás
periféricas noites cheirando senzala
espreitam sujeiras imperiais
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas 
através dos séculos 

a tenra idade invadida
nos amplos salões coloniais
janelas abertas refletem parede
diante das íris serenas
de uns olhos sem luz 
as negras secas de tão sugadas
e o fruir dos filhos nutridos 
tragando noites europeias

os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele verga o corpo 
ontem e hoje

                        Jul- 2026

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

HAICAIS

pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que 
ele acho(u)?


o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima 
do peixe?


eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se 
equilibra.


espicha-se toda
a lagartixa, e devora a 
barata viva.


o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será 
banquete de verme!


digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade


costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental


não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência


inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo


"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é 
o boi no prato?...


haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.


digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!


castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come


abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?


diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.


desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te


quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu


conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?


ENIGMA

sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes 
sem deitar?


A GALINHA

no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem, 
dormiu.


INVERNO

bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.


PRIMAVERA

brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!


AMOR MENINO

hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.


MANHÃ

vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!


DEPOIS DA CHUVA

flutua deslumbrante 
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.


FLORES DE ABRIL

finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...



                  2011- 2012- 2013- 2018- 2019

.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O enredo de um amor

grafar teu nome no atropelo
das obrigações diárias do outono poluído 
da metrópole de pedra
escrever entre ruídos e fuligem 
o enredo de um amor 
que não se desgaste feito engrenagem
e na grave inércia do mármore exista

o tempo é credor dos corpos
hábitos e costumes
com o amor coexiste na órbita do indizível
é frágil a sintaxe do verbo
e rica a poesia que há na vida

então quero existir
noite adentro da intimidade nossa
na fortaleza de um apartamento
tratar de demandas e boletos no café da manhã
averiguar nos jornais alento concreto 
para violência

vez em quando evadir pro campo

      Mar- 2021

No silêncio dos dias

o açoite da artilharia do tempo
contra as sólidas muralhas deste amor
tenta o sequestro 
do que existe frágil na pedra
a muda apatia
na tragetória fria da queda
luz que estilhaça esplendor e treva

a força da pedra que dura
está naquele sopro efêmero de ternura
no âmago
da própria substância
e sob a fustiga do vento no tempo
esgarçado de uma dor

o alarde da gente
oculto no silêncio dos dias

     Mar- 2021

O que é do negro

o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado por cruel afronta
à vida vunerável mesmo antes de concebido
                    a prostrar qualquer homem
                    no âmago ferido
                    
o que é do negro
rendido à força de um tiro letal
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
                    atirado à terra seca da indigência
                    sem porvir que prospere

o que é do negro
implicado desde sempre a todo tipo de situação tóxica
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
                     ao arsenal de ultrajes da raça oposta 
                     sem misericórdia ou pudor

o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro

a flor que brota na pedra
não acessa nutrientes que a fortaleça
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
                      lutando por um escape que 
                      o liberte desta teia de apagamento

                     Jul- 2025

Fragmentos de uma dor

ponta de faca do feitor
captura na tocaia cepos grilhões pelourinho
e a condição bestial dos amputados
estigmas da desonra máscaras de ferro
a queda brusca
nos logradouros da imundice

e o sinhô de abastado capital
assegurando sua casta

tenra negra currada
mucama canga e fogão abusos da casa-grande
colônia sujeira subjugo fome 
jovens escravos de velhas faces 
eito lavra banzo de preto velho na enxada
amas negras de leite secas
de tão sugadas 

e nhôzinho nutrido a fartar-se
de regalo no exterior

nos insalubres espaços
a bruta geografia dos descartados
uma dor em cada rosto que sobe e desce
os degraus pedrosos da pouca sorte
e neste avesso tecido 
o histórico contraste:

a riqueza é toda branca
e negra a tragédia da indigência.

                     Jul- 2025

domingo, 2 de agosto de 2026

Sonhos desfeitos

andando por estas ruas, transito-me.
as casas há tempos estão mudas
e há um eco de silêncio nos portões
os mortos sob o asfalto
não ousam manifesto

costuro a boca com os dentes
farto de tantas máscaras de obrigações 
e condenados sem justiça
no torpe tribunal dos enjeitados

não tem julgamento justo
não tem júri isento
pra essa gente de cor escura
com a guilhotina da vida dura
a um fio da jugular

de repente afaga-me uma flor
afogo no ensaio 
um anseio de fé satisfeita
não há prazer que apague a mágoa
dos sonhos desfeitos 

já não quero nada
diante dos gozos urbanos
da tragédia planejada dos engenheiros 
do caos e seus projetos com 
nódoas de sangue

sorrir já não quero

enroscado, o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.

                 Jan-2024

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não há vaga

a universidade é pública
mas atende aos filhos 
da alta classe
de pública torna-se privada
e para o filho
do pobre não há vaga

o diagnóstico é triste
a subsistência 
a possível
o sentido fragilizado da vida
o osso do banquete 
no prato
a liberdade abolida
e do que se precisa nem resto

a conta que nunca fecha
o ministério 
da estatística adverte
a balança
não pende, (de)pende
poder perpétuo, justiça
a exata medida entre a vastidão
e o corpo inerte

as faces estranhas
da mesma moeda
a posse usurpada da terra
um oceano
de negras angústias
o desfalque,
a apropriação indébita
a cínica farsa do mérito

em vez de se extinguir
o abismo, aprofunda-se
o burguês
regala-se sempre
abastado
e mais falta a quem não tem nome
o feto indigente, coitado
já nasce com fome

a história restaurada
quanto maior a exposição dos fatos
mais a litania é constatada
a universidade é pública
mas para o filho
do pobre 
NÃO HÁ VAGA!

       Jun- 2020


domingo, 26 de julho de 2026

            




                           PALAVRA PRETA
                                   poemas













Evan Crespo




Evan Crespo é o pseudônimo de Evanilson Silva de Almeida, 
nascido a 21 de fevereiro de 1973, na cidade
de São Paulo, onde vive. 

Contato: evasa2@hotmail.com



Este livro é dedicado à minha mãe Marlene
Oliveira da Silva, a minhas irmãs Evanilda,
Elízia Raquel, Tamires Silva 
e meu irmão Evandro.

                                             2026

DO ENGAJAMENTO

Mãe negra

                                 à minha mãe

quanto de dor pisa a avenida
sem adereço 
eterno recomeço deste enredo sem palavras
o emprego do seu afeto
entre o prazer reprimido e o encargo

nenhuma poesia
nesta alegria sem sorriso
doada
neste abraço que protege indefeso
sem qualquer interesse
do desapego

o tempo não cede 
ao argumento que alegam teus olhos
que propõe teu desejo
somos cinzas sem direitos
e dissipamos 
sopro

mãe 

gestasse o homem não seria tanto
na dor e no pranto
do ser que desentranha

parisse o homem não seria tudo
no fruto que fere feto e já fato
esta voz que ecoa 
fora do útero

mãe negra é a mãe branca
com os encargos da cor

        Agos- 2021

13 de maio

13 de maio,
cínico enredo encenado sem ensaio.
13 de maio,
desencargo pão e circo folclore atalho.
do ajuste malacabado da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
arranjo apaziguador da ordem
da cabeça pesada do poder acuado.
atando ao calcanhar escravo a bola de ferro
da injustiça e do encargo.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos subjugados,
peças descartadas.
13 de maio.

                                  Set- 2025

Nada diferente no mundo dos iguais

falta pão na mesa do pobre
e a notícia não comove os que mordem
degustando gostoso o repasto nos finos pratos
dos apartamentos de luxo
sob o lusco-fusco de mais um dia que vai
e quando um governante qualquer
anuncia verba pra educação
a deseducada elite que se farta vocifera
contra o custo brasil
que nada custa à sua vida de misérias
pimenta não deixou de ser refresco
nos olhos do povo

                              Jul- 2026

Homem negro

não se ama além da própria utopia
pedaços de um homem, 
                          partes inteiras de mágoa,
o coração rubro de um homem negro.

o estio vence os braços, vence a boca,
vence o pênis
               -imenso de solidão-

enquanto os olhos têm os olhos
                          esquecidos noutros olhos.

eu quero a centelha no feno
                 muito além do fla flu casual
     sem ausência ou apatia
eu quero a ousadia profana de um corpo
                      imperfeito
difusa qual artérias nas grades do peito.

hediondas paredes de pedra
                à minha volta                                 
                   -mais um emparedado destino-
o amor deflagrado 
       que não violenta.
mas não brincarei no carnaval sem passista
da avenida do tempo,
                a vida escorrendo em suores.

       eu quero mais que o amor alheio,
amor que morde e assopra
               -tirano e frio-
eu quero o amor que volta,
    a felicidade de uma boca, 
                 de uma buceta, de uns seios.

                     14.02.2021       

Negro existe

quando se pesquisa se encontra
pesquisaram a miséria e encontraram miséria
no ventre inchado dos subúrbios
pesquisaram a fome e encontraram fome 
no bucho cheio da miséria
pesquisaram o analfabetismo e encontraram analfabeto
no seio farto da miséria e da fome
poeta negro só sabia de Cruz e Souza e Machado de Assis
tudo que aprendi na escola
andei pesquisando e descobri que preto escreve
quero dizer que fiquei aliviado e triste
pois fui e ainda estou tomando pé da extensão 
do problema
com o histórico de açoites a manchar
biografias
escrever é ato de bravura
a regra ainda é 
encolher-se

                                Out- 2025

Sou negro banto

sou negro banto
isto é convicção entranhada
negro soul e negro banto
apesar das nefastas misturas
misturas impostas pela força
(foram os abutres)
não sou senzala
não somos todos de cor
não vi carro de boi ou moenda
não dancei em roda de jongo
não frequentei terreiros
sou eu mais pobre
mas menos negro não sou
sei das minhas origens
minha língua é o pretoguês
não falo a língua pura dos outros
sou brasileiro negro soul
trago impregnado costumes 
de povos estranhos
mas negro banto sou
não nego a minha cor e origem
negro d'áfrica sou
tenho sangue ruim nas veias
mas sou negro d'áfrica
negro banto soul

                      Jul- 2026

Quadro negro

      o estudante negro
                      e todos os anseios                      
                                  de universidade
        o estudante negro
e a restrita comarca 
                   das possibilidades
                              o estudante negro
               e a pesada carga 
do morar periférico
                o estudante negro
                      e os graves entraves
                                     sociais 
                e mais a história
de senzalas escravos
e flagelos
         o estudante negro
                    sentindo ainda mais 
   fundo o duro golpe
               dos punhos de aço
                     RACISMO

                     Set- 2025

Matando hora

num certo discreto torrão
de então incerto destino
os grandes grã-finos de então
decidiram por escravidão

o negro lutou
resistiu, se rebelou

nasce a nossa revolução
Zumbi funda Palmares
o negro trama ação
a golpes de capoeira e facão

e os distintos senhores
ao lucro, ouro, especulação

todos sabem a história
a colônia tornou-se nação
o negro que não esqueceu
luta por reparação

o branco manda
desmanda, senhor da decisão

e esta breve história
é o poeta matando a hora
com versos por se fazer
não sabe senão linhas tecer

o negro ainda sofre
mas hoje sabe escrever

      Mar- 2021

DO AMOR

Dos prazeres de agosto

não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.

                     Set- 2025

Noite alta

o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável 
                       de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
                     o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
                       de nossa íntima 
                                              tempestade.

                        Set- 2025

Nos corredores da noite

esta carne nada vale amor
no entanto este desejo não arrefece
da tua boca úmida 
do teu corpo quente
e o que posso fazer são versos
enquanto a noite acentua
este clamor de paredes de senzala
e seus gemidos de dor
já procurei além da noite 
noite que fere qual ferro na carne
mas encontrei uma voz
de medo ou indiferença nos teus olhos
a gritar solidão
o verme virá comer em horas mudas
tudo que pensei para nós
e na garganta do verme estará o verbo
mais a luz de teu nome
a lhe obstruir o ar
só então estarei satisfeito
porque estará tudo acabado 
               para sempre.

                          Out- 2025

Abraço

nem povos extintos pela guerra
nem livros inacabados que não chegaram a ser
nem escombros de pétalas no jardim do peito
nada que consuma a força de mil braços
ou que sepulte a madrugada embriagada
dos loucos da cidade
nem o cais do porto de muitos séculos
nem os logradouros insalubres da província
de onde os donos de terras negociavam seres
nada
nada nos afastará
da comunhão de nossos corpos
desesperadamente entregues à bruma da madrugada
nada impedirá que renasçamos onde nasce nosso afeto
no alvoroço de nossos braços
encontrando-se no meio da noite

                     Jan- 2024

Terra do meu amor

terra seca que não germina
exausta terra rachada
terra nordestina 
do meu país
terra da caatinga e do sertão
houve escravidão na sua jurisdição
mas o seu condão
é de liberdade
terra que perdeu fertilidade
tantas vezes violada
que enriqueceu iaiá e nhonhô
velha terra castigada
de vovó e de vovô
de toda uma linhagem de escravos
tantos crimes sob seus domínios
terra sagrada do meu amor
e de vovó e de vovô
deixo aqui este poema
terra que tantas vezes sangrou
onde coagulou o sangue ancestral
gigante terra menina
terra que não dá pasto nem cana
terra que não germina
minha pobre terra nordestina

              Fev- 2024

Laço que não desata

réu no tribunal do teu ser
implica-me grave delito: amo!

quando não quis 
senão o beijo tinha um arsenal
de gestos que te escapava
vestígios de mulher
inevitável minha captura

na cela de ardentes 
desejos trancado nego a liberdade
condena-me e submeta 
à perpétua pena 
deste apego, acato!

não me furte porém
da urgência do calor do teu corpo
do hálito úmido do teu sexo
a desvairar-me o tino

quero os laços 
dos teus cabelos a dissipar-me o ar
a fustiga dos teus pelos
tatuando a carne nua do meu peito
apenas morrer 
de afeto no teu sangue

     Mar- 2021

Agosto

na tua pele arde
qualquer coisa de fruta
talvez o cheiro talvez o sabor
que na boca 
fica depois do amor

os lençóis falam
de nossa pele indefesa
da chama que não se apaga
nossa fome
nossa orgia negra

ainda que durma
o corpo que se esgota
a noite teima e nos reclama
mesmo nas dores
que esconde a cama

amar ensina
a sina de viver o outro
o que a vida fustiga e fere
sepultamos na cinza
face de agosto

    Agos- 2021

Gratidão

agradeço
ao sêmen que a transportou
ao óvulo que a recebeu
                           e originou
ao cordão que a nutriu
e alimentou
à placenta que a protegeu
                              e sustentou
à mulher e ao homem
que a criou

agradeço!

agora
nesse mundo desumano
       onde há tanta injustiça
lutamos você e eu
          nosso amor em apogeu

                            Jan- 2024

IN MEMORIAM

Pedaços da fome

                   à Carolina Maria de Jesus in memoriam

a vida agora é de alvenaria,
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
filhos adotados dos teus braços pela miséria.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio,
o trabalho e a solidão.
o ódio de deus sobre os ombros dos seus,
sobre os ombros
dos que não têm que querer,
cuja escolha é não ter escolha.
nada conterá a força das tuas palavras
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora
nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
nuvens de África, ares de África, sóis de África.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto este gado,
ou nos finos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome?
despejada de cada quarto, de todo canto,
preterida da vida.
zela da veste grã-fina,
desdobra-se a cuidar deste chão,
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!

           Maio- 2020

Poeta Oliveira

                             a Oliveira Silveira in memoriam

poeta negro misto 
de cor mista afro singular
da terra de Rosário do Sul, Touro-Passos,
na Serra do Caverá.
rascunha ao pé da folha,
a forte punho negro rebusca a língua,
desdobra o verso
Ecos de tambor, Poema.
cantou de Palmares 
à cultura popular,
dos trabalhadores aos orixás.
e no banzo da gente negra também foi África.
o mundo está na extensão de sua obra
legítima consciência negra.
poeta negro misto,
rabisco no solo brasileiro
rebentando em arte, vistoso baobá.
menssageiro Exu Bará.
quem dera fosse meu este estro Poeta.
tramando a sua próxima
nos braços de Oxalá.

                            Jul- 2025

ENCERRA AQUI O LIVRO PALAVRA PRETA

terça-feira, 14 de julho de 2026

Mágoa pequena

minha mágoa é pequena
frente ao passivo que ainda não acertamos
tens de pagar com juros altos
todo delito praticado contra meu povo
e ainda te aguarda
desonrado homem branco
tombo maior que levou o negro
nos dias de eito açoites e violações
pois nas voltas que dá o mundo
ainda volta pra sua conta
toda brutalidade cega que praticaste
sob céus pejados de estrelas
e quero apreciar num camarote de carnaval
este dia historicamente belo

                                Jul- 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Homens negros também amam

importar o melhor do seu mundo
diretamente para o pior dos meus dias
para colher as alegrias
que não foram possíveis colher
do que você me ofereceu nos dias cruciais
em que nossos destinos se cruzaram
você roubou minha paz
e nunca foi capaz de devolver
um gesto uma flor
sequer o desprezo me foi restituído
do seu proceder
e ficou tudo sem ser explicado
sem ser absolvido ou mesmo assimilado
feito crime contra integridade física de indefeso
cometido por alguém sem escrúpulo

                              Jul- 2026

Crespo

é crespa a lei dos meus fios
por decreto de cópula de pai preto e mãe cabocla
e às vezes as palavras que escrevo 
ou pronuncio também fluem crespas
mas a crespitude que me forma
não atuou no palco dos poucos dias
do nosso breve lance
e mesmo assim sem alarde
embaraçou-se a fluência do que fomos dois
porque sem ser crespa nem nos fios nem na gênese
encrespaste o precoce amor pulsando
da juventude nossa

                          Jul- 2026

domingo, 12 de julho de 2026

Proletário marxista

mal e a duras penas aprendera a mais-valia
nos bares fronteiros ao sindicato
emancipara-se cruzando os braços nas grandes 
greves dos anos 1980
rodando panfleto revolucionário
e arriscando-se em piquetes nas portas das fábricas do abc
brigando contra o patrão e as mamatas burguesas
a luta companheiro vem de longe
do barquinho de papel
desdobrando-se nas águas do tanque materno
aos negreiros cruzando os mares
das desilusões dos negros perseguidos
das terras d'áfrica castigada
da graxa no macacão operário
à posse dos meios de produção séculos antes
do início mesmo da ganância do homem

                               Jul- 2026

Negra Tarcila

a fímbria bordada
de teu vestido amarelo
foi outrora limete de teu corpo belo
hoje singem-te meus dedos
e nos amando
nesta relva sob o orvalho
desatamos os nós
de nossos segredos
esta intrincada orla de retalhos
que perpassa estes dias
e nos atravessa

                              Jul- 2026
tudo é e não passa de pó
e somos folhas mortas perdidos e só

                                 Jul- 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Vamo saravá mãinha

vamo saravá mãinha
que macumba não tem nada do demônio
é a crença do preto e sua fé
vamo mãinha agora que a gente pode bater tambor 
e não apanhar de rebenque
nem da polícia

                             Jul- 2026

Sou neto de áfrica

sou neto de áfrica próspera
mas veio o branco de lugar alheio capturar meu povo
trancar do lado sujo da história desfigurado
agora sou este à procura de um rosto
perdido do pretérito

                            Jul- 2026

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Jesus é negro

NEGRO? não é possível...
NEGRO? não será pecado ou blasfêmia?
NEGRO? jesus de nazaré é negro?
e os atabaques marimbas
e agogôs os terreiros e cantos sagrados...
jesus nada disso praticou
ou omite a bíblia
sagrada?
a pele de jesus tinha
o tom mesmo de minha pele?
como não está nos
salmos provérbio em nenhum livro?
por que paulo joão mateus
nada disseram?
vergonha? pudor? racismo?
jesus cristo é NEGRO???
por que o povo d'áfrica negra
é tão sofrido? 
por que do tráfico negreiro? senzala?
do pelourinho?
o que dizer da imagem que circula?
não posso crer, irmãos!
são mais perguntas
que respostas...
bem que parece verossímel...
jesus NEGRO?!...

                        Jul- 2026

Minhas origens

tão distante está de mim
a mãe áfrica mãe do povo que sofre
e mesmo antes do meu rebentar 
no mundo
entanto já fui rei n'áfrica
não um rei tirano
mas rei fundado na guerra
para proteger a sagrada terra de oxalá
versado nos atabaques de terreiro
não esqueci minhas origens
minha negritude
banzada de tamanha injustiça
com este povo
abnegado

                       Jul- 2026

terça-feira, 7 de julho de 2026

Os cheiros d'áfrica

sinto os cheiros d'áfrica
na cozinha pobre de minha pobre mãe
ela não o sabe
mas sinto os cheiros d'áfrica
nas panelas cheias
de pranto
pelo vazio que às acomete
e mesmo diante
de toda a adversidade
sinto os cheiros d'áfrica
mas pela minha querida mãe
o revés não importa
é dos sinhôzinhos 
que vou cobrar a dívida
da nossa infeliz sorte
povo negro

                     Jul- 2026

Cantos d'áfrica

os seus cantos áfrica
veem como um sopro através dos mares
desembarcar nos terreiros brasileiro
e o povo que não tem direito
sequer ao alimento
pode reverenciar os seus santos
porém muito discretamente áfrica
discretamente
como a vida modesta de seus 
filhos negros áfrica
discreta.

                       Jul- 2026

As minhas raízes

as minhas raízes 
profundamente fincadas na áfrica
em solo agreste é que
me move 
pela vida à fora 
catando um pouco de esperaça
para não esmorecer
frente ao desafio de negro ser
neste país
de aves de rapina
tentando tombar meu corpo
em cada esquina

                      Jul- 2026

Grito ancestral

o grito ancestre é uma demanda
que atravessa o oceano reverberando a dor
de todo o povo negro nas diversas
nações pelo mundo

um grito de alerta
um chamado ao nossos jovens negros
à universalidade do pensamento
sejamos universais povo negro espalhado
pelo mundo

aprendamos sobre a guerra
para podermos fabricar a paz entre nações
aprendamos sobre o medo
para podermos dispor de coragem

o branco colonizou nações
espoliou países inteiros pela ganância
interesse e arrogância
inventou covardemente o escravismo o racismo
e o tráfico de pessoas negras 
mar à fora

não brigaremos com o branco
por seu crime indefenssável
mas existe uma dívida alta em aberto
e não vamos perdoar
exigiremos o pagamento com juros
pela ousadia

                                     Jul- 2026

Ama de leite

ama de leite preta velha
não dá mais leite pra esse bezero não
ama de leite 
que amamentou a nação
e anda ainda agora amamentando
o filho branco do patrão
lavando limpando passando
no tanque e no fogão
preta velha sofrida
daqui a pouco serás
mulher livre do pelourinho de hoje 
ama de leite preta velha
e vais poder brincar
seu jongo
vais poder caminhar
sob as estrelas
entrar nos terreiros
tocar caxambu
dançar na roda ama de leite
preta velha.

                     Jul- 2026

Madeira de lei

madeira de lei é 
o corpo do negro fechado na macumba
não cede fácil a qualquer
castigo
nos encerraram no frio ferro
fustigaram de chibata
nos enforcaram em árvore
furaram de faca
tentaram contra o nosso povo
cheio de inocência
mas somos pura fortaleza
e estamos de pé
com os nossos batuques
e rituais sagrados
orixás e divindades na proteção
do nosso caminhar
pela vida
sem temer qualquer mal
que nos tenta combalir.

                   Jul- 2026

Cabeleira afro

tua cabeleira afro
admito mexe no âmago 
do meu interior
e as coisas lindas 
de amor que ensaiei pra dizer
não traduzem 
a grandeza encoberta 
da sua negritude
e um rio de sangue desemboca
nas artérias do coração
e estou caído 
de amor por suas tranças
tramando 
o crime perfeito
o crime da sedução do afeto
e nesta prisão
é onde quero largar-me
perpetuamente

                    Jul- 2026

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Embusca do grande amor

embarcar numa jangada
das letras dos livros negros que leio
sob o orvalho da madrugada
e mesmo num oceano
repleto de perigosas
desventuras
rumar ao encontro do grande amor
arrancado ainda antes dos meus
braços exausto
no continente dos nossos antigos
a espoliada áfrica negra

                        Jul- 2026

Minha vida

minha vida é minha mãe
dispondo das últimas forças para nos criar
minha vida é minha infância pobre nos subúrbios 
da grande cidade ainda menina
minha vida são meus ancestrais surrupiados de sua terra
minha vida são os meninos que brincaram
comigo por estas ruas modestas
são os encontros e desencontros no grande palco da vida
e todas as mulheres que amei 
braços que cingi nos meus mãos que apertei
minha vida é o muito do pouco que aprendi com dona Nenê 
minha avó materna
minha vida é o tanto de humanidade
que aprendi na escola pública que frequentei desde a infância
minha vida são todas as ruas avenidas e praças
através das quais contemplei São Paulo
lugares que conheci e onde nunca pude estar
são as matas a saudade os rios as cidades este país
são todos os irmãos que conheci e os de luta
minha vida é indubitavelmente 
a grande liberdade

                         Jul- 2026

Vejam

primeiramente vejam
vejam as nuvens sobre tuas cabeças
mas não deixem embaçar tua
inteligência
vejam as estrelas altivas
sem esquecer que nunca 
brilhastes como elas
vejam a beleza desta vida
sem nunca esquecer tuas penas
vejam a riqueza de nossa terra
mas não esqueças
que fomos subjugados covardemente
vejam nossos governantes
nunca à altura 
de seu povo intrépido
vejam nossas matas abundantes
subtraídas na sua grandeza
vejam esta sociedade de abutres
usurpando tua dignidade
e o pouco que ainda tens de força
vejam os trazidos através dos mares
de seu sagrado berço materno
e não percas de vista 
que áfrica está definitivamente 
entranhada neste solo

                   Jul- 2026

Graças irmãos

graças à vida irmãos
mesmo a vida como ela é
graças irmãos
graças à força de nossos braços
graças à força dos braços ancestrais
e ao sangue dos antigos
e dos novos irmãos
e a nosso povo impávido
sempre impávido irmãos graças
graças a nossa terra
tão usurpada das suas riquezas
graças à natureza de nossa terra
e à nossa natureza 
de pujança
graças à nossa potência
e sobretudo irmãos
irmãos graças à nossa luta
graças à nossa luta
que não esmorece irmãos
mesmo fustigada cotidianamente
pelos mais crueis artifícios
graças à nossa luta irmãos
graças irmãos

                    Jul- 2026

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Na Guanabara

produzir 
produzir 
produzir
para alegria e júbilo do patrão
e no final já inválido
e sem forças
para ganhar a vida
o trabalhador
ganha choça à beira 
do córrego em favela
e o senhor filho doutor
num bangalô
à beira mar
crime perfeito
em plena guanabara.

                  Jun- 2026

Operário

na exploração 
do homem pelo homem
nesta sociedade que pila moe e consome
estou do lado mais frágil
o explorado
equivalente ao gado
marchando para o abate
humano da categoria mais ínfema
sem nenhum direito
e todas as forças a esgotar-se
ainda sou voto
veto e unido ao povo 
sou força coletivo luta 
e ainda posso cruzar os braços
sou operário desbancando 
à bancarota o patrão

                           Jun- 2026

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Estações

ao longo da primavera
andei pelos jardins e as flores exalavam revolução
brotando em mil cores e perfumes
afim de atraí-la às ruas praças e jardins
e na angústia mais funda entre a pobreza extrema 
e a miséria não a vi chegar
ao longo do estio 
lutei guerras e guerras íntimas
entre o cego amor e a solidão do corpo
e as flores murcharam e também não a tive
nas praças ruas e jardins entre os jovens
ao longo do ameno outono
briguei sofrendo com deus crianças rebentaram
gentes morreram de desastres ou coração
e eu dormi os sonos mais longos
e nem sequer
a vi nos sonhos que tive
no inverno foi que você apareceu
com anel no dedo
sacramentando uma união
e meu completo
infortúnio

                              Jun- 2026

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A máquina e o capital

o capitalista
de posse da máquina e capital
pisando pisando
nas víceras do operário
que já não come
mas trabalha
que já não consome
só rala e produz
e esfacela-se
o resultado para esta equação
é a conta bancária 
mais gorda
do senhor de hoje
e sua linhagem de herdeiros
e sinhôzinhos
e o trabalhador
junto com os seus
que nada possuem
ou herdam
além da miséria extrema
cada vez mais vulneráveis e frágeis
cada vez mais pobres
mais escravos
deste sistema de barões
afortunados.

                      Jun- 2026

Os dois lados da moeda

de toda a produção 
(fruto da mão-de-obra barata
dos cidadãos das classes
mais baixas)
deste país das oportunidades seletivas
o orgânico e mais sofisticado
está para elite 
como o modesto e estéril
está para 
o trabalhador
subsistindo pelas víceras
com a mais abnegada
apatia

                            Jun- 2026

domingo, 21 de junho de 2026

Homem não chora

"homem não chora menino"
diz os costumes arcáicos da sociedade
mas como eu choro meu deus
choro pela miséria de minha gente da diáspora
choro pelos irmãos soterrados nas tragédias das encostas dos morros
pelas assoladas terras d'áfrica mãe
pela fome nas calçadas
do centro da cidade degradada
inclusive choro pelos beijos não dados
pelos cabelos que não pude
ter entre os dedos nas noites solitárias
e pelo encanto de um amor que não pude viver
choro porque sou negro 
e negro escolhe pouco
conquista pouco pode pouco nesta vida
mas como quaquer ser humano 
ama como louco

                          Jun- 2026

Alforria

poeta embebido nas trevas de todas as noites
e todos os dias miseravelmente tediosos
perambulo catando motivos para uns versos na atmosfera dura 
da infeliz metrópole e seus grafites e pixações de artistas anônimos
seus mendigos pivetes e logradores desolados de urina e fel
mais contradições viadutos favelas e tragédias
uma áfrica colonizada e espoliada na história do corpo
faço poemas como quem faz revoluções
a utopia rasgando as artérias do peito
palavras e metáforas como únicas armas ao alcance
da minha tardia e ofuscada liberdade

                                    Jun- 2026

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Noite

beber lentamente desta noite
como se bebe vinho de boa safra
e esquecer-se dos açoites
que a sociedade dos homens bárbaros
não se esquece
de fustigar em lombo de preto
ler desta noite
com o mesmo atento cuidado 
que se lê um poema 
de joão da cruz e souza
e esquecer-se do pão de todo dia
que não se defende com versos tecidos
na clandestinidade e ostracismo
e no escorrer destas horas ermas
que a lua embrenhada na treva
também se encanta
com a constelação de estrelas impecáveis
na imponência de suas luzes
degustar deste amor
ausente a rasga-me o peito
cansado de solidão
e ela dormindo noutro canto da cidade
indiferente à minha dor
de poeta apaixonado
                                     e miserável

                         Jun- 2026

Por dizer

falar de amor meu bem
é um despropósito pra mim
enquanto ainda tem gente com fome 
pra citar Solano
e jovem sofrendo assassinato 
nas periferias
e gente analfabetizada
mas hoje quero
fazer um pouco de escândalo
e dizer do por dizer entre a gente
da primeira vez que
tive a certeza que a queria junto
que nossos quereres 
se alinharam
e nossos passos tomaram
o mesmo destino
e tudo o mais que fomos nós nesta vida
você não saiu de mim
embora nos afastamos
a ponto de mudar 
a regra da minha arte
de fazer-me cometer versos de amor
mas preciso ser justo
e ajustar o que ficou negligênciado
eu preciso dizer que o amor não morreu
com a separação
que o seu lugar no meu peito
é perpétuo.

                       Jun- 2026

domingo, 4 de janeiro de 2026

haikai trágico

a tragédia a tragédia a tragéd
calada no denso ar em forma de mendigo
tarde escandalizada

                   Jan- 2026