domingo, 2 de agosto de 2026

Uns braços

não quero complexidades
muito menos poemas herméticos
quero a liberdade
cravada em pedra simples
sequer quero diamantes lapidados
se me desfaço em rocha
de minerais habitado

nem quero ruminar antigas mágoas
se me desaguo em rios
e sou feito de águas
enfrentando estios

sou mais longo abraço
inteiramente afeto
daquela a quem me entrego
a quem não nego o laço
do mais fundo sentimento

e fica dentro destes braços
o meu quilombo
é lá que renasço
que me faço e me desfaço
regenero-me de todos os tombos
desembaraço
encontro minhas raízes
e sou angola nigéria congo sou banto
apesar das cicatrizes

                 Fev- 2024

Mendigo Pedro

cediço ranço estorva a cidade
respira e traga gás carbônico
posto come o que não come
produto odioso 
da distinção do homem
enjeitado louco do manicômio
já não é mais homem
já não é mais homo
o inumano retrato da fome
obsceno ser dos esgotos
criatura abjeta das sarjetas
destino esfacelado
banido espectro pele e osso
privado até das gorjetas
é um fato é um feto
nem nasceu por ter nascido
evento trapo que andeja
o oposto mito de Narciso
que de tanto ver sem ser visto
agoniza todo desgosto
misto de homem e bicho
rejeita a efígie do próprio rosto

        Fev. 2021

Sonhos desfeitos

andando por estas ruas, transito-me.
as casas há tempos estão mudas
e há um eco de silêncio nos portões
os mortos sob o asfalto
não ousam manifesto

costuro a boca com os dentes
farto de tantas máscaras de obrigações 
e condenados sem justiça
no torpe tribunal dos enjeitados

não há julgamento justo
não há júri isento
pra essa gente de cor escura
com a guilhotina da vida dura
a um fio da jugular

de repente afaga-me uma flor
afogo no ensaio 
um anseio de fé satisfeita
não há prazer que apague a mágoa
dos sonhos desfeitos 

já não quero nada
diante dos gozos urbanos
da tragédia planejada
dos arquitetos do caos e suas plantas
com nódoas de sangue

sorrir já não quero

enroscado, o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.

                 Jan-2024

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não há vaga

a universidade é pública
mas atende aos filhos 
da alta classe
de pública torna-se privada
e para o filho
do pobre não há vaga

o diagnóstico é triste
a subsistência 
a possível
o sentido fragilizado da vida
o osso do banquete 
no prato
a liberdade abolida
e do que se precisa nem resto

a conta que nunca fecha
o ministério 
da estatística adverte
a balança
não pende, (de)pende
poder perpétuo, justiça
a exata medida entre a vastidão
e o corpo inerte

as faces estranhas
da mesma moeda
a posse usurpada da terra
um oceano
de negras angústias
o desfalque,
a apropriação indébita
a cínica farsa do mérito

em vez de se extinguir
o abismo, aprofunda-se
o burguês
regala-se sempre
abastado
e mais falta a quem não tem nome
o feto indigente, coitado
já nasce com fome

a história restaurada
quanto maior a exposição dos fatos
mais a litania é constatada
a universidade é pública
mas para o filho
do pobre 
NÃO HÁ VAGA!

       Jun- 2020


domingo, 26 de julho de 2026

            




                           PALAVRA PRETA














Evan Crespo




Evan Crespo é o pseudônimo de Evanilson Silva de Almeida, 
nascido a 21 de fevereiro de 1973, na cidade
de São Paulo, onde vive. 

Contato: evasa2@hotmail.com



Este livro é dedicado à minha mãe Marlene
Oliveira da Silva, a minhas irmãs Evanilda,
Elízia Raquel, Tamires Silva 
e meu irmão Evandro.

                                             2026

DO ENGAJAMENTO

Mãe negra

                                 à minha mãe

quanto de dor pisa a avenida
sem adereço 
eterno recomeço deste enredo sem palavras
o emprego do seu afeto
entre o prazer reprimido e o encargo

nenhuma poesia
nesta alegria sem sorriso
doada
neste abraço que protege indefeso
sem qualquer interesse
do desapego

o tempo não cede 
ao argumento que alegam teus olhos
que propõe teu desejo
somos cinzas sem direitos
e dissipamos 
sopro

mãe 

gestasse o homem não seria tanto
na dor e no pranto
do ser que desentranha

parisse o homem não seria tudo
no fruto que fere feto e já fato
esta voz que ecoa 
fora do útero

mãe negra é a mãe branca
com os encargos da cor

        Agos- 2021

Negra Carmelinda, minha avó.

                                      in memoriam

pude ver a minha avó
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão

pude ganhar um afago
raro afago posto que dura a luta
de suas trêmulas mãos 
anciãs
mãos de quem foi escrava na vida
mesmo muito depois 
da abolição

a canga sobre os ombros
fez dela uma velha de corpo curvo
os olhos enevoados
refletiam a tragetória madrasta dos passos
e a pouca fé no homem 
que governa

negra analfabeta e muda
eram discretas as suas estórias de vó
a favela era o seu quilombo
e a maior agressão

sua pele era negra
a pouca liberdade era negra
a vida era negra

                     Jul- 2025

13 de maio

13 de maio,
rio sem leito desaguando n'abismo.
13 de maio,
braço de arroio seguindo para o breu.
do ajuste malacabado 
da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
apaziguando a culpa 
da cabeça pesada do império.
atando ao passo do escravo a bola de ferro
da própria sorte.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos confinados,
escravos do vento contrário,
13 de maio.

                                  Set- 2025

Nada diferente no mundo dos iguais

falta pão na mesa do pobre
e a notícia não comove os que mordem
degustando gostoso o repasto nos finos pratos
dos apartamentos de luxo
sob o lusco-fusco de mais um dia que cai
e quando um governante qualquer
anuncia verba pra educação
a deseducada elite que se farta vocifera
contra o custo brasil
que nada custa à sua vida de misérias
pimenta não deixou de ser refresco
nos olhos do povo

                              Jul- 2026

Homem negro

não se ama além da própria utopia
pedaços de um homem, 
                          partes inteiras de mágoa,
o coração rubro de um homem negro.

o estio vence os braços, vence a boca,
vence o pênis
               -imenso de solidão-

enquanto os olhos têm os olhos
                          esquecidos noutros olhos.

eu quero a centelha no feno
                 muito além do fla flu casual
     sem ausência ou apatia
eu quero a ousadia profana de um corpo
                      imperfeito
difusa qual artérias nas grades do peito.

hediondas paredes de pedra
                à minha volta                                 
                   -mais um emparedado destino-
o amor deflagrado 
       que não violenta.
mas não brincarei no carnaval sem passista
da avenida do tempo,
                a vida escorrendo em suores.

       eu quero mais que o amor alheio,
amor que morde e assopra
               -tirano e frio-
eu quero o amor que volta,
    a felicidade de uma boca, 
                 de uma buceta, de uns seios.

                     14.02.2021       

Negro existe

quando se pesquisa se encontra
pesquisaram a miséria e encontraram miséria
no ventre inchado dos subúrbios
pesquisaram a fome e encontraram fome 
no bucho cheio da miséria
pesquisaram o analfabetismo e encontraram analfabeto
no seio farto da miséria e da fome
poeta negro só sabia de Cruz e Souza e Machado de Assis
tudo que aprendi na escola
andei pesquisando e descobri que preto escreve
quero dizer que fiquei aliviado e triste
pois fui e ainda estou tomando pé da extensão 
do problema
com o histórico de açoites a manchar
biografias
escrever é ato de bravura
a regra ainda é 
encolher-se

                                Out- 2025

Sou negro banto

sou negro banto
isto é convicção entranhada
negro soul e negro banto
apesar das nefastas misturas
misturas impostas pela força
(foram os abutres)
não sou senzala
não somos todos de cor
não vi carro de boi ou moenda
não dancei em roda de jongo
não frequentei terreiros
sou eu mais pobre
mas menos negro não sou
sei das minhas origens
minha língua é o pretoguês
não falo a língua pura dos outros
sou brasileiro negro soul
trago impregnado costumes 
de povos estranhos
mas negro banto sou
não nego a minha cor e origem
negro d'áfrica sou
tenho sangue ruim nas veias
mas sou negro d'áfrica
negro banto soul

                      Jul- 2026

Quadro negro

      o estudante negro
                      e todos os anseios                      
                                  de universidade
        o estudante negro
e a restrita comarca 
                   das possibilidades
                              o estudante negro
               e a pesada carga 
do morar periférico
                o estudante negro
                      e os graves entraves
                                     sociais 
                e mais a história
de senzalas escravos
e flagelos
         o estudante negro
                    sentindo ainda mais 
   fundo o duro golpe
               dos punhos de aço
                     RACISMO

                     Set- 2025