domingo, 7 de setembro de 2025

Eu tenho uma história

não a quero nesta noite
turbulenta de sirenes tempestade e caos
na cidade sitiada de pássaros e escuridão
não quero a farsa de mares
nunca antes navegados
quero a verdade dura dos nativos da terra
quero conhecer teus abismos
das janelas de teus olhos
e abrir-te os portões deste corpo quilombo 
para servir meus segredos
num banquete de boas-vindas
você não merece
a superfície falsa de terras inesploradas
tenho na biblioteca da pele
pinturas rupestres
que remontam a tempos de descobertas
para um mergulho fundo
na história represada
do latifúndio do meu ser amadurecido
ostentando pedras das tantas ruas
na memória dos sapatos.

                        Set- 2025

Desejo

não, eu não te quero perto,
de segunda à segunda por todos os anos
que me restam de vida,
à meia distância dos meus humores carnais.
percebendo meus dilemas íntimos
numa sacada de olhar.
eu te quero dentro,
feito a estrutura esquelética
que minha carne penetra pelos poros
numa complexa engenharia.
não quero simplificar.
falando assim talvez entendas
que esta distância de quilômetros
de asfalto e céus
esgota o ânimo de meu corpo guardado 
para desfrute dos teus sentidos.

                   Set- 2025

Livro sagrado

não pude ler este livro na íntegra
instigante livro inacabado
por uma noite passei meus olhos por suas páginas
noite especialmente saborosa
deixei-lhe nalgum canto que não encontro
talvez seja sua nudez secretamente indevassável 
por olhos com urgência de iletrado
por timidez congênita talvez
refiro-me a um livro corpo mulher
fechado em sagrados rituais de terreiro

                  Set- 2025

Fagulha

entre o dever e o fogo
de nosso encontro
perdemo-nos no remoinho de gentes
e a fria carnadura da cidade
fomos mais as regras das obrigações diárias
a nos ditar o ritmo da vida
e a chama ardendo cedeu prematura
mas sob as cinzas
restou a fagulha que quando menos 
se espera havendo lenha 
em fogo se torna
e nosso encontro incendeia
e passamos a viver 
um no peito do outro
perpetuamente

                   Set- 2025

sábado, 6 de setembro de 2025

Velhas crenças

segundo todos os indícios
não houve libertação
apenas uma farsa mal acabada 
de abolição.

que atrela o negro
à penúria de possuir a pele negra.
de atar o indivíduo à mesma 
danosa sorte.

que faz de gente besta
a chafurdar migalhas de existência
em mofados currais ungidos
de velhas crenças.

                    Set- 2025

Rapsódia rap

de parto negro
                    em parto negro
testemunhei muito corpo negro 
-em peripécias periféricas-
                           partir num rabecão.

aí me dizem:
olho por olho e acabaremos
             todos cegos!

mas quando olho 
as estatísticas
e perscruto vivências pra estes lados
onde é que a faca fere 
                     muito mais fundo 
a serrar as pálpebras?

as mesmas pálpebras
                          de histórias
e tonalidades idênticas
das mesmas balas assassinas
às mesmas sinas.

                      Set- 2025

Escravatura

alforria consegui nos tribunais
em tardes de tensas deliberações
protestos e discussões
mas de liberdade
gozei apenas no ventre de mãe África
de onde fui capturado e trazido
e por arrobas vendido
e jogado em frias senzalas
nas terras de homens sórdidos
com sede de ouro e posses

                        Set- 2025

Histórias de terreiro

no couro do tambor 
sons d'África a descontruir estigmas
que vem trazendo de longe a raça
plantados à traição na pele
pra disfarçar enganos
vieram contar histórias de abolição
mas não desceu a farsa
goela abaixo
porque tambores d'África de livres sons 
de trovão 
batuque em couro forte
desenham em noites de terreiro
a verdadeira história
de meu povo
e as digitais no couro
gritam liberdade

                   Set- 2025

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

As angústias de um negro

as angústias de um negro
são os fantasmas de um tempo cruento
ainda vivo na memória do corpo
tempo de ferros e ferrugens

as angústias de um negro
são os estigmas de vergonha nos guetos da pele
cicatrizes do parto das sujas violações
marcas da falência nossa

as angústias de um negro
é abraçar o dia a dia naturalizado nas sombras
tranzido com a farsa a sugar-lhe o sangue
a fazer-lhe natureza morta

gingando a sorte a escapar por um fio

                           Set- 2025

Porque hei de lutar

porque hei de lutar
mesmo usados muídos pilados vendidos trocados
como diz o bonito jongo
porque hei de lutar
mesmo depois de bombardeado no íntimo
pelo ocidente sem qualquer pudor
porque hei de lutar
mesmo depois do ensino fajuto
do alimento mirrado da condição de subempregado
da liberdade vigiada
da maturidade tardia do amor à míngua
da cachaça engolida contra vontade
das pedras brutas na história de meus ombros
eu hei de lutar hei de lutar

                      Set- 2025

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Por conta e risco

não fui à universidade para além de constatar
meu lugar do lado externo de seus muros.
não cheguei, nas minhas andanças,
além das linhas de limite da placenta a muito apodrecida.
prova cabal que fui concebido,
gestado e parido, mesmo que dum ventre negro.
este ventre que escapa a vis afrontas.
hoje resta-me o vulto a palmilhar os chãos da cidade,
por conta e risco de minha sorte esquálida.

                                     Set- 2025

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Porque sou negro

das senzalas às avenidas
viadutos e arranha-céus de sangue negro
forjou-se a cidade que hoje estranha-me.
e o próprio país, no seu porte
robusto, tem timbrado 
na sua história, sangue escravo.
e sequer me sinto
acolhido onde quer que eu vá dentro
da terra natal.
em cada pedra do chão onde piso
reconheço-me mendigando
uma paz que não encontro, onde eu possa
me alargar, e fazer parte
do entorno por onde me desloco,
onde eu possa sorver o ar
e livrar-me da canga pesada
a tolher-me o ser.
meu refúgio neste lugar onde me fiz,
nesta nação onde pensei
ser minha casa, é nas páginas de um livro, 
quando me encontro só
junto a meus dilemas, 
resolvendo minhas dores e alegrias, 
(poucas são as alegrias), 
nesta sociedade engatinhando.

                            Set- 2025

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Mais um dia

lanço-me à rua toda manhã
indagando, por que toda roupa que visto
não me cai bem?
é uma atenção da polícia
um puxar de bolsa pra frente
um subir os vidros dos carros
e um céu azul anuncia um dia democrático
não fossem as sombras
dos homens assombrando
os caminhos por onde entra e sai
minha boa fé no mundo.
não é capitalista minha fé, mas sigo a turba
mesmo discriminado, 
porque o pão está caro, e sobreviver
cobra seu preço.
e meu coração é uma pluma
que voa ao vento e plana e cai na grama
mesmo não encontrando
motivo pra tanta leveza
neste ar carregado
da metrópole.

                           Set- 2025

Meus sapatos

meus sapatos já envergados
pelos cantos de tantas pedras e chãos
arrastando o peso das minhas angústias
trazem no seu mutismo
notícias deste teatro de bonecos
que de norte a sul
arvoram-se a devastar
profundamente cada alma que tem um sonho
com sua artilharia de guerra
aposta para o genocídio
dos condenados desta terra
olho com olhos de tristeza esta comédia bufa
que leio no seu couro exausto
e já desenganado adormeço as mágoas
sob as palpebras cansadas

                                  Set- 2025

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Boas-vindas a um negro

havia gritado a plenos pulmões
milhões de vezes liberdade
e como no poema
não parei de gritar não parei
também evoquei Zumbi para guardar
as entradas de meu corpo frágil
mas escutava apenas
minha própria voz num eco
e de chapéu no chão
corpo prostrado sobre um sangue coagulado
sangue dos ausentes da guerra
desesperava-me
quando do outro lado da rua
uma cruz em chamas aterrorizava
num descampado
nos galhos fortes da única arvore
uma forca jazia em silêncio
pensei estar sob efeito dum sonho mau
mas não era sonho
era o vil cartão de boas-vindas
à sociedade "moderna".

                    Set- 2025