segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Minha mãe comia caranguejo

                                        a minha mãe

minha mãe comia caranguejo,
junto com meus tios e tias, 
e era o único alimento, sem glamur 
ou etiqueta, em seco engolido:
cócoras em chão batido,
carapaça, pelos, 
pedra e areia de praia;
cozido apenas n'água e sal,
minha mãe comia caranguejo!

meu avô, 
preto analfabeto e pescador,
morreu, ela ainda menina.
foi criada por dona nenê, minha vó,
e pouco lembra do velho pai.
sabe dizer apenas
que era homem trabalhador,
do litoral baiano,
e que trazia caranguejo.

minha mãe comia caranguejo,
minha mãe comia caranguejo!

                         Agos-2026

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Cinderela negra

                                            à carolina maria de jesus

teve pouco contato a menina carolina,
com o aprendizado formal que na escola se ensina,
mas observou, escavou e aprendeu com a vida.
veio de onde nasceu, sacramento, minas.
estrela negra num palco de astros brancos, 
limpou chão, catou papel, cuidou da veste grã-fina.
pegou chuva, andou suja, 
desdobrou-se em mil pra alimentar três bocas,
encaminhar três vidas, tragar a seco a dura rotina.
no meio de tanta labuta, tanta luta, 
ainda deixou inscrita,
em folhas do lixo recolhidas, literatura de respeito,
escrita crua, direta, sem curva, essa foi carolina:
cinderela negra, que talhou a lápis a casa de alvenaria:
"quarto de despejo", "pedaços da fome",
"provérbios", "diário de bitita".
e apesar de tanto despeito e estranheza,
das altas esferas que monopolizam o mercado da escrita,
um mundo branco que exclui a diferença,
pelo povo negro, que se ocupa da arte literária,
carolina será sempre acolhida.

                             Agos-2026

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

            




                           PALAVRAS À MARGEM
                                             Poemas













Evan Crespo













                                        PALAVRAS À MARGEM
                                                          Poemas














Evan Crespo é o pseudônimo de Evanilson Silva de Almeida, 
nascido a 21 de fevereiro de 1973, na cidade
de São Paulo, onde vive. 

Contato: evasa2@hotmail.com



Este livro é dedicado a minha mãe Marlene
Oliveira da Silva, minhas irmãs Evanilda,
Elízia Raquel, Tamires Silva 
e meu irmão Evandro.

                                             2026
                                                         Sumário






REFLEXÕES E VIVÊNCIAS

Palavras à margem                         04
Cabeleira afro                                  05
Laço que não desata                      06
Sou negro banto
Pedinte no centro da cidade
O capitalista
Fragmentos de uma dor

IN MEMORIAM

Dona Nenê
Pedaços da fome
Poeta Oliveira

REFLEXÕES E VIVÊNCIAS

Palavras à margem

andando por estas ruas 
observo sujeiras hereditárias:
estreitos, ajus-
tes, a asfixia, entraves. 
me bastas no culto agradecidos, mas, 
fatalidade, despejados; ecos 
de agonias ancestrais. 
peito aperta...

entre um e outro olhar,
a náusea: do tanto fazer de conta,
engolir máscaras, nem tantos
e nem cismas:
dos tantos sapos e cercos, 
e tanto encolher-se.

— não há espaço justo
ou vida plena
sob mãos de aço que segregam
empregadas à jugular —

já não quero nada
diante dos prazeres urbanos,
das intenções dos engenheiros da dor
e seus orgasmos deliberados
de poeira e pedras.
sorrir já não quero!...

enroscado, 
o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.

                 Jan-2024

Arte de preto

usar cabelo de preto,
e ainda exigir do poema, verdade, 
isso também é arte.
acurar de ginga a estética,
pentear com as própria regras a língua,
revolucionar-se.

no batente de todo dia,
cabeça feita, conciência negra,
e muita atitude malunga,
desembaraçar-se.

arte preta é problema
para o opressor, cabelo de preto, como bem 
se entende, ameaça pro sistema
e engrenagens dos sinhôs,
encarapinhar-se.

ontem, negra pronta,
exibia argulhosa, nas ruas ásperas
da São Paulo degradada,
e de caráter racista!
a sua natureza crespa,
em fios de verdade —
insubordinada.

                    Jul-2026

domingo, 16 de agosto de 2026

Ainda me importo

não sei por que ainda me importo, 
você ganhou contornos de rosa pra mim:
bela, mas cheia de espinhos,
murchando num canto de jardim
até cairem as pétalas...

meu delito foi te amar 
diariamente, sem perceber que amor,
pra você, não bastava, e até hoje não sei 
o que você esperava de mim;
talvez nada, demais talvez.

sinto, que não quis ficar,
ou nem te ocorreu, que todo homem
tem esta fase oculta, gostosa de experimentar, 
a fase de tocar com os olhos, 
dizer coisas inesperadas...

e as delícias de mulher,
entre pelos, lábios, fogo, sabor de urina,
e o odor único e úmido de cio,
que guardo nestas narinas largas; cato às pressas, 
em qualquer rua, ou transporte público,

de seres, como eu, despercebidos.

  Mar-2021

sábado, 15 de agosto de 2026

Pedinte no centro da cidade

               40 graus, entardecer abrasador,
       na estufa da rua não tem o ar dos escritórios.
o asfalto invade-lhe a face, penetra-lhe a pele;
              não há distinção.
ele não tem canto onde chegar e restaurar o ânimo,
                              trancar os olhos, ignorar o mundo,
num sono que o resgate, trégua amiga.
fome não sabe o que é, quer um cigarro,
             enseja uma marquise
para largar a carne dum inchaço de decomposição:
cadáver que ambula com a morte nos calcanhares.
a vida à míngua e seus pertences de pano roto, 
                               a roupa do corpo. 
      distâncias estampadas na rigidez do rosto.
                mais nada.


                                                                        São Paulo, Out-2025

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O capitalista

                       o capitalista
dispõe da máquina 
e do capital,
              voz potente que ecoa, 
ele elege, governa e legisla, 
         nítido retrato
    do poder absoluto.

confina o gado, respira posse,
pratica o lucro, 
          acumula e multiplica,
sapateia nas víceras do trabalhador,
desdobra a própria miséria 
         em patrimônio.

                     desfigura
de cifra o sabor da vida,
          o seu âmago exala moeda,
impregnando de aridez 
as relações humanas, 
                     e tudo é universo 
de estrelas apagadas.

ainda dorme, ad aeternum,
sobre as plumas dessa queda.

                          Agos-2026

Fragmentos de uma dor

ontem e hoje 
o fragor do ferro doendo
ventos de estigmas e grades
a fome das elites legando
guetos de tombos e cravos
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas 
através dos séculos 

abuso à tenra idade
nos amplos casarões do café
o éden agora são borros
diante das pupilas serenas
de uns olhos sem culpa
as negras de leite secas
e o fruir dos desmamados
tragando noites europeias

os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele verga o corpo 
 
                          ontem e hoje!

                        Jul- 2026

IN MEMORIAM

Dona Nenê

                               a Carmelinda Dias, minha avó.

trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo arco,
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.

trago vivo ainda, o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
esgotadas de abolições.

os olhos enxergavam sob névoa densa
um aglomerado áspero de barracos,
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.

preta que sofria a garatuja do próprio nome
trazia magras as suas estórias de vó:
retalhos de vivências antigas,
escavados da fumaça.

de utopia acuada por imensas pedras,
a Vida era negra.

                     Jul- 2025