PALAVRA PRETA
No Frio Ponteiro das Horas: Escritos Negros- Poemas de Evanilson S. de Almeida
Poemas de temática social onde aborda, em linguagem simples, de maneira aberta e franca a fome, a miséria, as desigualdades e os privilégios da elite brasileira, e, voltados para a condição do negro e afro-descendente no Brasil fazem menção a fatos históricos desde o continente de origem (África) aos dias atuais, ao amor, à paixão e ao desejo.
domingo, 26 de julho de 2026
Mãe negra
à minha mãe
sem adereço
eterno recomeço deste enredo sem palavras
o emprego do seu afeto
entre o prazer reprimido e o encargo
nenhuma poesia
nesta alegria sem sorriso
doada
neste abraço que protege indefeso
sem qualquer interesse
do desapego
o tempo não cede
ao argumento que alegam teus olhos
que propõe teu desejo
somos cinzas sem direitos
e dissipamos
sopro
mãe
gestasse o homem não seria tanto
na dor e no pranto
do ser que desentranha
parisse o homem não seria tudo
no fruto que fere feto e já fato
esta voz que ecoa
fora do útero
mãe negra é a mãe branca
com os encargos da cor
Agos- 2021
Negra Carmelinda, minha avó.
pude ver a minha avó
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão
pude ganhar um afago
raro afago posto que dura a luta
de suas trêmulas mãos
anciãs
mãos de quem foi escrava na vida
mesmo muito depois
da abolição
a canga sobre os ombros
fez dela uma velha de corpo curvo
os olhos enevoados
refletiam a tragetória madrasta dos passos
e a pouca fé no homem
que governa
negra analfabeta e muda
eram discretas as suas estórias de vó
a favela era o seu quilombo
e a maior agressão
sua pele era negra
a pouca liberdade era negra
a vida era negra
Jul- 2025
13 de maio
13 de maio,
rio sem leito desaguando n'abismo.
13 de maio,
braço de arroio seguindo para o breu.
do ajuste malacabado
da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas,
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio,
apaziguando a culpa
da cabeça pesada do império.
atando ao passo do escravo a bola de ferro
da própria sorte.
13 de maio,
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos confinados,
escravos do vento contrário,
13 de maio.
Set- 2025
Breves anotações sociológicas
o capitalista
e seus intocáveis
haveres em perspectiva
meios de produção
conforto
e mais-valia
aplicações financeiras
mais acesso ao que de melhor
oferece o mundo
do capital
o trabalhador
e seus fulgazes teres
de sombra
mão-de-obra precária
que com a renda
per cápita
do árduo trabalho
de milhões
subsiste-se às bagatelas
e nesse obseno
enredo
o negro fio mais frágil
sustenta a base
desta pirâmide tortuosa
de absurdos
Jun- 2026
Nada diferente no mundo dos iguais
falta pão na mesa do pobre
e a notícia não comove os que mordem
degustando gostoso o repasto nos finos pratos
dos apartamentos de luxo
sob o lusco-fusco de mais um dia que cai
e quando um governante qualquer
anuncia verba pra educação
a deseducada elite que se farta vocifera
contra o custo brasil
que nada custa à sua vida de misérias
pimenta não deixou de ser refresco
nos olhos da plebe
Jul- 2026
Homem negro
não se ama além da própria utopia
pedaços de um homem,
pedaços de um homem,
partes inteiras de mágoa,
o coração rubro de um homem negro.
o estio vence os braços, vence a boca,
vence o pênis
-imenso de solidão-
enquanto os olhos têm os olhos
esquecidos noutros olhos.
eu quero a centelha no feno
muito além do fla flu casual
sem ausência ou apatia
eu quero a ousadia profana de um corpo
imperfeito
difusa qual artérias nas grades do peito.
hediondas paredes de pedra
à minha volta
-mais um emparedado destino-
o amor deflagrado
que não violenta.
mas não brincarei no carnaval sem passista
da avenida do tempo,
a vida escorrendo em suores.
eu quero mais que o amor alheio,
amor que morde e assopra
-tirano e frio-
eu quero o amor que volta,
a felicidade de uma boca,
de uma buceta, de uns seios.
14.02.2021
Negro existe
quando se pesquisa se encontra
pesquisaram a miséria e encontraram miséria
no ventre inchado dos subúrbios
pesquisaram a fome e encontraram fome
no bucho cheio da miséria
pesquisaram o analfabetismo e encontraram analfabeto
no seio farto da miséria e da fome
poeta negro só sabia de Cruz e Souza e Machado de Assis
tudo que aprendi na escola
andei pesquisando e descobri que preto escreve
quero dizer que fiquei aliviado e triste
pois fui e ainda estou tomando pé da extensão
do problema
com o histórico de açoites a manchar
biografias
escrever é ato de bravura
a regra ainda é
encolher-se
Out- 2025
Sou negro banto
sou negro banto
isto é convicção entranhada
negro soul e negro banto
apesar das nefastas misturas
misturas impostas pela força
(foram os abutres)
não sou senzala
não somos todos de cor
não vi carro de boi ou moenda
não dancei em roda de jongo
não frequentei terreiros
sou eu mais pobre
mas menos negro não sou
sei das minhas origens
minha língua é o pretoguês
não falo a língua pura dos outros
sou brasileiro negro soul
trago impregnado costumes
de povos estranhos
mas negro banto sou
não nego a minha cor e origem
negro d'áfrica sou
tenho sangue ruim nas veias
mas sou negro d'áfrica
negro banto sou
Jul- 2026
Quadro negro
o estudante negro
e todos os anseios
de universidade
o estudante negro
e a restrita comarca
das possibilidades
o estudante negro
e a pesada carga
do morar periférico
o estudante negro
e os graves entraves
sociais
e mais a história
de senzalas escravos
e flagelos
o estudante negro
sentindo ainda mais
fundo o duro golpe
dos punhos de aço
RACISMO
Set- 2025
Matando hora
num certo discreto torrão
de então incerto destino
os grandes grã-finos de então
decidiram por escravidão
o negro lutou
resistiu, se rebelou
nasce a nossa revolução
Zumbi funda Palmares
o negro trama ação
a golpes de capoeira e facão
e os distintos senhores
ao lucro, ouro, especulação
todos sabem a história
a colônia tornou-se nação
o negro que não esqueceu
luta por reparação
o branco manda
desmanda, senhor da decisão
e esta breve história
é o poeta matando a hora
com versos por se fazer
não sabe senão linhas tecer
o negro ainda sofre
mas hoje sabe escrever
Mar- 2021
Dos prazeres de agosto
não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.
Set- 2025
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