sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não há vaga

a universidade é pública
mas atende aos filhos 
da alta classe
de pública torna-se privada
e para o filho
do pobre não há vaga

o diagnóstico é triste
a subsistência 
a possível
o sentido fragilizado da vida
o osso do banquete 
no prato
a liberdade abolida
e do que se precisa nem resto

a conta que nunca fecha
o ministério 
da estatística adverte
a balança
não pende, (de)pende
poder perpétuo, justiça
a exata medida entre a vastidão
e o corpo inerte

as faces estranhas
da mesma moeda
a posse usurpada da terra
um oceano
de negras angústias
o desfalque,
a apropriação indébita
a cínica farsa do mérito

em vez de se extinguir
o abismo, aprofunda-se
o burguês
regala-se sempre
abastado
e mais falta a quem não tem nome
o feto indigente, coitado
já nasce com fome

a história restaurada
quanto maior a exposição dos fatos
mais a litania é constatada
a universidade é pública
mas para o filho
do pobre 
NÃO HÁ VAGA!

       Jun- 2020


domingo, 26 de julho de 2026

DO ENGAJAMENTO

Mãe negra

                                       à minha mãe
Mãe,
brincou os carnavais
sem alegoria ou samba-enredo,
nem estandarte, desfile, passista ou fantasia;
porque pisou apenas as avenidas árduas
das tuas obrigações.

na tua casa não teve "macumba, 
galinha preta, azeite de dendê", nem "ladainha,
reza bonitinha ou canjiquinha pra comer".
não pude evocar por isso a nossa etnia ancestral
que se perdeu diante da carga 
de intolerância.

Mãe,
a urgência perturba,
por que gestando as mães sentem tanto 
as dores e prantos do ser que desentranham?
por que no parto sentem tudo 
do filho que aflige feto e agora fato, 
esta voz que ecoa fora do útero?

mãe negra é a mãe branca,
com os encargos da cor.

        Agos- 2021

13 de maio

13 de maio,
cínico enredo encenado sem ensaio.
13 de maio,
desencargo pão e circo folclore atalho.
do ajuste malacabado da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
arranjo apaziguador da ordem
da cabeça pesada do poder acuado.
atando ao calcanhar escravo a bola de ferro
da injustiça e do encargo.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos subjugados,
peças descartadas.
13 de maio.

                                  Set- 2025

Nada diferente no mundo dos iguais

falta pão na mesa do pobre
e a notícia não comove os que mordem
degustando gostoso o repasto nos finos pratos
dos apartamentos de luxo
sob o lusco-fusco de mais um dia que vai
e quando um governante qualquer
anuncia verba pra educação
a deseducada elite que se farta vocifera
contra o custo brasil
que nada custa à sua vida de misérias
pimenta não deixou de ser refresco
nos olhos do povo

                              Jul- 2026

Homem negro

não se ama além da própria utopia
pedaços de um homem, 
                          partes inteiras de mágoa,
o coração rubro de um homem negro.

o estio vence os braços, vence a boca,
vence o pênis
               -imenso de solidão-

enquanto os olhos têm os olhos
                          esquecidos noutros olhos.

eu quero a centelha no feno
                 muito além do fla flu casual
     sem ausência ou apatia
eu quero a ousadia profana de um corpo
                      imperfeito
difusa qual artérias nas grades do peito.

hediondas paredes de pedra
                à minha volta                                 
                   -mais um emparedado destino-
o amor deflagrado 
       que não violenta.
mas não brincarei no carnaval sem passista
da avenida do tempo,
                a vida escorrendo em suores.

       eu quero mais que o amor alheio,
amor que morde e assopra
               -tirano e frio-
eu quero o amor que volta,
    a felicidade de uma boca, 
                 de uma buceta, de uns seios.

                     14.02.2021       

Negro existe

quando se pesquisa se encontra
pesquisaram a miséria e encontraram miséria
no ventre inchado dos subúrbios
pesquisaram a fome e encontraram fome 
no bucho cheio da miséria
pesquisaram o analfabetismo e encontraram analfabeto
no seio farto da miséria e da fome
poeta negro só sabia de Cruz e Souza e Machado de Assis
tudo que aprendi na escola
andei pesquisando e descobri que preto escreve
quero dizer que fiquei aliviado e triste
pois fui e ainda estou tomando pé da extensão 
do problema
com o histórico de açoites a manchar
biografias
escrever é ato de bravura
a regra ainda é 
encolher-se

                                Out- 2025

Quadro negro

      o estudante negro
                      e todos os anseios                      
                                  de universidade
        o estudante negro
e a restrita comarca 
                   das possibilidades
                              o estudante negro
               e a pesada carga 
do morar periférico
                o estudante negro
                      e os graves entraves
                                     sociais 
                e mais a história
de senzalas escravos
e flagelos
         o estudante negro
                    sentindo ainda mais 
   fundo o duro golpe
               dos punhos de aço
                     RACISMO

                     Set- 2025

Matando hora

num certo discreto torrão
de então incerto destino
os grandes grã-finos de então
decidiram por escravidão

o negro lutou
resistiu, se rebelou

nasce a nossa revolução
Zumbi funda Palmares
o negro trama ação
a golpes de capoeira e facão

e os distintos senhores
ao lucro, ouro, especulação

todos sabem a história
a colônia tornou-se nação
o negro que não esqueceu
luta por reparação

o branco manda
desmanda, senhor da decisão

e esta breve história
é o poeta matando a hora
com versos por se fazer
não sabe senão linhas tecer

o negro ainda sofre
mas hoje sabe escrever

      Mar- 2021

DO AMOR

Dos prazeres de agosto

não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.

                     Set- 2025

Noite alta

o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável 
                       de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
                     o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
                       de nossa íntima 
                                              tempestade.

                        Set- 2025

Nos corredores da noite

esta carne nada vale amor
no entanto este desejo não arrefece
da tua boca úmida 
do teu corpo quente
e o que posso fazer são versos
enquanto a noite acentua
este clamor de paredes de senzala
e seus gemidos de dor
já procurei além da noite 
noite que fere qual ferro na carne
mas encontrei uma voz
de medo ou indiferença nos teus olhos
a gritar solidão
o verme virá comer em horas mudas
tudo que pensei para nós
e na garganta do verme estará o verbo
mais a luz de teu nome
a lhe obstruir o ar
só então estarei satisfeito
porque estará tudo acabado 
               para sempre.

                          Out- 2025

Abraço

nem povos extintos pela guerra
nem livros inacabados que não chegaram a ser
nem escombros de pétalas no jardim do peito
nada que consuma a força de mil braços
ou que sepulte a madrugada embriagada
dos loucos da cidade
nem o cais do porto de muitos séculos
nem os logradouros insalubres da província
de onde os donos de terras negociavam seres
nada
nada nos afastará
da comunhão de nossos corpos
desesperadamente entregues à bruma da madrugada
nada impedirá que renasçamos onde nasce nosso afeto
no alvoroço de nossos braços
encontrando-se no meio da noite

                     Jan- 2024

Terra do meu amor

terra seca que não germina
exausta terra rachada
terra nordestina 
do meu país
terra da caatinga e do sertão
houve escravidão na sua jurisdição
mas o seu condão
é de liberdade
terra que perdeu fertilidade
tantas vezes violada
que enriqueceu iaiá e nhonhô
velha terra castigada
de vovó e de vovô
de toda uma linhagem de escravos
tantos crimes sob seus domínios
terra sagrada do meu amor
e de vovó e de vovô
deixo aqui este poema
terra que tantas vezes sangrou
onde coagulou o sangue ancestral
gigante terra menina
terra que não dá pasto nem cana
terra que não germina
minha pobre terra nordestina

              Fev- 2024

Agosto

na tua pele arde
qualquer coisa de fruta
talvez o cheiro talvez o sabor
que na boca 
fica depois do amor

os lençóis falam
de nossa pele indefesa
da chama que não se apaga
nossa fome
nossa orgia negra

ainda que durma
o corpo que se esgota
a noite teima e nos reclama
mesmo nas dores
que esconde a cama

amar ensina
a sina de viver o outro
o que a vida fustiga e fere
sepultamos na cinza
face de agosto

    Agos- 2021

Gratidão

agradeço
ao sêmen que a transportou
ao óvulo que a recebeu
                           e originou
ao cordão que a nutriu
e alimentou
à placenta que a protegeu
                              e sustentou
à mulher e ao homem
que a criou

agradeço!

agora
nesse mundo desumano
       onde há tanta injustiça
lutamos você e eu
          nosso amor em apogeu

                            Jan- 2024

terça-feira, 14 de julho de 2026

Mágoa pequena

minha mágoa é pequena
frente ao passivo que ainda não acertamos
tens de pagar com juros altos
todo delito praticado contra meu povo
e ainda te aguarda
desonrado homem branco
tombo maior que levou o negro
nos dias de eito açoites e violações
pois nas voltas que dá o mundo
ainda volta pra sua conta
toda brutalidade cega que praticaste
sob céus pejados de estrelas
e quero apreciar num camarote de carnaval
este dia historicamente belo

                                Jul- 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Homens negros também amam

importar o melhor do seu mundo
diretamente para o pior dos meus dias
para colher as alegrias
que não foram possíveis colher
do que você me ofereceu nos dias cruciais
em que nossos destinos se cruzaram
você roubou minha paz
e nunca foi capaz de devolver
um gesto uma flor
sequer o desprezo me foi restituído
do seu proceder
e ficou tudo sem ser explicado
sem ser absolvido ou mesmo assimilado
feito crime contra integridade física de indefeso
cometido por alguém sem escrúpulo

                              Jul- 2026

Crespo

é crespa a lei dos meus fios
por decreto de cópula de pai preto e mãe cabocla
e às vezes as palavras que escrevo 
ou pronuncio também fluem crespas
mas a crespitude que me forma
não atuou no palco dos poucos dias
do nosso breve lance
e mesmo assim sem alarde
embaraçou-se a fluência do que fomos dois
porque sem ser crespa nem nos fios nem na gênese
encrespaste o precoce amor pulsando
da juventude nossa

                          Jul- 2026

domingo, 12 de julho de 2026

Proletário marxista

mal e a duras penas aprendera a mais-valia
nos bares fronteiros ao sindicato
emancipara-se cruzando os braços nas grandes 
greves dos anos 1980
rodando panfleto revolucionário
e arriscando-se em piquetes nas portas das fábricas do abc
brigando contra o patrão e as mamatas burguesas
a luta companheiro vem de longe
do barquinho de papel
desdobrando-se nas águas do tanque materno
aos negreiros cruzando os mares
das desilusões dos negros perseguidos
das terras d'áfrica castigada
da graxa no macacão operário
à posse dos meios de produção séculos antes
do início mesmo da ganância do homem

                               Jul- 2026

Negra Tarcila

a fímbria bordada
de teu vestido amarelo
foi outrora limete de teu corpo belo
hoje singem-te meus dedos
e nos amando
nesta relva sob o orvalho
desatamos os nós
de nossos segredos
esta intrincada orla de retalhos
que perpassa estes dias
e nos atravessa

                              Jul- 2026
tudo é e não passa de pó
e somos folhas mortas perdidos e só

                                 Jul- 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Vamo saravá mãinha

vamo saravá mãinha
que macumba não tem nada do demônio
é a crença do preto e sua fé
vamo mãinha agora que a gente pode bater tambor 
e não apanhar de rebenque
nem da polícia

                             Jul- 2026

Sou neto de áfrica

sou neto de áfrica próspera
mas veio o branco de lugar alheio capturar meu povo
trancar do lado sujo da história desfigurado
agora sou este à procura de um rosto
perdido do pretérito

                            Jul- 2026

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Jesus é negro

NEGRO? não é possível...
NEGRO? não será pecado ou blasfêmia?
NEGRO? jesus de nazaré é negro?
e os atabaques marimbas
e agogôs os terreiros e cantos sagrados...
jesus nada disso praticou
ou omite a bíblia
sagrada?
a pele de jesus tinha
o tom mesmo de minha pele?
como não está nos
salmos provérbio em nenhum livro?
por que paulo joão mateus
nada disseram?
vergonha? pudor? racismo?
jesus cristo é NEGRO???
por que o povo d'áfrica negra
é tão sofrido? 
por que do tráfico negreiro? senzala?
do pelourinho?
o que dizer da imagem que circula?
não posso crer, irmãos!
são mais perguntas
que respostas...
bem que parece verossímel...
jesus NEGRO?!...

                        Jul- 2026

Minhas origens

tão distante está de mim
a mãe áfrica mãe do povo que sofre
e mesmo antes do meu rebentar 
no mundo
entanto já fui rei n'áfrica
não um rei tirano
mas rei fundado na guerra
para proteger a sagrada terra de oxalá
versado nos atabaques de terreiro
não esqueci minhas origens
minha negritude
banzada de tamanha injustiça
com este povo
abnegado

                       Jul- 2026

terça-feira, 7 de julho de 2026

Os cheiros d'áfrica

sinto os cheiros d'áfrica
na cozinha pobre de minha pobre mãe
ela não o sabe
mas sinto os cheiros d'áfrica
nas panelas cheias
de pranto
pelo vazio que às acomete
e mesmo diante
de toda a adversidade
sinto os cheiros d'áfrica
mas pela minha querida mãe
o revés não importa
é dos sinhôzinhos 
que vou cobrar a dívida
da nossa infeliz sorte
povo negro

                     Jul- 2026

Cantos d'áfrica

os seus cantos áfrica
veem como um sopro através dos mares
desembarcar nos terreiros brasileiro
e o povo que não tem direito
sequer ao alimento
pode reverenciar os seus santos
porém muito discretamente áfrica
discretamente
como a vida modesta de seus 
filhos negros áfrica
discreta.

                       Jul- 2026

As minhas raízes

as minhas raízes 
profundamente fincadas na áfrica
em solo agreste é que
me move 
pela vida à fora 
catando um pouco de esperaça
para não esmorecer
frente ao desafio de negro ser
neste país
de aves de rapina
tentando tombar meu corpo
em cada esquina

                      Jul- 2026

Grito ancestral

o grito ancestre é uma demanda
que atravessa o oceano reverberando a dor
de todo o povo negro nas diversas
nações pelo mundo

um grito de alerta
um chamado ao nossos jovens negros
à universalidade do pensamento
sejamos universais povo negro espalhado
pelo mundo

aprendamos sobre a guerra
para podermos fabricar a paz entre nações
aprendamos sobre o medo
para podermos dispor de coragem

o branco colonizou nações
espoliou países inteiros pela ganância
interesse e arrogância
inventou covardemente o escravismo o racismo
e o tráfico de pessoas negras 
mar à fora

não brigaremos com o branco
por seu crime indefenssável
mas existe uma dívida alta em aberto
e não vamos perdoar
exigiremos o pagamento com juros
pela ousadia

                                     Jul- 2026

Ama de leite

ama de leite preta velha
não dá mais leite pra esse bezero não
ama de leite 
que amamentou a nação
e anda ainda agora amamentando
o filho branco do patrão
lavando limpando passando
no tanque e no fogão
preta velha sofrida
daqui a pouco serás
mulher livre do pelourinho de hoje 
ama de leite preta velha
e vais poder brincar
seu jongo
vais poder caminhar
sob as estrelas
entrar nos terreiros
tocar caxambu
dançar na roda ama de leite
preta velha.

                     Jul- 2026

Madeira de lei

madeira de lei é 
o corpo do negro fechado na macumba
não cede fácil a qualquer
castigo
nos encerraram no frio ferro
fustigaram de chibata
nos enforcaram em árvore
furaram de faca
tentaram contra o nosso povo
cheio de inocência
mas somos pura fortaleza
e estamos de pé
com os nossos batuques
e rituais sagrados
orixás e divindades na proteção
do nosso caminhar
pela vida
sem temer qualquer mal
que nos tenta combalir.

                   Jul- 2026

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Embusca do grande amor

embarcar numa jangada
das letras dos livros negros que leio
sob o orvalho da madrugada
e mesmo num oceano
repleto de perigosas
desventuras
rumar ao encontro do grande amor
arrancado ainda antes dos meus
braços exausto
no continente dos nossos antigos
a espoliada áfrica negra

                        Jul- 2026

Minha vida

minha vida é minha mãe
dispondo das últimas forças para nos criar
minha vida é minha infância pobre nos subúrbios 
da grande cidade ainda menina
minha vida são meus ancestrais surrupiados de sua terra
minha vida são os meninos que brincaram
comigo por estas ruas modestas
são os encontros e desencontros no grande palco da vida
e todas as mulheres que amei 
braços que cingi nos meus mãos que apertei
minha vida é o muito do pouco que aprendi com dona Nenê 
minha avó materna
minha vida é o tanto de humanidade
que aprendi na escola pública que frequentei desde a infância
minha vida são todas as ruas avenidas e praças
através das quais contemplei São Paulo
lugares que conheci e onde nunca pude estar
são as matas a saudade os rios as cidades este país
são todos os irmãos que conheci e os de luta
minha vida é indubitavelmente 
a grande liberdade

                         Jul- 2026

Vejam

primeiramente vejam
vejam as nuvens sobre tuas cabeças
mas não deixem embaçar tua
inteligência
vejam as estrelas altivas
sem esquecer que nunca 
brilhastes como elas
vejam a beleza desta vida
sem nunca esquecer tuas penas
vejam a riqueza de nossa terra
mas não esqueças
que fomos subjugados covardemente
vejam nossos governantes
nunca à altura 
de seu povo intrépido
vejam nossas matas abundantes
subtraídas na sua grandeza
vejam esta sociedade de abutres
usurpando tua dignidade
e o pouco que ainda tens de força
vejam os trazidos através dos mares
de seu sagrado berço materno
e não percas de vista 
que áfrica está definitivamente 
entranhada neste solo

                   Jul- 2026

Graças irmãos

graças à vida irmãos
mesmo a vida como ela é
graças irmãos
graças à força de nossos braços
graças à força dos braços ancestrais
e ao sangue dos antigos
e dos novos irmãos
e a nosso povo impávido
sempre impávido irmãos graças
graças a nossa terra
tão usurpada das suas riquezas
graças à natureza de nossa terra
e à nossa natureza 
de pujança
graças à nossa potência
e sobretudo irmãos
irmãos graças à nossa luta
graças à nossa luta
que não esmorece irmãos
mesmo fustigada cotidianamente
pelos mais crueis artifícios
graças à nossa luta irmãos
graças irmãos

                    Jul- 2026