quinta-feira, 18 de junho de 2026

Noite

beber lentamente desta noite
como se bebe vinho de boa safra
e esquecer-se dos açoites
que a sociedade dos homens bárbaros
não se esquece
de fustigar em lombo de preto
ler desta noite
com o mesmo atento cuidado 
que se lê um poema 
de joão da cruz e souza
e esquecer-se do pão de todo dia
que não se defende com versos tecidos
na clandestinidade e ostracismo
e no escorrer destas horas ermas
que a lua embrenhada na treva
também se encanta
com a constelação de estrelas impecáveis
na imponência de suas luzes
degustar deste amor
ausente a rasga-me o peito
cansado de solidão
e ela dormindo noutro canto da cidade
indiferente à minha dor
de poeta apaixonado
                                     e miserável

                         Jun- 2026

Por dizer

falar de amor meu bem
é um despropósito pra mim
enquanto ainda tem gente com fome 
pra citar Solano
e jovem sofrendo assassinato 
nas periferias
e gente analfabetizada
mas hoje quero
fazer um pouco de escândalo
e dizer do por dizer entre a gente
da primeira vez que
tive a certeza que a queria junto
que nossos quereres 
se alinharam
e nossos passos tomaram
o mesmo destino
e tudo o mais que fomos nós nesta vida
você não saiu de mim
embora nos afastamos
a ponto de mudar 
a regra da minha arte
de fazer-me cometer versos de amor
mas preciso ser justo
e ajustar o que ficou negligênciado
eu preciso dizer que o amor não morreu
com a separação
que o seu lugar no meu peito
é perpétuo.

                       Jun- 2026

domingo, 4 de janeiro de 2026

haikai trágico

a tragédia a tragédia a tragéd
calada no denso ar em forma de mendigo
tarde escandalizada

                   Jan- 2026

domingo, 14 de dezembro de 2025

Escombros periféricos sob um céu puro

o dia do azul mais belo
a fresca alva da manhã repleta de orvalho
e a fotografia mais triste da terra
dos homens pretos
um brasil de restos de lonas rasgadas
servindo de abrigo aos seres
mais carentes entre
os humanos.
aqueles que chamamos despudoradamente
como a nudez de uma virgem
em praça pública:
favelado.

                              Dez- 2025

O poema e seu legado de sombra

eram dois por dois toda a sua posse
o restrito espaço onde depositou toda a sua ilusão
poeta negro homem sem pertences
já não importava
estava a um passo de legar
alarido de sombra.

                         Dez- 2025

Poetas do crepúsculo

vestígios do tempo na tessitura
das trevas de uma rua sob o domínio do silêncio
menos que rua, beco escuro
viela deflagrada
de pequenas tragédias de seres irrelevantes.
um pássaro a rasgar a noite violada
de uma criança dormindo
sob os escombros da miséria
corroendo. a destroçar o peito inocente
sangue e lágrimas
crime perfeito, alguns otários
catando conchinhas
na guanabara.

                     Dez- 2025

sábado, 13 de dezembro de 2025

Talvez o fruto

o sêmen envelhece
a qualidade do fruto se degrada no corpo
e mesmo a mais amante das negras
jovens
sem senzalas rebenques ou 
                                      bacamartes
não é capaz de tanta ilusão
no ventre da manhã
gestando 
revoluções.

                              Dez- 2025

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Crônica despóstica de uma África viva

astros analfabetos
a riscarem os céus carentes de pássaros
nas trevas poluídas da metrópole
noturna.

NÃO!

adultos jovens e crianças negras
a catarem em suas vidas de desastres
uma réstia do alfabeto
massacrado
pela soberba egoísta
do homem
branco.

                    Dez- 2025

sábado, 6 de dezembro de 2025

Despertar

a lua periférica é vesga
catando passos negros aos tropeções
com vestígios de senzala e dor
entre as fibras ópticas
do progresso.

                   Dez- 2025

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Crua realidade

manicômio para o negro
o viés a inclemência
e o ódio do conjunto da sociedade e suas
instituições corrompidas,
mais as fezes fartas do capitalista.
para o branco
sombra, água de coco
e a paz dos
dias amenos.
uns braços da tolerância,
todo amor e afeto.

                   Dez- 2025

Humilhação

branquitude humilha o negro
desde que o negro é raça.
primeiro veio a exploração dos disponíveis
depois o espólio dos abnegados.
os últimos dos negros da história
não contada.
hoje é o negro com a branca
e os seus afetos de escárnios e fel
sobre o desespero.
e a negra com o branco
a perpetuação 
do domínio dos bárbaros.
sobre a ingenuidade.

                 Dez- 2025

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Madrugada

madrugada autivagante 
eu acordo todo mundo descansante
e saio escuro adentro
                           passo lento
de sonante
          para a realidade da batalha

                        Nov- 2025

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Escola primária

oh deus, o que foi a escola da infância?...
tínhamos todos caderno, lápis, borracha e régua.
em gradações diferentes, tínhamos.
bem ou mau vestíamos e calçávamos.
mas apenas eu tinha a pele negra.
a professora sangue azul
gostava e desgostava de uns e de outros.
mas apenas a mim lançava opressores olhares e palavras.
os livros todos nos levavam ao Novo Mundo,
mundo de príncepes e princesas rosas 
de tão branquinhos.
e eu sequer sabia ver 
a bola de ferro que prendiam
aos meus calcanhares.

                        Out- 2025

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Diagnóstico

quando nasci, nenhum anjo
torto ou reto, de sombra ou de luz, me veio dizer nada.
porém, nasci curioso de mais não poder.
mas na escola, diagnosticaram-me desinteressado.
pego hoje um Drummond e me fastio, 
quase nada ou nada escrito ali me diz respeito.
Drummond é poeta eloquente,
como usa em profusão as palavras Drummond.
talvez, ou certamente, houvessem diagnosticado interesses 
outros que não aqueles oferecido na escola de então
minha veia poética ostentasse a estatura 
de um Drummond?

                         Out- 2025

A São Paulo das sombras

estava bastante sujo
ou era negro o mendigo que lançava olhares
de espanto e desespero para o dia?...
por que são pretos ou quase 
pretos os mendigos que vagam distâncias?
nos cemitérios, nas calçadas,
nos esgotos, 
na Praça da República,
são negros os mendigos que vejo!
o que nem todos veem ou quase ninguém vê, 
envolta por sombra espessa,
é esta ferida exposta 
sob o claro céu 
da cidade.

                        Out- 2025