quarta-feira, 5 de agosto de 2026

pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que 
ele acho(u)?


o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima 
do peixe?


eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se 
equilibra.


espicha-se toda
a lagartixa, e devora a 
barata viva.


o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será 
banquete de verme!


digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade


costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental


não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência


inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo


"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é 
o boi no prato?...


haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.


digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!


castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come


abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?


diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.


desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te


quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu


conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?


ENIGMA

sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes 
sem deitar?


A GALINHA

no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem, 
dormiu.


INVERNO

bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.


PRIMAVERA

brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!


AMOR MENINO

hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.


MANHÃ

vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!


DEPOIS DA CHUVA

flutua deslumbrante 
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.


FLORES DE ABRIL

finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...



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