terça-feira, 22 de julho de 2025

Poeta Oliveira

                             a Oliveira Silveira em memória

poeta negro misto 
de cor mista afro singular
da terra de Rosário do Sul, Touro-Passos,
na Serra do Caverá.
rascunha ao pé da folha,
a forte punho negro rebusca a língua,
desdobra o verso, 
ecos de tambor, cantar.
cantou de Palmares 
à cultura popular,
dos trabalhadores aos orixás.
e no banzo da gente negra também foi África.
o mundo está na extensão de sua obra
legítima consciência negra.
poeta negro misto,
rabisco no solo brasileiro
rebentando em arte, vistoso baobá.
messageiro exu bará.
quem dera fosse meu este estro poeta.
tramando a sua próxima
nos braços
de Oxalá.

                            Jul- 2025

A história conta

o patrão 
e seu condomínio de luxo
à base do lucro com a mão de obra
operária
o trabalhador e seu barraco
na favela nos extremos
da cidade

averigue a história 
há 500 anos e não precisarei dizer
quem tem a pele branca
quem tem 
a pele negra

                         Jul- 2025

O coração

uma pedra é apenas uma pedra
de aspecto frio e superfície dura
restringe-se à inércia
de ser pedra

já o coração
pulsante no peito do homem
expande-se matéria viva 
e sentimento

e sob qualquer argumento
quando este se reverte em pedra
e de ódio se abastece
é apenas queda

que se abisma nas trevas
e desfortalece

                    Jul- 2025

Sentir

porque da flor
a gente tira a beleza das pétalas
e o cheiro que exalas
gratuitamente
e nenhuma antítese que lhe enfeie a natureza
mas do homem além da beleza física
e da arte que é capaz 
de produzir
encontra-se arraigado no seu ser
o racismo por exemplo
o ódio ao igual
que se distingue apenas
pela cor da pele

                           Jul- 2025

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Consciência

esta casa
o sangue e o tempo de meus pais
onde encontrei um teto
já armado
onde encontrei
fechados
os portões das universidades
não é senzala
não são porões dos negreiros
onde houveram crimes vis
mas aqui encontro
os ecos
das vozes ancestrais
e seus apelos
sambando nos holofotes
da consciência
emparedada

                          Jul- 2025

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Educação

a escola que eu vejo
é a do escárnio ao público
sevicia o professor
e afugenta
cedo o aluno 
no país da opulência
às elites 

                   Jul- 2025

Linha de frente

meu mocambo no quilombo
é mocambo simples
tem milho cozido farofa e peixe
tenho o corpo fechado
na umbanda
primeiro guerreiro de Ganga
pra matar e morrer
sou linha 
de frente na guerra
contra branco tirano
senhor 
de 
terra

                Jul- 2025

Negro escravo

por que eu tenho 
que arreganhar os dentes 
num sorriso
se sou negro de ganho 
de moenda
e arado?

              Jul- 2025

Negra Carmelinda, minha avó.

pude ver a minha avó
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão

pude ganhar um afago
raro afago posto que dura a luta
de suas trêmulas mãos 
anciãs
mãos de quem foi escrava na vida
mesmo muito depois 
da abolição

a canga sobre os ombros
fez dela uma velha de corpo curvo
os olhos enevoados
refletiam a tragetória madrasta dos passos
e a pouca fé no homem 
que governa

negra analfabeta e muda
eram discretas as suas estórias de vó
a favela era o seu quilombo
e a maior agressão

sua pele era negra
a pouca liberdade era negra
a vida era negra

                     Jul- 2025

terça-feira, 8 de julho de 2025

Leis impostas

ruas escuras do gueto
por onde passa dia após dia toda a minha
angústia
de onde saio pro mundo
e me vasto
mas sempre volto
preso às leis impostas à minha pele negra
porque em vez de pontes
encontro muros

                           Jul- 2025

Aguda discrepância: um sumário.

ponta de faca do feitor
captura na tocaia cepo pelourinho
trágica morte na forca
negro de ganho
cachaça roupa urinada boca cariada
lambida por cachorro de rua

e o senhor acumulando
pesada fortuna

negra mucama lavoura
roupa no rio lida pesada na casa grande
criança senzala adolescente
nos engenhos 
estupro banzo de velho na enxada
ama de leite engordando
rebento de sinhá

e o sinhozinho estudando
no exterior

favelas extremos confins
presídios homicídio analfabetismo indigência
desemprego mendicância
no heterogênio tecido 
social a mesma aguda discrepância
viajou no tempo:

a riqueza é toda branca
e toda negra a tragédia da miséria.

                     Jul- 2025

O que fez o negro

vai na direção dos guetos
o negreiro cinza dos poderosos da pátria
pegar negro no tapa ou no tiro
muitas vezes 
os seus iguais na cor 

o que fez o negro
pra merecer a canga o cepo
o antolho
os muros que lhe tolhem o acesso
aos espaços de poder

o que fez o negro
pra merecer a mordaça as algemas
a máscara de ferro
as grades que lhe estorvam o direito
às posições de destaque

fato que nem mesmo 
nos guetos
o negro tem a paz dos dias amenos
sempre em sobresalto amarga 
a mão pesada da tirania
sob a égide das leis

                        Jul- 2025

Há de ter coragem

há de ter coragem 
de palmilhar o chão do senhor de terras
e não se rebelar por parte 
do latifundio

há de ter coragem 
de não sujar as vestes no tronco 
dum pelourinho covarde
tomado de gente

há de ter coragem 
de não dobrar os joelhos carregando 
pedra imensa serra acima
sob sol a pino

há de ter coragem 
de não comer em louça fina 
o coração do senhor de sua gente
numa revolta escrava

                         Jul- 2025

segunda-feira, 7 de julho de 2025

O que é do negro

o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado
por mortal afronta
à vida indefesa na hora do parto
                    a prostrar qualquer homem
                    no âmago ferido
                    
o que é do negro
rendido à força de um tiro grosso
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
                    atirado à terra seca da indigência
                    sem porvir que prospere

o que é do negro
humilhado antes que conheça a guerra
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
                     ao poderio da artilharia da raça pura
                      sem miscigenado apelo

o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro

a flor que nasce na pedra
não encontra adubo que a dissemine
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
                      lutando por um escape
                      que o liberte destas algemas de dor

                     Jul- 2025

A cor do racismo

por que não me estarrece 
a cor que predomina
eurocêntrica cor enraizada
de sólidos alicerces entranhada
nos lugares de privilégio
em toda parte
por todo canto onde há destaque
onde há posição
um corpo branco pulsando vida
resguardado
escandalosamente inserido
na melhor das hipoteses
radicado no tecido que se quer justo 
que se quer isento
de qualquer mácula que o tisne
de qualquer nódoa
um corpo branco que colhe fortuna
bem-sucedido exitoso
florescente
sobre a sorte desfavorável
dum corpo negro

                    Jul- 2025