quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Cardu-me

busca-te a imprecisão amarga
de meu verso mulher
talvez atrás da noite que ficou perdida
nalgum tempo que fez-se brisa
talvez neste cardume 
de palavras que é o poema
talvez na imprecisa memória dum instante
e te encontre talvez num tempo
que não há
não pode haver
no fabuloso instante 
de um sonho

                        Set- 2025

terça-feira, 30 de setembro de 2025

13 de maio

13 de maio,
rio sem leito desaguando n'abismo.
13 de maio,
braço de arroio seguindo para o breu.
do ajuste malacabado 
da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
apaziguando a culpa 
da cabeça pesada do império.
atando ao passo do escravo a bola de ferro
da própria sorte.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos confinados,
escravos do vento contrário,
13 de maio.

                                  Set- 2025

Embriaguez

destilar no corpo o sabor 
                              de tua boca
produzindo a bebida que me entontece 
                             e embriaga
e no trançar de pernas 
deste amor
perder-me pelas ruas
                    do teu ser mulher.

                          Set- 2025

Os ratos

os ratos periféricos
           alimentam-se de nossos lixos
nossos esgotos nossos
                       restos
quando se tem descarte
         da sobra dos homens pobres
são seres esquálidos

os ratos dos bairros nobres
opulentos bichinhos saudáveis
alimentam-se
            de restos finos
                      da sobra dos abastados
nutrem-se mais que muitos
                  meninos

                      Set- 2025

sábado, 27 de setembro de 2025

Noite alta

o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável 
                       de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
                     o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
                       de nossa íntima 
                                              tempestade.

                        Set- 2025

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Cabeleira

ai ai ai, 
como sofre minha sobrinha
penteando a cabeleira de preta.
fosse ela eu deixava embaraçar e crescer.
mas é uma criança
bombardeada por costumes alheios à cultura de seu povo.
cabelo de preto não tem amizade com pente.
foi um branco quem inventou o pente
como quem inventou escravizar
castigar fisicamente e torturar
prender gente em ferro 
e senzala.

                         Set- 2025

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Uma lembrança

a baba do seu ódio não me afeta
já não podes mais me açoitar com rebenque
nem me agrilhoar no tronco
em logradouros
ou me trancar na senzala.
há uma fronteira que não podes mais atravessar
tendes embora respeitado muito pouco
os limites
entre o seu querer
e o poder.

                            Set- 2025

Senãos

vê-se pelas favelas afora
preto comendo preto pelas entranhas
depois de terem sido comidos
                                               por brancos
também pelas entranhas
por toda extensão da história.

o que deles poucos sabem

mas há um verdadeiro câncer
precisando ser extirpado do tecido social
- e não é o irmão de cor:
o câncer chamado racismo.

                      Set- 2025

domingo, 21 de setembro de 2025

O que os livros calam?

de repente este vento leste
infinitas vezes senti na pele seu furor soprando dos oceanos
trazendo notícias de velhos fatos incógnitos dos livros
soprando a dor latente de tantos séculos esquecida das nações
que dorme pousada na pele de uma raça
os olhos traspirando medo
o corpo muído de exaustão
nos ombros o peso da tragédia
que não apagaram os séculos
e querem contar a história encoberta às novas gerações
as trevas dos mares escondem segredos de antigos flagelos
boiando nas vagas o silêncio de bocas amordaçadas
e a triste constatação:
os livros calam obrigações prementes.

                      Set- 2025

sábado, 20 de setembro de 2025

Quadro negro

      o estudante negro
                      e todos os anseios                      
                                  de universidade
        o estudante negro
e a restrita comarca 
                   das possibilidades
                              o estudante negro
               e a pesada carga 
do morar periférico
                o estudante negro
                      e os graves entraves
                                     sociais 
                e mais a história
de senzalas escravos
e flagelos
         o estudante negro
                    sentindo ainda mais 
   fundo o duro golpe
               dos punhos de aço
                     RACISMO.

                     Set- 2025

Dos prazeres de agosto

não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.

                     Set- 2025

Dor secular

não conheço palavra que depure
o sangue jorrado dos "disponíveis" das terras desvalidas 
           do torrão de minha gente
no entanto tenho nas mãos um livro pejado de palavras brancas
vertidas sobre a desdita que enverga
meus ombros cansados 
                     de argumentos vazios
e mesmo entre as imensas pedras deste muro 
que estorva a liberdade de meus pés pela cidade
recuso-me a servir minha pele em tiras aos comensais 
desta república de absurdos pátria amada.

                          Set- 2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Alma - negra -

há uma paz rondando as esquinas
que não contempla meu corpo negro
minha pele imersa nas trevas
quando invisto em livrar-me de estigmas
legados a mim por um pacto
                                              obscuro
fronteiras de quintais invadidas
mares sangrentos de um macabro mercado
de necrópole das marés às margens do mundo

eu digo irmão:
não há perdão no vale atrás das montanhas
lá onde todos plantam e colhem e comem
idealizam constroem e moram
sofrem alegram-se e amam
em comunhão com a branca manhã
que rompe feliz
entre as grades do peito
coração quilombo.

                    Set- 2025

Cotidiano

sempre um poeta nas ruas assombradas
da cidade arruinada
e mãos de mando nas luxuosas salas de vidro
a produzir gordas rendas do arsenal de mãos operárias
o poeta num banco de praça lamenta o espetáculo bufo
- a vida pra lá deste jardim é triste.
                                    e obedientes ovelhinhas 
a cumprir expediente nas repartições
nos escritórios nas capitalistas engrenagens
de desigualdades
o poeta recolhe o chapéu pousado no banco da praça
guarda os papéis na bolsa de couro
e parte cabisbaixo com tantas misérias
pra encaixar no poema que tece sob a crespa dor
                              do seu dia de cão.

                             Set- 2025

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Uns olhos

ei,
irmão de pele anseio e adversidade
rebento da incerteza
                          entre as feras
                      daqui é possível te ver inteiro
esta cristalina pureza 
nos teus olhos
que mesmo na sorte são verdes ou azuis
antes é a grande expectativa
                                            pelo acerto almejado

expectativa geral

digo-te, 
há um quilombo no fim de cada esquina
da cidade tormentosa.
mesmo sob a vontade de nos querer enredar
neste novelo de insanidades.
e em nosso quintal um tambor 
à nossa espera.

                          Set- 2025