trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo arco,
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.
trago vivo ainda o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
esgotadas de abolições.
os olhos enxergavam sob névoa densa
um aglomerado áspero de barracos,
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.
preta que sofria a garatuja do próprio nome,
trazia magras as suas estórias de vó,
retalhos de vivências ancestrais,
escavados da fumaça.
de utopia acuada por imensas pedras,
a Vida era negra.
Jul- 2025