segunda-feira, 17 de agosto de 2026

            




                           PALAVRAS À MARGEM
                                             Poemas













Evan Crespo













                                        PALAVRAS À MARGEM
                                                          Poemas














Evan Crespo é o pseudônimo de Evanilson Silva de Almeida, 
nascido a 21 de fevereiro de 1973, na cidade
de São Paulo, onde vive. 

Contato: evasa2@hotmail.com



Este livro é dedicado a minha mãe Marlene
Oliveira da Silva, minhas irmãs Evanilda,
Elízia Raquel, Tamires Silva 
e meu irmão Evandro.

                                             2026
                                      Sumário

REFLEXÕES E VIVÊNCIAS

Palavras à margem
Cabeleira afro
Laço que não desata
Sou negro banto
Pedinte no centro da cidade
O capitalista
Fragmentos de uma dor

IN MEMORIAM

Dona Nenê
Pedaços da fome
Poeta Oliveira

REFLEXÕES E VIVÊNCIAS

Palavras à margem

andando por estas ruas 
observo sujeiras hereditárias:
entre um susto e outro 
múltiplos entraves,
vidas crespas às margens despejadas,
ecos de agonias ancestrais.
e o peito aperta...

travo nos dentes o vômito
enojado de engolir 
a aridez desta paisagem, 
dos tantos sapos e cercos, 
tanto encolher-se.

não há espaço justo
ou vida plena
sob mãos de aço que segregam
empregadas à jugular.

já não quero nada
diante dos prazeres urbanos,
das intenções dos engenheiros da dor
e seus orgasmos deliberados
de poeira e pedras.
sorrir já não quero!...

enroscado, 
o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.

                 Jan-2024

Cabeleira afro

a sua cabeleira afro,
exibida em livre elegância,
é a força que atesta e traduz 
a sua negritude íntegra,
corte de exclusiva sedução
do puro orgulho 
carapinha...
desfila negra, desfila,
o rico teor da sua beleza,
traz suavidade às ruas ásperas
da São Paulo degradada,
e de caráter racista!
mostra a toda essa gente
o valor da crespa natureza,
em fios de verdade —
insubordinada.

                    Jul-2026

domingo, 16 de agosto de 2026

Laço que não desata

amar você é o delito 
que cometo sem culpa diariamente,
e sou autor satisfeito no tribunal desta sorte
que nos obriga a viver o outro,
e submete a uma dor que não machuca,
apenas desenha signos.

os seus vestígios de mulher
espalhados na história deste corpo negro,
são bens que você não quis guardar,
ou doar a qualquer um,
essa generosidade eu jamais
esquecerei.

entregue a essas delícias
nego alvará de soltura, a boa liberdade 
deixo para os fracos,
que não souberam doma-la.
e quanto mais sinto o hálito do seu sexo
nestas narinas largas,

tanto mais é bruta a força que faço
de não ceder assim fácil à sedução de outros olhos
em qualquer rua, ou transporte público.

     Mar- 2021

sábado, 15 de agosto de 2026

Sou negro banto

sou negro banto
isso é convicção entranhada
negro soul e negro banto
apesar das misturas nefastas
impostas à força de armas
(foram os abutres)
não sou senzala
não somos todos de cor
não vi carro de boi ou moenda
não dancei em roda de jongo
não frequentei terreiros
sou eu mais pobre
mas menos negro não sou
não nego as minhas origens
meu idioma é o pretuguês
não falo a língua do invasor
negro afro-brasileiro soul
trago impregnado costumes 
de povos estranhos
mas negro banto sou
negro d'África 
tenho sangue ruim nas veias
mas sou negro d'África
negro banto soul

                      Jul- 2026

Pedinte no centro da cidade

               40 graus, entardecer abrasador,
       na estufa da rua não tem o ar dos escritórios.
o asfalto invade-lhe a face, penetra-lhe a pele;
              não há distinção.
ele não tem canto onde chegar e restaurar o viço,
                              trancar os olhos, ignorar o mundo,
num sono que o resgate, trégua amiga.
fome não sabe o que é, quer um cigarro,
             enseja uma marquise
para largar a carne dum inchaço de decomposição:
defunto que ambula a morte nos calcanhares.
a vida à míngua e seus pertences de pano roto, 
                               a roupa do corpo. 
      distâncias estampadas na rigidez do rosto.
               mais nada.


                                                                        São Paulo, Out-2025

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O capitalista

                       o capitalista
dispõe da máquina 
e do capital,
                 voz potente que ecoa, 
ele elege, governa e legisla, 
         nítido retrato
    do poder absoluto.

confina o gado, respira posse,
pratica o lucro, 
          acumula e multiplica,
sapateia nas víceras do trabalhador,
desdobra a própria miséria 
         em patrimônio.

                     desfigura
de cifra o sabor da vida,
          o seu âmago exala moeda,
impregnando de aridez 
as relações humanas, 
                     e tudo é universo 
de estrelas apagadas.

ainda dorme, ad aeternum,
sobre as plumas dessa queda.

                          Agos-2026

Fragmentos de uma dor

ontem e hoje 
o fragor do ferro doendo
ventos de açoite e grades
a fome das elites legando
guetos de queda e cravos
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas 
através dos séculos 

abuso à tenra idade
nos amplos casarões do café
o éden agora são borros
diante das pupilas serenas
de uns olhos sem culpa
as negras de leite secas
e o fruir dos desmamados
tragando noites europeias

os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele verga o corpo 
ontem e hoje

                        Jul- 2026

IN MEMORIAM

Dona Nenê

                               a Carmelinda Dias, minha avó.

trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo arco,
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.

trago vivo ainda, o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
esgotadas de abolições.

os olhos enxergavam sob névoa densa
um aglomerado áspero de barracos,
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.

preta que sofria a garatuja do próprio nome,
trazia magras as suas estórias de vó:
retalhos de vivências antigas,
escavados da fumaça.

de utopia acuada por imensas pedras,
a Vida era negra.

                     Jul- 2025

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Pedaços da fome

                   à escritora Carolina Maria de Jesus 

a vida agora é de alvenaria,
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio, 
o trabalho e a solidão.
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto esse gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome? 
despejada de cada quarto, 
de todo canto, preterida da vida. 
zela da veste grã-fina, 
desdobra-se a cuidar deste chão, 
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!

           Maio- 2020