quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Pedaços da fome

                   à Carolina Maria de Jesus in memoriam

a vida agora é de alvenaria,
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio, 
o trabalho e a solidão.
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto este gado,
ou nos finos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome? 
despejada de cada quarto, 
de todo canto, preterida da vida. 
zela da veste grã-fina, 
desdobra-se a cuidar deste chão, 
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!

           Maio- 2020

Poeta Oliveira

                             a Oliveira Silveira in memoriam

pois é, 
poeta de Touro-Passo,
universal, rabisco no solo brasileiro rebentando em arte.
a notícia do seu trabalho chegou ao Brasil
profundo, fertilizou a terra estéril, 
e as sementes de potência que você desentranhou 
(Palmares e outros poemas), germinaram
uma conciência. a mensagem
está trasmitida, 
valeu a inspiração e transpiração 
dos muitos anos, trago a peso de ouro 
cada vírgula pensada,
e os caminhos que você trilhou, desbravando
a floresta imensa, já consigo enxergar. 
e quem sabe um dia, 
ao sabor da vontade de Oxalá, 
em algum tempo, 
eu também consiga trilhar. legítima
conciência negra, escrita 
afro-brasileira.


e vou deixando por estas linhas,
ao sabor da vontade de Oxalá,
tudo que aprendi das suas palavras


poeta negro misto 
de cor mista afro singular
da terra de Rosário do Sul, Touro-Passos,
na Serra do Caverá.
rascunha ao pé da folha,
a forte punho negro rebusca a língua,
desdobra o verso
Ecos de tambor, Poema.
cantou de Palmares 
à cultura popular,
dos trabalhadores aos orixás.
e no banzo da gente negra também foi África.
o mundo está na extensão de sua obra
legítima consciência negra.
poeta negro misto,
rabisco no solo brasileiro
rebentando em arte, vistoso baobá.
menssageiro Exu Bará.
quem dera fosse meu este estro Poeta.
tramando a sua próxima
nos braços de Oxalá.

                            Jul- 2025

ENCERRA AQUI O LIVRO PALAVRAS À MARGEM

sábado, 8 de agosto de 2026

Vó Carmelinda

trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo arco,
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.

trago vivo ainda o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
esgotadas de abolições.

os olhos enxergavam sob névoa densa
um aglomerado áspero de barracos,
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.

preta que sofria a garatuja do próprio nome,
trazia magras as suas estórias de vó:
retalhos de vivências antigas
escavados da fumaça.

de utopia acuada por imensas pedras,
a Vida era negra.

                     Jul- 2025

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Fragmentos de uma dor

ontem e hoje 
o fragor do ferro doendo
ventos de entraves e medo
a fome das elites legando
guetos de quedas e cravos
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas 
através dos séculos 

abuso à tenra idade
nos amplos casarões do café
o éden agora são borros
diante das pupilas serenas
de uns olhos sem culpa
as negras secas de tão sugadas
e o fruir dos filhos nutridos 
tragando noites europeias

os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele enverga o corpo 
ontem e hoje

                        Jul- 2026

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

HAICAIS

pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que 
ele acho(u)?


o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima 
do peixe?


eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se 
equilibra.


espicha-se toda
a lagartixa, e devora a 
barata viva.


o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será 
banquete de verme!


digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade


costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental


não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência


inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo


"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é 
o boi no prato?...


haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.


digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!


castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come


abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?


diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.


desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te


quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu


conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?


ENIGMA

sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes 
sem deitar?


A GALINHA

no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem, 
dormiu.


INVERNO

bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.


PRIMAVERA

brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!


AMOR MENINO

hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.


MANHÃ

vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!


DEPOIS DA CHUVA

flutua deslumbrante 
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.


FLORES DE ABRIL

finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...



                  2011- 2012- 2013- 2018- 2019

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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

As primeiras pedras do meu acervo

grafei seu nome a canivete
(daques que os pivetes usavam 
pra enquadrar), no tronco de uma árvore antiga, 
que a prefeitura, há pouco, veio remover.
entre uma brincadeira de subúrbio e outra,
que o tempo fez desaparecer,
briguei com todos os argumentos que tinha,
para experimentar sua boca virgem:
xavecos truncados, missivas ininteligíveis,
e até versos, extraídos da imensa noite.
depois de juntar tantas pedras, 
fui desbravar a cidade cinza,
e tudo se perdeu sem um desfecho 
nos atropelos dos dias.
hoje, compreendo bem, a lógica da sua agonia. 
prazeres à parte: unir uma miséria à outra 
não é bom negócio, definitivamente.


      Mar- 2021

No silêncio dos dias

o açoite da artilharia do tempo
contra as sólidas muralhas deste amor
tenta o sequestro 
do que existe frágil na pedra
a muda apatia
na tragetória fria da queda
luz que estilhaça esplendor e treva

a força da pedra que dura
está naquele sopro efêmero de ternura
no âmago
da própria substância
e sob a fustiga do vento no tempo
esgarçado de uma dor

o alarde da gente
oculto no silêncio dos dias

     Mar- 2021

O que é do negro

o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado por cruel afronta
à vida vunerável mesmo antes de concebido
                    a prostrar qualquer homem
                    no âmago ferido
                    
o que é do negro
rendido à força de um tiro letal
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
                    atirado à terra seca da indigência
                    sem porvir que prospere

o que é do negro
implicado desde sempre a todo tipo de situação tóxica
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
                     ao arsenal de ultrajes da raça oposta 
                     sem misericórdia ou pudor

o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro

a flor que brota na pedra
não acessa nutrientes que a fortaleça
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
                      lutando por um escape que 
                      o liberte desta teia de apagamento

                     Jul- 2025

Fragmentos de uma dor

ponta de faca do feitor
captura na tocaia cepos grilhões pelourinho
e a condição bestial dos amputados
estigmas da desonra máscaras de ferro
a queda brusca
nos logradouros da imundice

e o sinhô de abastado capital
assegurando sua casta

tenra negra currada
mucama canga e fogão abusos da casa-grande
colônia sujeira subjugo fome 
jovens escravos de velhas faces 
eito lavra banzo de preto velho na enxada
amas negras de leite secas
de tão sugadas 

e nhôzinho nutrido a fartar-se
de regalo no exterior

nos insalubres espaços
a bruta geografia dos descartados
uma dor em cada rosto que sobe e desce
os degraus pedrosos da pouca sorte
e neste avesso tecido 
o histórico contraste:

a riqueza é toda branca
e negra a tragédia da indigência.

                     Jul- 2025

domingo, 2 de agosto de 2026

Um dia sem nenhuma esperança

andando por estas ruas 
observo sujeiras hereditárias:
entre um susto e outro 
múltiplos entraves,
vidas crespas às margens despejadas,
ecos de agonias ancestrais.
e o peito aperta...

travo nos dentes o vômito
enojado de engolir 
a aridez desta paisagem, 
dos tantos sapos e cercos, 
tanto encolher-se.

não há espaço justo
ou vida plena
sob mãos de aço que segregam
empregadas à jugular.

já não quero nada
diante dos prazeres urbanos,
das intenções dos engenheiros da dor
e seus orgasmos deliberados
de poeira e pedras.
sorrir já não quero!...

enroscado, 
o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.

                 Jan-2024

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não há vaga

a universidade é pública
mas atende aos filhos 
da alta classe
de pública torna-se privada
e para o filho
do pobre não há vaga

o diagnóstico é triste
a subsistência 
a possível
o sentido fragilizado da vida
o osso do banquete 
no prato
a liberdade abolida
e do que se precisa nem resto

a conta que nunca fecha
o ministério 
da estatística adverte
a balança
não pende, (de)pende
poder perpétuo, justiça
a exata medida entre a vastidão
e o corpo inerte

as faces estranhas
da mesma moeda
a posse usurpada da terra
um oceano
de negras angústias
o desfalque,
a apropriação indébita
a cínica farsa do mérito

em vez de se extinguir
o abismo, aprofunda-se
o burguês
regala-se sempre
abastado
e mais falta a quem não tem nome
o feto indigente, coitado
já nasce com fome

a história restaurada
quanto maior a exposição dos fatos
mais a litania é constatada
a universidade é pública
mas para o filho
do pobre 
NÃO HÁ VAGA!

       Jun- 2020


domingo, 26 de julho de 2026

            




                           PALAVRA PRETA
                                   poemas













Evan Crespo




Evan Crespo é o pseudônimo de Evanilson Silva de Almeida, 
nascido a 21 de fevereiro de 1973, na cidade
de São Paulo, onde vive. 

Contato: evasa2@hotmail.com



Este livro é dedicado à minha mãe Marlene
Oliveira da Silva, a minhas irmãs Evanilda,
Elízia Raquel, Tamires Silva 
e meu irmão Evandro.

                                             2026