No Frio Ponteiro das Horas: Escritos Negros- Poemas de Evanilson S. de Almeida
Poemas de temática social onde aborda, em linguagem simples, de maneira aberta e franca a fome, a miséria, as desigualdades e os privilégios da elite brasileira, e, voltados para a condição do negro e afro-descendente no Brasil fazem menção a fatos históricos desde o continente de origem (África) aos dias atuais, ao amor, à paixão e ao desejo.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Minha mãe comia caranguejo
a minha mãe, sempre.
junto com meus tios e tias,
e era o único alimento, sem glamur
ou etiqueta, em seco engolido:
cócoras em chão batido,
carapaça, pelos,
pedra e areia de praia;
cozido apenas n'água e sal,
minha mãe comia caranguejo!
meu avô,
preto analfabeto e pescador,
morreu, ela ainda menina.
foi criada por dona nenê, minha vó,
e pouco lembra do velho pai.
sabe dizer apenas
que era homem trabalhador,
do litoral baiano,
e que trazia caranguejo.
minha mãe comia caranguejo!
minha mãe comia caranguejo!
Agos-2026
sexta-feira, 21 de agosto de 2026
Cinderela negra
à carolina maria de jesus
teve pouco contato a menina carolina,
com o aprendizado formal que na escola se ensina,
mas observou, escavou e aprendeu com a vida.
veio de onde nasceu, sacramento, minas.
estrela negra num palco de astros brancos,
limpou chão, catou papel, cuidou da veste grã-fina.
pegou chuva, andou suja,
desdobrou-se em mil pra alimentar três bocas,
encaminhar três vidas, tragar a seco a dura rotina.
no meio de tanta labuta, tanta luta,
ainda deixou inscrita,
em folhas do lixo recolhidas, literatura de respeito,
escrita crua, direta, sem curva, essa foi carolina:
cinderela negra, que talhou a lápis a casa de alvenaria:
"quarto de despejo", "pedaços da fome",
"provérbios", "diário de bitita".
e apesar de tanto despeito e estranheza,
das altas esferas que monopolizam o mercado da escrita,
um mundo branco que exclui a diferença,
pelo povo negro, que se ocupa da arte literária,
carolina será sempre acolhida.
Agos-2026
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Palavras à margem
andando por estas ruas
observo sujeiras hereditárias:
estreitos, ajus-
tes, a asfixia, entraves.
me bastas no culto agradecidos, mas,
fatalidade, despejados; ecos
de agonias ancestrais.
e o peito aperta...
entre um e outro olhar,
a náusea: do tanto fazer de conta,
engolir máscaras, nem tantos
e nem cismas:
dos tantos sapos e cercos,
e tanto encolher-se.
— não há espaço justo
ou vida plena
sob mãos de aço que segregam
empregadas à jugular —
já não quero nada
diante dos prazeres urbanos,
das intenções dos engenheiros da dor
e seus orgasmos deliberados
de poeira e pedras.
sorrir já não quero!...
enroscado,
o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.
Jan-2024
Arte de preto
usar cabelo de preto,
e ainda exigir do poema, verdade,
isso também é arte.
acurar de ginga a estética,
pentear com as própria regras a língua,
revolucionar-se.
no batente de todo dia,
cabeça feita, conciência negra,
e muita atitude malunga,
desembaraçar-se.
arte preta é problema
para o opressor, cabelo de preto, como bem
se entende, ameaça pro sistema
e engrenagens dos sinhôs,
encarapinhar-se.
ontem, negra pronta,
exibia argulhosa, nas ruas ásperas
da São Paulo degradada,
e de caráter racista!
a sua natureza crespa,
em fios de verdade —
insubordinada.
Jul-2026
domingo, 16 de agosto de 2026
Ainda me importo
não sei por que ainda me importo,
você ganhou contornos de rosa pra mim:
bela, mas cheia de espinhos,
murchando num canto de jardim
até cairem as pétalas...
meu delito foi te amar
diariamente, sem perceber que amor,
pra você, não bastava, e até hoje não sei
o que você esperava de mim;
talvez nada, demais talvez.
sinto, que não quis ficar,
ou nem te ocorreu: que todo homem
tem esta fase oculta, gostosa de experimentar,
a fase de tocar com os olhos,
dizer coisas inesperadas...
e as delícias de mulher,
entre pelos, lábios, fogo, sabor de urina,
e o odor único e úmido de cio,
que guardo nestas narinas largas; cato às pressas,
em qualquer rua, ou transporte público,
de seres, como eu, despercebidos.
Mar-2021
sábado, 15 de agosto de 2026
Pedinte no centro da cidade
40 graus, entardecer abrasador,
na estufa da rua não tem o ar dos escritórios.
o asfalto invade-lhe a face, penetra-lhe a pele;
não há distinção.
ele não tem canto onde chegar e restaurar o ânimo,
trancar os olhos, ignorar o mundo,
num sono que o resgate, trégua amiga.
fome não sabe o que é, quer um cigarro,
enseja uma marquise
para largar a carne dum inchaço de decomposição:
cadáver que ambula com a morte nos calcanhares.
a vida à míngua e seus pertences de pano roto,
a roupa do corpo.
distâncias estampadas na rigidez do rosto.
mais nada.
São Paulo, Out-2025
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
O capitalista
o capitalista
dispõe da máquina
e do capital,
voz potente que ecoa,
ele elege, governa e legisla,
nítido retrato
do poder absoluto.
confina o gado, respira posse,
pratica o lucro,
acumula e multiplica,
sapateia nas víceras do trabalhador,
desdobra a própria miséria
em patrimônio.
desfigura
de cifra o sabor da vida,
o seu âmago exala moeda,
impregnando de aridez
as relações humanas,
e tudo é universo
de estrelas apagadas.
ainda dorme, ad aeternum,
sobre as plumas dessa queda.
Agos-2026
Fragmentos de uma dor
ontem e hoje
o fragor do ferro doendo
ventos de estigmas e grades
a fome das elites legando
guetos de tombos e cravos
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas
através dos séculos
abuso à tenra idade
nos amplos casarões do café
o éden agora são borros
diante das pupilas serenas
de uns olhos sem culpa
as negras de leite secas
e o fruir dos desmamados
tragando noites europeias
os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele verga o corpo
ontem e hoje!
Jul- 2026
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