terça-feira, 30 de setembro de 2025

13 de maio

13 de maio,
rio sem leito desaguando n'abismo.
13 de maio,
braço de arroio seguindo para o breu.
do ajuste malacabado 
da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
apaziguando a culpa 
da cabeça pesada do império.
atando ao passo do escravo a bola de ferro
da própria sorte.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos confinados,
escravos do vento contrário,
13 de maio.

                                  Set- 2025

Embriaguez

destilar no corpo o sabor 
                              de tua boca
produzindo a bebida que me entontece 
                             e embriaga
e no trançar de pernas 
deste amor
perder-me pelas ruas
                    do teu ser mulher.

                          Set- 2025

Os ratos

os ratos periféricos
           alimentam-se de nossos lixos
nossos esgotos nossos
                       restos
quando se tem descarte
         da sobra dos homens pobres
são seres esquálidos

os ratos dos bairros nobres
opulentos bichinhos saudáveis
alimentam-se
            de restos finos
                      da sobra dos abastados
nutrem-se mais que muitos
                  meninos

                      Set- 2025

sábado, 27 de setembro de 2025

Noite alta

o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável 
                       de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
                     o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
                       de nossa íntima 
                                              tempestade.

                        Set- 2025

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Cabeleira

ai ai ai, 
como sofre minha sobrinha
penteando a cabeleira de preta.
fosse ela eu deixava embaraçar e crescer.
mas é uma criança
bombardeada por costumes alheios à cultura de seu povo.
cabelo de preto não tem amizade com pente.
foi um branco quem inventou o pente
como quem inventou escravizar
castigar fisicamente e torturar
prender gente em ferro 
e senzala.

                         Set- 2025

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Uma lembrança

a baba do seu ódio não me afeta
já não podes mais me açoitar com rebenque
nem me agrilhoar no tronco
em logradouros
ou me trancar na senzala.
há uma fronteira que não podes mais atravessar
tendes embora respeitado muito pouco
os limites
entre o seu querer
e o poder.

                            Set- 2025

Senãos

vê-se pelas favelas afora
preto comendo preto pelas entranhas
depois de terem sido comidos
                                               por brancos
também pelas entranhas
por toda extensão da história.

o que deles poucos sabem

mas há um verdadeiro câncer
precisando ser extirpado do tecido social
- e não é o irmão de cor:
o câncer chamado racismo.

                      Set- 2025

domingo, 21 de setembro de 2025

O que os livros calam?

de repente este vento leste
infinitas vezes senti na pele seu furor soprando dos oceanos
trazendo notícias de velhos fatos incógnitos dos livros
soprando a dor latente de tantos séculos esquecida das nações
que dorme pousada na pele de uma raça
os olhos traspirando medo
o corpo muído de exaustão
nos ombros o peso da tragédia
que não apagaram os séculos
e querem contar a história encoberta às novas gerações
as trevas dos mares escondem segredos de antigos flagelos
boiando nas vagas o silêncio de bocas amordaçadas
e a triste constatação:
os livros calam obrigações prementes.

                      Set- 2025

sábado, 20 de setembro de 2025

Quadro negro

      o estudante negro
                      e todos os anseios                      
                                  de universidade
        o estudante negro
e a restrita comarca 
                   das possibilidades
                              o estudante negro
               e a pesada carga 
do morar periférico
                o estudante negro
                      e os graves entraves
                                     sociais 
                e mais a história
de senzalas escravos
e flagelos
         o estudante negro
                    sentindo ainda mais 
   fundo o duro golpe
               dos punhos de aço
                     RACISMO.

                     Set- 2025

Dos prazeres de agosto

não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.

                     Set- 2025

Dor secular

não conheço palavra que depure
o sangue jorrado dos "disponíveis" das terras desvalidas 
           do torrão de minha gente
no entanto tenho nas mãos um livro pejado de palavras brancas
vertidas sobre a desdita que enverga
meus ombros cansados 
                     de argumentos vazios
e mesmo entre as imensas pedras deste muro 
que estorva a liberdade de meus pés pela cidade
recuso-me a servir minha pele em tiras aos comensais 
desta república de absurdos pátria amada.

                          Set- 2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Alma - negra -

há uma paz rondando as esquinas
que não contempla meu corpo negro
minha pele imersa nas trevas
quando invisto em livrar-me de estigmas
legados a mim por um pacto
                                              obscuro
fronteiras de quintais invadidas
mares sangrentos de um macabro mercado
de necrópole das marés às margens do mundo

eu digo irmão:
não há perdão no vale atrás das montanhas
lá onde todos plantam e colhem e comem
idealizam constroem e moram
sofrem alegram-se e amam
em comunhão com a branca manhã
que rompe feliz
entre as grades do peito
coração quilombo.

                    Set- 2025

Cotidiano

sempre um poeta nas ruas assombradas
da cidade arruinada
e mãos de mando nas luxuosas salas de vidro
a produzir gordas rendas do arsenal de mãos operárias
o poeta num banco de praça lamenta o espetáculo bufo
- a vida pra lá deste jardim é triste.
                                    e obedientes ovelhinhas 
a cumprir expediente nas repartições
nos escritórios nas capitalistas engrenagens
de desigualdades
o poeta recolhe o chapéu pousado no banco da praça
guarda os papéis na bolsa de couro
e parte cabisbaixo com tantas misérias
pra encaixar no poema que tece sob a crespa dor
                              do seu dia de cão.

                             Set- 2025

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Uns olhos

ei,
irmão de pele anseio e adversidade
rebento da incerteza
                          entre as feras
                      daqui é possível te ver inteiro
esta cristalina pureza 
nos teus olhos
que mesmo na sorte são verdes ou azuis
antes é a grande expectativa
                                            pelo acerto almejado

expectativa geral

digo-te, 
há um quilombo no fim de cada esquina
da cidade tormentosa.
mesmo sob a vontade de nos querer enredar
neste novelo de insanidades.
e em nosso quintal um tambor 
à nossa espera.

                          Set- 2025

Se há conselho!...

toca tambor moleque toca tambor
que teu caminho é cheio de pedras e obstáculos
toca tambor que tua pele é negra
e tambor uma universidade
toca mas seja amigo das letras
toca tambor que tambor não é utopia
feito o almejar de toda a raça
toca que Ganga Zumba chega à pele fatiada em tiras
toca que Zumbi chega ao aferro e sangue vertido
toca que este som é o som de cratera do poeta
não de esquecimento do inimigo
tira do couro toda a luta de uma raça
toca que tambor é território livre de canga
é teu Palmares moderno
toca tambor e seja amigo dos livros
que o livro é uma placenta que se rompe
e o tambor a mãe que ensina educa e cuida
no seio deste encontro só nosso.

                             Set- 2025

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Refleções

o que eu quero tirar dum copo
se sou todo estilhaços de vidro nesta cadeira
e pensar que teus braços são muito mais confortáveis 
que este frio balcão de bar
a noite a escorrer-me por entre os dedos

mas senãos gritam sob o dilema que se desenha
fria e infalivelmente no pensamento

ser negro é olhar com muito mais cuidado
as ruas desertas por onde entram e saem os desejos
para sopesar na solidão de quatro paredes
o enredo de um encontro fortuito.

                                Set- 2025

Meu segredo

aquela sede de lábios
como a tirar-te da boca o ser inteiro
aquela fome de amor na carne
como a privar-me dos sentidos que a razão impõe
tudo isso no instante impreciso de um
corriqueiro - bom dia! 
de dois colegas de escritório.
nos becos da cidade
agitada.

                     Set- 2025

Ars poética

quando tua ausência se faz
e a noite embebida em silêncio e desastres
a bafejar seus fantasmas de brisa
desafia minha ars poética

a noite é uma abstração indefinida
do teu corpo desnudo
teu beijo escorrendo dos lábios 
a tisnar minha camisa

a aridez do papel inquisidor
e o desafio escruciante de inventar-te 
em versos conexos com o desejo
e você ainda assim se ausenta

indiferente à minha dor de poeta

                     Set- 2025

Desejos represados

aqueles toques agrestes no teu corpo
que as mãos indecisas e ainda jovens doaram
não foram sagrada música entoando liberdade
em noites de antigos cativeiros

foram desejos represados
                   de um cotidiano ausente 

e as cartas que eram para ser de amor
são avulsos bilhetes imaginados nalgum tempo
para lembrar-te
                   -como fosse necessário-

que teus beijos são inesquessíveis e as chaves
precisam estar sob o capacho da porta.

                     Set- 2025

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Artérias abertas

terra indígina sangrando
artérias abertas no brasil extremo
protesto indígina 
                frente ao planalto

ouro escoando pelas
fronteiras

hipocrisia parlamentar
conchavos negociatas propina
e a bunda opulenta
              sentada sobre a taba

                       Set- 2025


Crônica de Brasília

o poder em Brasília
roendo até o osso do erário
            a soma da magra
renda operária

o poder em Brasília
              engordando o gado
para próxima feira
agropecuária.

o poder em Brasília
sem nome sem rosto ou digitais
            engordando o gado
com a gorda conta
bancária

                  Set- 2025

Esquinas

as ruas aliciam jovens
em papelões sob as maquises
                         doendo

as ruas seduzem jovens
              até a próxima esquina
rasgando a pele
                  pelos ossos.

                   Set- 2025

domingo, 7 de setembro de 2025

Escolhas de cativeiro

o sequestro do meu corpo quilombo
pelos tremores de prazer do corpo teu
ganhou-me naquela noite amena
pagou-se o resgate
mas cativo dos teus desmandos
não quis a sagrada liberdade
um corpo negro é talhado de muitos nãos
desenganos e desencontros
mas é consagrado no amor por escolhas
como um corpo que não sofreu
cativeiro na história
se escolhi o calor dos teus braços
considere a licitude desta inacabada 
crônica do nosso encontro
fato consumado e imutável de amor.

                      Set- 2025

Swing da cor

depois de tanto fragelo e senzalas
de tantos estigmas e eitos
a dilacerar a alma em angustiadas noites
não descansei nas lavouras
nas lutas e revoltas
na macumba dos quilombos
sequer descansarei meus domingos
com televisão futebol
igrejas ou carnaval
eu quero pena capital ao opressor 
de meu povo gastigado
gozando do fruto do sangue ancestre
em tardes de sol churrasco 
e whisky nas piscinas
das mansões dos bairros nobres
com cheiro de cadáver 
apodrecendo de cada pele negra
em lanhos fatiada
há 500 anos de uma história encoberta
com verniz de legalidade.

                        Set- 2025

Eu tenho uma história

não a quero nesta noite
turbulenta de sirenes tempestade e caos
na cidade sitiada de pássaros e escuridão
não quero a farsa de mares
nunca antes navegados
quero a verdade dura dos nativos da terra
quero conhecer teus abismos
das janelas de teus olhos
e abrir-te os portões deste corpo quilombo 
para servir meus segredos
num banquete de boas-vindas
você não merece
a superfície falsa de terras inesploradas
tenho na biblioteca da pele
pinturas rupestres
que remontam a tempos de descobertas
para um mergulho fundo
na história represada
do latifúndio do meu ser amadurecido
ostentando pedras das tantas ruas
na memória dos sapatos.

                        Set- 2025

Desejo

não, eu não te quero perto,
de segunda à segunda por todos os anos
que me restam de vida,
à meia distância dos meus humores carnais.
percebendo meus dilemas íntimos
numa sacada de olhar.
eu te quero dentro,
feito a estrutura esquelética
que minha carne penetra pelos poros
numa complexa engenharia.
não quero simplificar.
falando assim talvez entendas
que esta distância de quilômetros
de asfalto e céus
esgota o ânimo de meu corpo guardado 
para desfrute dos teus sentidos.

                   Set- 2025

Livro sagrado

não pude ler este livro na íntegra
instigante livro inacabado
por uma noite passei meus olhos por suas páginas
noite especialmente saborosa
deixei-lhe nalgum canto que não encontro
talvez seja sua nudez secretamente indevassável 
por olhos com urgência de iletrado
por timidez congênita talvez
refiro-me a um livro corpo mulher
fechado em sagrados rituais de terreiro

                  Set- 2025

Fagulha

entre o dever e o fogo
de nosso encontro
perdemo-nos no remoinho de gentes
e a fria carnadura da cidade
fomos mais as regras das obrigações diárias
a nos ditar o ritmo da vida
e a chama ardendo cedeu prematura
mas sob as cinzas
restou a fagulha que quando menos 
se espera havendo lenha 
em fogo se torna
e nosso encontro incendeia
e passamos a viver 
um no peito do outro
perpetuamente

                   Set- 2025

sábado, 6 de setembro de 2025

Velhas crenças

segundo todos os indícios
não houve libertação
apenas uma farsa mal acabada 
de abolição.

que atrela o negro
à penúria de possuir a pele negra.
de atar o indivíduo à mesma 
danosa sorte.

que faz de gente besta
a chafurdar migalhas de existência
em mofados currais ungidos
de velhas crenças.

                    Set- 2025

Rapsódia rap

de parto negro
                    em parto negro
testemunhei muito corpo negro 
-em peripécias periféricas-
                           partir num rabecão.

aí me dizem:
olho por olho e acabaremos
             todos cegos!

mas quando olho 
as estatísticas
e perscruto vivências pra estes lados
onde é que a faca fere 
                     muito mais fundo 
a serrar as pálpebras?

as mesmas pálpebras
                          de histórias
e tonalidades idênticas
das mesmas balas assassinas
às mesmas sinas.

                      Set- 2025

Escravatura

alforria consegui nos tribunais
em tardes de tensas deliberações
protestos e discussões
mas de liberdade
gozei apenas no ventre de mãe África
de onde fui capturado e trazido
e por arrobas vendido
e jogado em frias senzalas
nas terras de homens sórdidos
com sede de ouro e posses

                        Set- 2025

Histórias de terreiro

no couro do tambor 
sons d'África a descontruir estigmas
que vem trazendo de longe a raça
plantados à traição na pele
pra disfarçar enganos
vieram contar histórias de abolição
mas não desceu a farsa
goela abaixo
porque tambores d'África de livres sons 
de trovão 
batuque em couro forte
desenham em noites de terreiro
a verdadeira história
de meu povo
e as digitais no couro
gritam liberdade

                   Set- 2025

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

As angústias de um negro

as angústias de um negro
são os fantasmas de um tempo cruento
ainda vivo na memória do corpo
tempo de ferros e ferrugens

as angústias de um negro
são os estigmas de vergonha nos guetos da pele
cicatrizes do parto das sujas violações
marcas da falência nossa

as angústias de um negro
é abraçar o dia a dia naturalizado nas sombras
tranzido com a farsa a sugar-lhe o sangue
a fazer-lhe natureza morta

gingando a sorte a escapar por um fio

                           Set- 2025

Porque hei de lutar

porque hei de lutar
mesmo usados muídos pilados vendidos trocados
como diz o bonito jongo
porque hei de lutar
mesmo depois de bombardeado no íntimo
pelo ocidente sem qualquer pudor
porque hei de lutar
mesmo depois do ensino fajuto
do alimento mirrado da condição de subempregado
da liberdade vigiada
da maturidade tardia do amor à míngua
da cachaça engolida contra vontade
das pedras brutas na história de meus ombros
eu hei de lutar hei de lutar

                      Set- 2025

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Por conta e risco

não fui à universidade para além de constatar
meu lugar do lado externo de seus muros.
não cheguei, nas minhas andanças,
além das linhas de limite da placenta a muito apodrecida.
prova cabal que fui concebido,
gestado e parido, mesmo que dum ventre negro.
este ventre que escapa a vis afrontas.
hoje resta-me o vulto a palmilhar os chãos da cidade,
por conta e risco de minha sorte esquálida.

                                     Set- 2025

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Porque sou negro

das senzalas às avenidas
viadutos e arranha-céus de sangue negro
forjou-se a cidade que hoje estranha-me.
e o próprio país, no seu porte
robusto, tem timbrado 
na sua história, sangue escravo.
e sequer me sinto
acolhido onde quer que eu vá dentro
da terra natal.
em cada pedra do chão onde piso
reconheço-me mendigando
uma paz que não encontro, onde eu possa
me alargar, e fazer parte
do entorno por onde me desloco,
onde eu possa sorver o ar
e livrar-me da canga pesada
a tolher-me o ser.
meu refúgio neste lugar onde me fiz,
nesta nação onde pensei
ser minha casa, é nas páginas de um livro, 
quando me encontro só
junto a meus dilemas, 
resolvendo minhas dores e alegrias, 
(poucas são as alegrias), 
nesta sociedade engatinhando.

                            Set- 2025

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Mais um dia

lanço-me à rua toda manhã
indagando, por que toda roupa que visto
não me cai bem?
é uma atenção da polícia
um puxar de bolsa pra frente
um subir os vidros dos carros
e um céu azul anuncia um dia democrático
não fossem as sombras
dos homens assombrando
os caminhos por onde entra e sai
minha boa fé no mundo.
não é capitalista minha fé, mas sigo a turba
mesmo discriminado, 
porque o pão está caro, e sobreviver
cobra seu preço.
e meu coração é uma pluma
que voa ao vento e plana e cai na grama
mesmo não encontrando
motivo pra tanta leveza
neste ar carregado
da metrópole.

                           Set- 2025

Meus sapatos

meus sapatos já envergados
pelos cantos de tantas pedras e chãos
arrastando o peso das minhas angústias
trazem no seu mutismo
notícias deste teatro de bonecos
que de norte a sul
arvoram-se a devastar
profundamente cada alma que tem um sonho
com sua artilharia de guerra
aposta para o genocídio
dos condenados desta terra
olho com olhos de tristeza esta comédia bufa
que leio no seu couro exausto
e já desenganado adormeço as mágoas
sob as palpebras cansadas

                                  Set- 2025

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Boas-vindas a um negro

havia gritado a plenos pulmões
milhões de vezes liberdade
e como no poema
não parei de gritar não parei
também evoquei Zumbi para guardar
as entradas de meu corpo frágil
mas escutava apenas
minha própria voz num eco
e de chapéu no chão
corpo prostrado sobre um sangue coagulado
sangue dos ausentes da guerra
desesperava-me
quando do outro lado da rua
uma cruz em chamas aterrorizava
num descampado
nos galhos fortes da única arvore
uma forca jazia em silêncio
pensei estar sob efeito dum sonho mau
mas não era sonho
era o vil cartão de boas-vindas
à sociedade "moderna".

                    Set- 2025

Cotidiano

a cada dia ao despertar 
eu acredito na vida
apesar das toneladas de rancor alheio
que carrego sobre os ombros
competentes no intento
fizeram tudo
sob o manto secreto da noite silênciosa
sob cada pedra do caminho
por onde me desloco
deslocado de tudo 
escancaradamente adverso
em cada esquina um olhar de esguelha
a cada rua onde vai meu passo
já cambaleante
a desconfiança a vigiar cada gesto
que natural me escapa
já não tenho destino
que talvez fosse um bar ou biblioteca pública
onde depositar os fragmentos
das certezas tortas
de cada olhar que atravessou
minh'alma tão inutilmente
obstinada

                             Set- 2025