quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Fragmentos de uma dor

de ontem a hoje a
mesma dor
a mesma ponta 
de faca a mesma 
emboscada pra pegar 
à traição
as mesmas tristes
estampas de desonra
nas mesmas
peles a mesma 
dor

e na esteira do triste
contraste
a fortuna vasta garantia
do legado século
adentro


a tenra carne escrava 
currada pelos 
corredores 
amplos e salas 
às claras
velhas secas
de tão sugadas

e os agora nutridos
e desmamados rebentos nobres
no regalo em estrangeiros
ares

a triste geografia
dos espaços insalubres
dor no sobe e desce
degraus
da vida de imensas pedras
sobre os ombros
áspera vida

reflexos
em espiral que se repetem
numa constante
que não se esgota tempo 
afora
a mesma dor faca
os mesmos 
tristes
contrastes

                             Jul- 2026

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

HAICAIS

pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que 
ele acho(u)?


o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima 
do peixe?


eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se 
equilibra.


espicha-se toda
a lagartixa, e devora a 
barata viva.


o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será 
banquete de verme!


digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade


costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental


não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência


inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo


"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é 
o boi no prato?...


haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.


digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!


castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come


abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?


diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.


desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te


quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu


conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?


ENIGMA

sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes 
sem deitar?


A GALINHA

no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem, 
dormiu.


INVERNO

bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.


PRIMAVERA

brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!


AMOR MENINO

hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.


MANHÃ

vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!


DEPOIS DA CHUVA

flutua deslumbrante 
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.


FLORES DE ABRIL

finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...



                  2011- 2012- 2013- 2018- 2019

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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O enredo de um amor

grafar teu nome no atropelo
das obrigações diárias do outono poluído 
da metrópole de pedra
escrever entre ruídos e fuligem 
o enredo de um amor 
que não se desgaste feito engrenagem
e na grave inércia do mármore exista

o tempo é credor dos corpos
hábitos e costumes
com o amor coexiste na órbita do indizível
é frágil a sintaxe do verbo
e rica a poesia que há na vida

então quero existir
noite adentro da intimidade nossa
na fortaleza de um apartamento
tratar de demandas e boletos no café da manhã
averiguar nos jornais alento concreto 
para violência

vez em quando evadir pro campo

      Mar- 2021

No silêncio dos dias

o açoite da artilharia do tempo
contra as sólidas muralhas deste amor
tenta o sequestro 
do que existe frágil na pedra
a muda apatia
na tragetória fria da queda
luz que estilhaça esplendor e treva

a força da pedra que dura
está naquele sopro efêmero de ternura
no âmago
da própria substância
e sob a fustiga do vento no tempo
esgarçado de uma dor

o alarde da gente
oculto no silêncio dos dias

     Mar- 2021

O que é do negro

o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado por cruel afronta
à vida vunerável mesmo antes de concebido
                    a prostrar qualquer homem
                    no âmago ferido
                    
o que é do negro
rendido à força de um tiro letal
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
                    atirado à terra seca da indigência
                    sem porvir que prospere

o que é do negro
implicado desde sempre a todo tipo de situação tóxica
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
                     ao arsenal de ultrajes da raça oposta 
                     sem misericórdia ou pudor

o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro

a flor que brota na pedra
não acessa nutrientes que a fortaleça
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
                      lutando por um escape que 
                      o liberte desta teia de apagamento

                     Jul- 2025

Fragmentos de uma dor

ponta de faca do feitor
captura na tocaia cepos grilhões pelourinho
e a condição bestial dos amputados
estigmas da desonra máscaras de ferro
a queda brusca
nos logradouros da imundice

e o sinhô de abastado capital
assegurando sua casta

tenra negra currada
mucama canga e fogão abusos da casa-grande
colônia sujeira subjugo fome 
jovens escravos de velhas faces 
eito lavra banzo de preto velho na enxada
amas negras de leite secas
de tão sugadas 

e nhôzinho nutrido a fartar-se
de regalo no exterior

nos insalubres espaços
a bruta geografia dos descartados
uma dor em cada rosto que sobe e desce
os degraus pedrosos da pouca sorte
e neste avesso tecido 
o histórico contraste:

a riqueza é toda branca
e negra a tragédia da indigência.

                     Jul- 2025

domingo, 2 de agosto de 2026

Sonhos desfeitos

andando por estas ruas, transito-me.
as casas há tempos estão mudas
e há um eco de silêncio nos portões
os mortos sob o asfalto
não ousam manifesto

costuro a boca com os dentes
farto de tantas máscaras de obrigações 
e condenados sem justiça
no torpe tribunal dos enjeitados

não tem julgamento justo
não tem júri isento
pra essa gente de cor escura
com a guilhotina da vida dura
a um fio da jugular

de repente afaga-me uma flor
afogo no ensaio 
um anseio de fé satisfeita
não há prazer que apague a mágoa
dos sonhos desfeitos 

já não quero nada
diante dos gozos urbanos
da tragédia planejada dos engenheiros 
do caos e seus projetos com 
nódoas de sangue

sorrir já não quero

enroscado, o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.

                 Jan-2024

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não há vaga

a universidade é pública
mas atende aos filhos 
da alta classe
de pública torna-se privada
e para o filho
do pobre não há vaga

o diagnóstico é triste
a subsistência 
a possível
o sentido fragilizado da vida
o osso do banquete 
no prato
a liberdade abolida
e do que se precisa nem resto

a conta que nunca fecha
o ministério 
da estatística adverte
a balança
não pende, (de)pende
poder perpétuo, justiça
a exata medida entre a vastidão
e o corpo inerte

as faces estranhas
da mesma moeda
a posse usurpada da terra
um oceano
de negras angústias
o desfalque,
a apropriação indébita
a cínica farsa do mérito

em vez de se extinguir
o abismo, aprofunda-se
o burguês
regala-se sempre
abastado
e mais falta a quem não tem nome
o feto indigente, coitado
já nasce com fome

a história restaurada
quanto maior a exposição dos fatos
mais a litania é constatada
a universidade é pública
mas para o filho
do pobre 
NÃO HÁ VAGA!

       Jun- 2020


domingo, 26 de julho de 2026

            




                           PALAVRA PRETA
                                   poemas













Evan Crespo




Evan Crespo é o pseudônimo de Evanilson Silva de Almeida, 
nascido a 21 de fevereiro de 1973, na cidade
de São Paulo, onde vive. 

Contato: evasa2@hotmail.com



Este livro é dedicado à minha mãe Marlene
Oliveira da Silva, a minhas irmãs Evanilda,
Elízia Raquel, Tamires Silva 
e meu irmão Evandro.

                                             2026

DO ENGAJAMENTO

Mãe negra

                                 à minha mãe

quanto de dor pisa a avenida
sem adereço 
eterno recomeço deste enredo sem palavras
o emprego do seu afeto
entre o prazer reprimido e o encargo

nenhuma poesia
nesta alegria sem sorriso
doada
neste abraço que protege indefeso
sem qualquer interesse
do desapego

o tempo não cede 
ao argumento que alegam teus olhos
que propõe teu desejo
somos cinzas sem direitos
e dissipamos 
sopro

mãe 

gestasse o homem não seria tanto
na dor e no pranto
do ser que desentranha

parisse o homem não seria tudo
no fruto que fere feto e já fato
esta voz que ecoa 
fora do útero

mãe negra é a mãe branca
com os encargos da cor

        Agos- 2021

Negra Carmelinda, minha avó.

                                      in memoriam

pude ver a minha avó
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão

pude ganhar um afago
raro afago posto que dura a luta
de suas trêmulas mãos 
anciãs
mãos de quem foi escrava na vida
mesmo muito depois 
da abolição

a canga sobre os ombros
fez dela uma velha de corpo curvo
os olhos enevoados
refletiam a tragetória madrasta dos passos
e a pouca fé no homem 
que governa

negra analfabeta e muda
eram discretas as suas estórias de vó
a favela era o seu quilombo
e a maior agressão

sua pele era negra
a pouca liberdade era negra
a vida era negra

                     Jul- 2025

13 de maio

13 de maio,
cínico enredo encenado sem ensaio.
13 de maio,
desencargo pão e circo folclore atalho.
do ajuste malacabado da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
arranjo apaziguador da ordem
da cabeça pesada do poder acuado.
atando ao calcanhar escravo a bola de ferro
da injustiça e do encargo.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos subjugados,
peças descartadas.
13 de maio.

                                  Set- 2025