quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Pedaços da fome

                   à escritora Carolina Maria de Jesus 

a vida agora é de alvenaria,
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio, 
o trabalho e a solidão.
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto esse gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome? 
despejada de cada quarto, 
de todo canto, preterida da vida. 
zela da veste grã-fina, 
desdobra-se a cuidar deste chão, 
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!

           Maio- 2020

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