terça-feira, 16 de junho de 2026

O poeta

o poeta é um envergonhado
tem vergonha dos versos e da vida
o poeta nasceu pobre
embora um dia cavaste da vida
da vida magra que herdou
e o poeta empobreceu
mesmo insistindo em cavar 
seu corpo enfraqueceu com o tempo
seus dedos sangraram
foram os homens a cor de sua pele
ou o legado de sua pátria amarga?
o poeta empobreceu, enfeou
e tornou-se fraco
esta é a vida dos homens poeta
suas palavras já não têm relevância
pense agora poeta 
pense agora aonde vai deitar
seu corpo esqualido e frio 
frio e teso como o ferro que um dia singiu
os corpos igualmente esqualidos
e igualmente negros dos seus avós.

                Jun- 2026

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Reflexões estrangeiras 2

a perifa é um pingo no i na gramática
do Mário, do Oswald
                  e de todos os negros
iletrados desta pátria
de párias.

                            Jan- 2026

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Reflexões estrangeiras

e os marxistas de São Paulo
discutindo com profundidade abissal
até a bosta da formiga
albina.

nada paira alheio ao poeta
obstinado e só, na sociedade
dormindo.

apenas o derradeiro
sobrevoo do abutre solitário
e egoísta.

de tanto céu para usufruto 
e covarde tecendo
assovio. 
                    tarde

                Jan- 2026

domingo, 4 de janeiro de 2026

haikai trágico

a tragédia a tragédia a tragéd
calada no denso ar em forma de mendigo
tarde escandalizada

                   Jan- 2026

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Rolê

os mendigos assassinos
pisando em baratas
no centro da São Paulo
escaldante

                      Dez- 2025

domingo, 14 de dezembro de 2025

Escombros periféricos sob um céu puro

o dia do azul mais belo
a fresca alva da manhã repleta de orvalho
e a fotografia mais triste da terra
dos homens pretos
um brasil de restos de lonas rasgadas
servindo de abrigo aos seres
mais carentes entre
os humanos.
aqueles que chamamos despudoradamente
como a nudez de uma virgem
em praça pública:
favelado.

                              Dez- 2025

O poema e seu legado de sombra

eram dois por dois toda a sua posse
o restrito espaço onde depositou toda a sua ilusão
poeta negro homem sem pertences
já não importava
estava a um passo de legar
alarido de sombra.

                         Dez- 2025

Poetas do crepúsculo

vestígios do tempo na tessitura
das trevas de uma rua sob o domínio do silêncio
menos que rua, beco escuro
viela deflagrada
de pequenas tragédias de seres irrelevantes.
um pássaro a rasgar a noite violada
de uma criança dormindo
sob os escombros da miséria
corroendo. a destroçar o peito inocente
sangue e lágrimas
crime perfeito, alguns otários
catando conchinhas
na guanabara.

                     Dez- 2025

sábado, 13 de dezembro de 2025

Talvez o fruto

o sêmen envelhece
a qualidade do fruto se degrada no corpo
e mesmo a mais amante das negras
jovens
sem senzalas rebenques ou 
                                      bacamartes
não é capaz de tanta ilusão
no ventre da manhã
gestando 
revoluções.

                              Dez- 2025

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Crônica despóstica de uma África viva

astros analfabetos
a riscarem os céus carentes de pássaros
nas trevas poluídas da metrópole
noturna.

NÃO!

adultos jovens e crianças negras
a catarem em suas vidas de desastres
uma réstia do alfabeto
massacrado
pela soberba egoísta
do homem
branco.

                    Dez- 2025

sábado, 6 de dezembro de 2025

Despertar

a lua periférica é vesga
catando passos negros aos tropeções
com vestígios de senzala e dor
entre as fibras ópticas
do progresso.

                   Dez- 2025

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Crua realidade

manicômio para o negro
o viés a inclemência
e o ódio do conjunto da sociedade e suas
instituições corrompidas,
mais as fezes fartas do capitalista.
para o branco
sombra, água de coco
e a paz dos
dias amenos.
uns braços da tolerância,
todo amor e afeto.

                   Dez- 2025

Humilhação

branquitude humilha o negro
desde que o negro é raça.
primeiro veio a exploração dos disponíveis
depois o espólio dos abnegados.
os últimos dos negros da história
não contada.
hoje é o negro com a branca
e os seus afetos de escárnios e fel
sobre o desespero.
e a negra com o branco
a perpetuação 
do domínio dos bárbaros.
sobre a ingenuidade.

                 Dez- 2025

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Madrugada

madrugada autivagante 
eu acordo todo mundo descansante
e saio escuro adentro
                           passo lento
de sonante
          para a realidade da batalha

                        Nov- 2025

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Escola primária

oh deus, o que foi a escola da infância?...
tínhamos todos caderno, lápis, borracha e régua.
em gradações diferentes, tínhamos.
bem ou mau vestíamos e calçávamos.
mas apenas eu tinha a pele negra.
a professora sangue azul
gostava e desgostava de uns e de outros.
mas apenas a mim lançava opressores olhares e palavras.
os livros todos nos levavam ao Novo Mundo,
mundo de príncepes e princesas rosas 
de tão branquinhos.
e eu sequer sabia ver 
a bola de ferro que prendiam
aos meus calcanhares.

                        Out- 2025