No Frio Ponteiro das Horas: Escritos Negros- Poemas de Evanilson S. de Almeida
Poemas de temática social onde aborda, em linguagem simples, de maneira aberta e franca a fome, a miséria, as desigualdades e os privilégios da elite brasileira, e, voltados para a condição do negro e afro-descendente no Brasil fazem menção a fatos históricos desde o continente de origem (África) aos dias atuais, ao amor, à paixão e ao desejo.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Palavras à margem.
andando por estas ruas
observo sujeiras hereditárias:
entre um susto e outro
múltiplos entraves,
vidas crespas às margens despejadas,
ecos de agonias ancestrais.
e o peito aperta...
travo nos dentes o vômito
enojado de tanto engolir
a aridez desta paisagem,
dos tantos sapos e cercos,
tanto encolher-se.
não há espaço justo
ou vida plena
sob mãos de aço que segregam
empregadas à jugular.
já não quero nada
diante dos prazeres urbanos,
das intenções dos engenheiros da dor
e seus orgasmos deliberados
de poeira e pedras.
sorrir já não quero!...
enroscado,
o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.
Jan-2024
Cabeleira afro.
a sua cabeleira afro,
exibida em tranças longas,
é a força que embeleza e traduz
toda a sua negritude.
trama de exclusiva sedução,
do puro orgulho
carapinha.
desfila negra, desfila,
o fino teor da sua beleza,
traz suavidade à ruas ásperas,
da São Paulo degradada,
e de caráter racista...
ensina a toda essa gente,
o valor da crespa natureza,
em fios de verdade —
insubordinada.
Jul-2026
O capitalista
o capitalista
dispõe da máquina e do capital,
senhor da ordem do dia, elege, governa e legisla,
ninguém tem mais influência.
ignora o conceito de mais-valia,
mas pratica o lucro, explora e multiplica,
sapateia nas víceras do trabalhador,
acumula sua miséria em patrimônio.
sua vida é uma grande sifra,
pensa e age em sifra, ama em sifra,
sofre em sifra, transpira sifra.
por fim, aos poucos suicida-se,
asfixiado pela própria ganância.
Agos-2026
Sou negro banto
sou negro banto
isso é convicção entranhada
negro soul e negro banto
apesar das nefastas misturas
misturas impostas pela força
(foram os abutres)
não sou senzala
não somos todos de cor
não vi carro de boi ou moenda
não dancei em roda de jongo
não frequentei terreiros
sou eu mais pobre
mas menos negro não sou
minha língua é o pretoguês
não falo a língua pura dos outros
sou brasileiro negro soul
trago impregnado costumes
de povos estranhos
mas negro banto sou
não nego a minha cor e origem
negro d'África sou
tenho sangue ruim nas veias
mas sou negro d'África
negro banto soul
Jul- 2026
Fragmentos de uma dor
ontem e hoje
o fragor do ferro doendo
ventos de entraves e medo
a fome das elites legando
guetos de quedas e cravos
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas
através dos séculos
abuso à tenra idade
nos amplos casarões do café
o éden agora são borros
diante das pupilas serenas
de uns olhos sem culpa
as negras de leite secas
e o fruir dos desmamados
tragando noites europeias
os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele verga o corpo
ontem e hoje
Jul- 2026
Vó Carmelinda
a Carmelinda Dias, minha avó.
trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo arco,
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.
trago vivo ainda o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
esgotadas de abolições.
os olhos enxergavam sob névoa densa
um aglomerado áspero de barracos,
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.
preta que sofria a garatuja do próprio nome,
trazia magras as suas estórias de vó:
retalhos de vivências antigas
escavados da fumaça.
de utopia acuada por imensas pedras,
a Vida era negra.
Jul- 2025
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Pedaços da fome
à escritora Carolina Maria de Jesus
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio,
o trabalho e a solidão.
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto este gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome?
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto este gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome?
despejada de cada quarto,
de todo canto, preterida da vida.
zela da veste grã-fina,
desdobra-se a cuidar deste chão,
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!
Maio- 2020
Maio- 2020
Poeta Oliveira
ao poeta Oliveira Silveira
pois é,
poeta de Touro-Passo, universal.
a notícia do seu trabalho chegou ao Brasil
profundo, fertilizou a terra estéril,
e as sementes de potência que você desentranhou,
germinaram uma consciência.
a mensagem está transmitida, valeu a inspiração
e transpiração dos muitos anos.
trago a peso de ouro cada vírgula pensada,
e os caminhos que você percorreu, desbravando
a floresta imensa, já consigo enxergar.
e quem sabe um dia, ao sabor da vontade de Oxalá,
em algum tempo, eu também consiga trilhar,
com as estradas já assentadas.
Jul- 2025
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que
a rã de Bashô, que será que
ele acho(u)?
o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima
o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima
do peixe?
eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se
eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se
equilibra.
espicha-se toda
a lagartixa, e devora a
espicha-se toda
a lagartixa, e devora a
barata viva.
o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será
o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será
banquete de verme!
digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade
costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental
não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência
inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo
"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é
digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade
costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental
não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência
inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo
"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é
o boi no prato?...
haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.
digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!
castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come
abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?
diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.
desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te
quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu
conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?
ENIGMA
sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes
haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.
digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!
castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come
abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?
diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.
desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te
quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu
conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?
ENIGMA
sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes
sem deitar?
A GALINHA
no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem,
A GALINHA
no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem,
dormiu.
INVERNO
bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.
PRIMAVERA
brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!
AMOR MENINO
hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.
MANHÃ
vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!
DEPOIS DA CHUVA
flutua deslumbrante
INVERNO
bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.
PRIMAVERA
brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!
AMOR MENINO
hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.
MANHÃ
vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!
DEPOIS DA CHUVA
flutua deslumbrante
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.
FLORES DE ABRIL
finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...
2011- 2012- 2013- 2018- 2019
.
sigo por esta rua.
FLORES DE ABRIL
finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...
2011- 2012- 2013- 2018- 2019
.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
No silêncio dos dias
o açoite da artilharia do tempo
contra as sólidas muralhas deste amor
tenta o sequestro
do que existe frágil na pedra
a muda apatia
na tragetória fria da queda
luz que estilhaça esplendor e treva
a força da pedra que dura
está naquele sopro efêmero de ternura
no âmago
da própria substância
e sob a fustiga do vento no tempo
esgarçado de uma dor
o alarde da gente
oculto no silêncio dos dias
Mar- 2021
O que é do negro
o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado por cruel afronta
à vida vunerável mesmo antes de concebido
a prostrar qualquer homem
no âmago ferido
o que é do negro
rendido à força de um tiro letal
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
atirado à terra seca da indigência
sem porvir que prospere
o que é do negro
implicado desde sempre a todo tipo de situação tóxica
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
ao arsenal de ultrajes da raça oposta
sem misericórdia ou pudor
o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro
a flor que brota na pedra
não acessa nutrientes que a fortaleça
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
lutando por um escape que
o liberte desta teia de apagamento
Jul- 2025
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