segunda-feira, 31 de agosto de 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Minha mãe comia caranguejo

                                        a minha mãe, sempre.

minha mãe comia caranguejo,
junto com meus tios e tias, 
e era o único alimento, sem glamur 
ou etiqueta, em seco engolido:
cócoras em chão batido,
carapaça, pelos, 
pedra e areia de praia;
cozido apenas n'água e sal,
minha mãe comia caranguejo!

meu avô, 
preto analfabeto e pescador,
morreu, ela ainda menina.
foi criada por dona nenê, minha vó,
e pouco lembra do velho pai.
sabe dizer apenas
que era homem trabalhador,
do litoral baiano,
e que trazia caranguejo.

minha mãe comia caranguejo!
minha mãe comia caranguejo!

                         Agos-2026

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Cinderela negra

                                            à carolina maria de jesus

teve pouco contato a menina carolina,
com o aprendizado formal que na escola se ensina,
mas observou, escavou e aprendeu com a vida.
veio de onde nasceu, sacramento, minas.
estrela negra num palco de astros brancos, 
limpou chão, catou papel, cuidou da veste grã-fina.
pegou chuva, andou suja, 
desdobrou-se em mil pra alimentar três bocas,
encaminhar três vidas, tragar a seco a dura rotina.
no meio de tanta labuta, tanta luta, 
ainda deixou inscrita,
em folhas do lixo recolhidas, literatura de respeito,
escrita crua, direta, sem curva, essa foi carolina:
cinderela negra, que talhou a lápis a casa de alvenaria:
"quarto de despejo", "pedaços da fome",
"provérbios", "diário de bitita".
e apesar de tanto despeito e estranheza,
das altas esferas que monopolizam o mercado da escrita,
um mundo branco que exclui a diferença,
pelo povo negro, que se ocupa da arte literária,
carolina será sempre acolhida.

                             Agos-2026

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

            




                           PALAVRAS À MARGEM
                                             Poemas













Evan Crespo













                                        PALAVRAS À MARGEM
                                                          Poemas














Evan Crespo é o pseudônimo de Evanilson Silva de Almeida, 
nascido a 21 de fevereiro de 1973, na cidade
de São Paulo, onde vive. 

Contato: evasa2@hotmail.com



Este livro é dedicado a minha mãe Marlene
Oliveira da Silva, minhas irmãs Evanilda,
Elízia Raquel, Tamires Silva 
e meu irmão Evandro.

                                             2026
                                                         Sumário






REFLEXÕES E VIVÊNCIAS

Palavras à margem                         04
Cabeleira afro                                  05
Laço que não desata                      06
Sou negro banto
Pedinte no centro da cidade
O capitalista
Fragmentos de uma dor

IN MEMORIAM

Dona Nenê
Pedaços da fome
Poeta Oliveira

REFLEXÕES E VIVÊNCIAS

Palavras à margem

andando por estas ruas 
observo sujeiras hereditárias:
estreitos, ajus-
tes, a asfixia, entraves. 
me bastas no culto agradecidos, mas, 
fatalidade, despejados; ecos 
de agonias ancestrais. 
peito aperta...

entre um e outro olhar,
a náusea: do tanto fazer de conta,
engolir máscaras, nem tantos
e nem cismas:
dos tantos sapos e cercos, 
e tanto encolher-se.

— não há espaço justo
ou vida plena
sob mãos de aço que segregam
empregadas à jugular —

já não quero nada
diante dos prazeres urbanos,
das intenções dos engenheiros da dor
e seus orgasmos deliberados
de poeira e pedras.
sorrir já não quero!...

enroscado, 
o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.

                 Jan-2024

Arte de preto

usar cabelo de preto,
e ainda exigir do poema, verdade, 
isso também é arte.
acurar de ginga a estética,
pentear com as própria regras a língua,
revolucionar-se.

no batente de todo dia,
cabeça feita, conciência negra,
e muita atitude malunga,
desembaraçar-se.

arte preta é problema
para o opressor, cabelo de preto, como bem 
se entende, ameaça pro sistema
e engrenagens dos sinhôs,
encarapinhar-se.

ontem, negra pronta,
exibia argulhosa, nas ruas ásperas
da São Paulo degradada,
e de caráter racista!
a sua natureza crespa,
em fios de verdade —
insubordinada.

                    Jul-2026

domingo, 16 de agosto de 2026

Ainda me importo

não sei por que ainda me importo, 
você ganhou contornos de rosa pra mim:
bela, mas cheia de espinhos,
murchando num canto de jardim
até cairem as pétalas...

meu delito foi te amar 
diariamente, sem perceber que amor,
pra você, não bastava, e até hoje não sei 
o que você esperava de mim;
talvez nada, demais talvez.

sinto, que não quis ficar,
ou nem te ocorreu: que todo homem
tem esta fase oculta, gostosa de experimentar, 
a fase de tocar com os olhos, 
dizer coisas inesperadas...

e as delícias de mulher,
entre pelos, lábios, fogo, sabor de urina,
e o odor único e úmido de cio,
que guardo nestas narinas largas; cato às pressas, 
em qualquer rua, ou transporte público,

de seres, como eu, despercebidos.

  Mar-2021

sábado, 15 de agosto de 2026

Pedinte no centro da cidade

               40 graus, entardecer abrasador,
       na estufa da rua não tem o ar dos escritórios.
o asfalto invade-lhe a face, penetra-lhe a pele;
              não há distinção.
ele não tem canto onde chegar e restaurar o ânimo,
                              trancar os olhos, ignorar o mundo,
num sono que o resgate, trégua amiga.
fome não sabe o que é, quer um cigarro,
             enseja uma marquise
para largar a carne dum inchaço de decomposição:
cadáver que ambula com a morte nos calcanhares.
a vida à míngua e seus pertences de pano roto, 
                               a roupa do corpo. 
      distâncias estampadas na rigidez do rosto.
                mais nada.


                                                                        São Paulo, Out-2025

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O capitalista

                       o capitalista
dispõe da máquina 
e do capital,
              voz potente que ecoa, 
ele elege, governa e legisla, 
         nítido retrato
    do poder absoluto.

confina o gado, respira posse,
pratica o lucro, 
          acumula e multiplica,
sapateia nas víceras do trabalhador,
desdobra a própria miséria 
         em patrimônio.

                     desfigura
de cifra o sabor da vida,
          o seu âmago exala moeda,
impregnando de aridez 
as relações humanas, 
                     e tudo é universo 
de estrelas apagadas.

ainda dorme, ad aeternum,
sobre as plumas dessa queda.

                          Agos-2026

Fragmentos de uma dor

ontem e hoje 
o fragor do ferro doendo
ventos de estigmas e grades
a fome das elites legando
guetos de tombos e cravos
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas 
através dos séculos 

abuso à tenra idade
nos amplos casarões do café
o éden agora são borros
diante das pupilas serenas
de uns olhos sem culpa
as negras de leite secas
e o fruir dos desmamados
tragando noites europeias

os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele verga o corpo 
 
                          ontem e hoje!

                        Jul- 2026