segunda-feira, 22 de junho de 2026

A máquina e o capital

o capitalista
de posse da máquina e capital
pisando pisando
nas víceras do operário
que já não come
mas trabalha
que já não consome
só rala e produz
e esfacela-se
o resultado para esta equação
é a conta bancária 
mais gorda
do senhor de hoje
e sua linhagem de herdeiros
e sinhôzinhos
e o trabalhador
junto com os seus
que nada possuem
ou herdam
além da miséria extrema
cada vez mais vulneráveis e frágeis
cada vez mais pobres
mais escravos
deste sistema de barões
afortunados.

                      Jun- 2026

Os dois lados da moeda

de toda a produção 
(fruto da mão-de-obra barata
dos cidadãos das classes
mais baixas)
deste país das oportunidades seletivas
o orgânico e mais sofisticado
está para elite 
como o modesto e estéril
está para 
o trabalhador
subsistindo pelas víceras
com a mais abnegada
apatia

                            Jun- 2026

domingo, 21 de junho de 2026

Breves anotações sociológicas

o capitalista 
e seus intocáveis 
haveres em perspectiva
meios de produção 
conforto 
e mais-valia
aplicações financeiras
mais acesso ao que de melhor 
oferece o mundo
do capital
o trabalhador 
e seus fulgazes teres
de sombra
mão-de-obra precária
que com a renda 
per cápita
do árduo trabalho
de milhões 
subsiste-se às bagatelas
e nesse obseno 
enredo 
o negro fio mais frágil
sustenta a base
desta pirâmide tortuosa
de absurdos

                         Jun- 2026

Homem não chora

"homem não chora menino"
diz os costumes arcáicos da sociedade
mas como eu choro meu deus
choro pela miséria de minha gente da diáspora
choro pelos irmãos soterrados nas tragédias das encostas dos morros
pelas assoladas terras d'áfrica mãe
pela fome nas calçadas
do centro da cidade degradada
inclusive choro pelos beijos não dados
pelos cabelos que não pude
ter entre os dedos nas noites solitárias
e pelo encanto de um amor que não pude viver
choro porque sou negro 
e negro escolhe pouco
conquista pouco pode pouco nesta vida
mas como quaquer ser humano 
ama como louco

                          Jun- 2026

Alforria

poeta embebido nas trevas de todas as noites
e todos os dias miseravelmente tediosos
perambulo catando motivos para uns versos na atmosfera dura 
da infeliz metrópole e seus grafites e pixações de artistas anônimos
seus mendigos pivetes e logradores desolados de urina e fel
mais contradições viadutos favelas e tragédias
uma áfrica colonizada e espoliada na história do corpo
faço poemas como quem faz revoluções
a utopia rasgando as artérias do peito
palavras e metáforas como únicas armas ao alcance
da minha tardia e ofuscada liberdade

                                    Jun- 2026

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Na história do corpo

no auge do maior encanto
abobado cometi desatinos à luz do dia e em público
garatujei cartas de amor ridículas
e no torpor do afeto mais puro
delirei pelas ruas falando comigo mesmo
e até esqueci das obrigações para largar-me
nos teus braços longas tardes
e sob os mais apaixonados beijos de amor
tudo ficou tão sério que hoje ouso dizer
estava tudo tão além das minhas forças
estes foram os primeiros e derradeiros tempos de um amor
que não posso esquecer
embora nossos braços perderam-se noutros braços
nossas bocas noutras bocas
e as palavras e os gestos e os anseios
os planos mudaram a direção
e como já eternizei noutros versos que evoquei este amor
é perpétuo o seu lugar junto a mim
ainda que caminhando assim pela cidade tão outra
com quatrocentas misérias no peito
mais mil amores na história do corpo já gasto
uns pobres versos pelos bolsos 
e a solitude como herança da miséria que fui.

                                  Jun- 2026

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Noite

beber lentamente desta noite
como se bebe vinho de boa safra
e esquecer-se dos açoites
que a sociedade dos homens bárbaros
não se esquece
de fustigar em lombo de preto
ler desta noite
com o mesmo atento cuidado 
que se lê um poema 
de joão da cruz e souza
e esquecer-se do pão de todo dia
que não se defende com versos tecidos
na clandestinidade e ostracismo
e no escorrer destas horas ermas
que a lua embrenhada na treva
também se encanta
com a constelação de estrelas impecáveis
na imponência de suas luzes
degustar deste amor
ausente a rasga-me o peito
cansado de solidão
e ela dormindo noutro canto da cidade
indiferente à minha dor
de poeta apaixonado
                                     e miserável

                         Jun- 2026

Por dizer

falar de amor meu bem
é um despropósito pra mim
enquanto ainda tem gente com fome 
pra citar Solano
e jovem sofrendo assassinato 
nas periferias
e gente analfabetizada
mas hoje quero
fazer um pouco de escândalo
e dizer do por dizer entre a gente
da primeira vez que
tive a certeza que a queria junto
que nossos quereres 
se alinharam
e nossos passos tomaram
o mesmo destino
e tudo o mais que fomos nós nesta vida
você não saiu de mim
embora nos afastamos
a ponto de mudar 
a regra da minha arte
de fazer-me cometer versos de amor
mas preciso ser justo
e ajustar o que ficou negligênciado
eu preciso dizer que o amor não morreu
com a separação
que o seu lugar no meu peito
é perpétuo.

                       Jun- 2026

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Reflexões estrangeiras 2

a perifa é um pingo no i na gramática
do Mário, do Oswald
                  e de todos os negros
iletrados desta pátria
de párias.

                            Jan- 2026

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Reflexões estrangeiras

e os marxistas de São Paulo
discutindo com profundidade abissal
até a bosta da formiga
albina.

nada paira alheio ao poeta
obstinado e só, na sociedade
dormindo.

apenas o derradeiro
sobrevoo do abutre solitário
e egoísta.

de tanto céu para usufruto 
e covarde tecendo
assovio. 
                    tarde

                Jan- 2026

domingo, 4 de janeiro de 2026

haikai trágico

a tragédia a tragédia a tragéd
calada no denso ar em forma de mendigo
tarde escandalizada

                   Jan- 2026

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Rolê

os mendigos assassinos
pisando em baratas
no centro da São Paulo
escaldante

                      Dez- 2025

domingo, 14 de dezembro de 2025

Escombros periféricos sob um céu puro

o dia do azul mais belo
a fresca alva da manhã repleta de orvalho
e a fotografia mais triste da terra
dos homens pretos
um brasil de restos de lonas rasgadas
servindo de abrigo aos seres
mais carentes entre
os humanos.
aqueles que chamamos despudoradamente
como a nudez de uma virgem
em praça pública:
favelado.

                              Dez- 2025

O poema e seu legado de sombra

eram dois por dois toda a sua posse
o restrito espaço onde depositou toda a sua ilusão
poeta negro homem sem pertences
já não importava
estava a um passo de legar
alarido de sombra.

                         Dez- 2025

Poetas do crepúsculo

vestígios do tempo na tessitura
das trevas de uma rua sob o domínio do silêncio
menos que rua, beco escuro
viela deflagrada
de pequenas tragédias de seres irrelevantes.
um pássaro a rasgar a noite violada
de uma criança dormindo
sob os escombros da miséria
corroendo. a destroçar o peito inocente
sangue e lágrimas
crime perfeito, alguns otários
catando conchinhas
na guanabara.

                     Dez- 2025