segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

João valentão

joão nasceu no inverno, achando que era eterno, pendurado no peito materno.
nasceu João serelepe, esperto feito uma lebre, naquele humilde casebre.
filho de benzedeira, pegado pela parteira, em plena sexta-feira.
vagiu feito uma fera, mamou feito um leão, dormiu e acordou na primavera.
cresceu João taludo, brincou João de tudo, bola de gude papagaio pião.
cresceu mais um pouquinho, sua alcunha era negrinho, foi ficando safadinho.
tornou-se João adolescente, mas sem um emprego decente, achava que não era gente.
fumava maconha nas esquinas, erguia as saias das meninas, furtava frutas nas cantinas.
quando João fez dezoito, armou-se com um 38, tornou-se o valentão da rua oito.
mas João virou homem, e forte feito um lobisomem, empregou-se no Clube Hom's.
lá conheceu Carmelita, coroa podre de rica, assim mudou João de vida.
tinha comida na mesa, administrava uma empresa, adotou a negrinha Tereza.
não se achava mais eterno, guiando seu Volkswagen, dentro do seu fino terno...

e parece que eu não tinha mesmo que fazer esta madrugada.

                                                          Janeiro- 2015

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Espectros

                       Poema sobre o trabalho infantil
                                             e de homens nas carvoarias

imensos fornos pejados
de hulha em brasa,
medonho inferno dantesco
em tonalidade rubra,
construídos de sangue
a esvair-se pela pele:
esbórnia estúpida da vil
ganância aristocrática.

fagulhas incandescentes
borrando tragicamente
o céu azul.
uma fumaça escura
turvando a visão,
penetrando o pulmão
da infância perdida
num trabalho ilegal e degradante.

e são crianças, ainda,
adoentadas,
enfraquecidas e ignorantes.
e são homens a passo largo
à sepultura precoce.
e são velhos tísicos,
sem amanhã,
à beira da morte iminente.

pele negra, trabalho escravo,
ancestralidade...
mãos calejadas de tanto
sofrer descaso.
sonho tolhido
sob sol lancinante.
identidade há muito perdida
nas voltas da vida.

pés pisando nuvens
a roda do capital
no seu ciclo macabro.
pastel de quimera,
quimera no prato:
estômago colado
às costas e a epiderme
a desenhar em traço
trágico a ossatura.

injuriada infância
irmã de todos nós.
homem de lama de ainda
nem aurora ao crepúsculo.

cachorro baio de pele e osso
em moscas e escaras,
no cercado da propriedade
sem cercado de dono alheio.
rota e frágil estrutura
de madeira
esparsa coberta
com folhas escassas
de zinco furado: seu lar.

(uma industria suja, excelência,
que fabrica seu confortável automóvel,
que calça seus pés com seus tênis
da moda, seus sapatos finos,
patrocina seu terno de linho nobre,
sua cobertura milionária,
sua viagem de avião.
uma indústria suja, excelência,
que patrocina seu bom domingo,
das melhores cervejas, uísques,
do churrasco com as melhores carnes,
seu restaurante, seu alimento sofisticado,
a joia rara no pescoço da sua mulher).

                            Nov. 2013

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