segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A São Paulo das sombras

estava bastante sujo
ou era negro o mendigo que lançava olhares
de espanto e desespero para o dia?...
por que são pretos ou quase 
pretos os mendigos que vagam distâncias?
nos cemitérios, nas calçadas,
nos esgotos, 
na Praça da República,
são negros os mendigos que vejo!
o que nem todos veem ou quase ninguém vê, 
envolta por sombra espessa,
é esta ferida exposta 
sob o claro céu 
da cidade.

                        Out- 2025

domingo, 26 de outubro de 2025

Uma doméstica

um bambolear de modelo 
de passarela aprendido nos atropelos da caminhada.
a roupa escolhida no capricho de cinderela negra, do jeito que deu.
um resto de sono imperceptível nos olhos.
preta, muito preta! 
linda, muito linda!
muito alheia às complexidades sociais, espana tudo da mente:
exploração da mão de obra infantil, trabalho escravo,
estatística dos homicídios no país;
notícias que ouviu no rádio às primeiras horas do dia.
espana tudo da cabeça,
lava e seca as dores da vida numa brastemp mordeníssima.
direto d'alguma favela no extremo oposto da cidade,
desponga do ônibus no ar nobre dum bairro fino.
o que ela sonha, impossível saber,
mas ia ligeira ao encontro
do dever cumprido.

                                   Out- 2025

sábado, 25 de outubro de 2025

Pela janela do trem

e essa noite de estrelas 
apagadas pairando nos rincões
da metrópole...

num sopro inerte 
feito monumento à miséria 
dos desgraçados
do mundo, 
a favela equilibra-se.

o que é a noite por lá?
as janelas dos barracos trocando
fios de conversa de porões...

o amor esquálido
de uma mãe repleta de culpa...
a pouca paz entre os
becos, uma ferida imensa
que não cura!?

e os sofisticados 
nós nas gravatas do poder, vizinhos,
pesando sobre esta dor...

                Out- 2025

Pedinte no centro da cidade

40 graus, um grande inferno,
a estufa da rua não tem ar condicionado.
o asfalto sobe-lhe ao rosto, 
cobre-lhe o corpo, não há distinção.
ele não tem onde chegar para descansar a vida,
trancar os olhos, ignorar o mundo.
num sono redentor
e profundo.
fome não sabe o que seja, quer um cigarro,
enseja uma marquise.
para largar o corpo de um inchaço
de decomposição.
defunto que ambula a morte nos calcanhares.
a vida em fragalhos e seus pertences
de pano roto, a roupa do corpo, 
o fundo do poço, 
mais nada.

                 São Paulo Out- 2025

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Poe mar

tirar da palavra o sumo
o somos negros
da palavra cheia de ginga escorregada 
da memória
do aprendido em velhos cadernos de infância
dos livros lidos na madrugada
palavra que dialética pousa na noite insone
duma folha em branco.

e nos becos desta noite 
desesperadamente grande
penetrar mudamente na nudez de cada verso 
e extrair o rumo dos passos desta raça
tão acostumada a curvar-se
diante do rei

                       Out- 2025

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Desamor

tem certas palavras
dos homens que nos governam
que parecem as da 
                        ku klux klan

tem certas caras
dos homens que nos governam
que parecem as da 
                        ku klux klan

tem certas ações
dos homens que nos governam
que parecem as da 
                        ku klux klan

quando será que perdemos 
             o amor
por nossa pátria?

                     Out- 2025

Nos corredores da noite

esta carne nada vale amor
no entanto este desejo não arrefece
da tua boca úmida 
do teu corpo quente
e o que posso fazer são versos
enquanto a noite acentua
este alarido de paredes de senzala
e seus gemidos de dor
já procurei além da noite 
noite que fere qual ferro na carne
mas encontrei uma voz
de medo ou indiferença nos teus olhos
a gritar solidão
o verme virá comer em horas mudas
tudo que pensei para nós
e na garganta do verme estará o verbo
mais a luz de teu nome
a lhe obstruir o ar
só então estarei satisfeito
porque estará tudo acabado 
               para sempre.

                          Out- 2025

Preto de alma branca

este preto que se fez gente
sob os cuidados da mãe crioula se esfolando
no tanque com a roupa suja do patrão
do pai negro deixando a alma
no cabo da enxada
agora cospe na cara da luta dos pais
escarra nos cornos da luta ancestre
dizendo que não há racismo 
nesta pátria amarga
que o negro se faz de coitado
fazendo-se vítima
este preto de que falo
é tão branco quanto a folha
onde teço estes versos.

                    Out- 2025

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Negro existe

quando se pesquisa se encontra
pesquisaram a miséria e encontraram miséria
no ventre inchado dos subúrbios
pesquisaram a fome e encontraram fome 
no bucho cheio da miséria
pesquisaram o analfabetismo e encontraram analfabeto
no seio farto da miséria e da fome
poeta negro só sabia de Cruz e Souza e Machado de Assis
tudo que aprendi na escola
andei pesquisando e descobri que preto escreve
quero dizer que fiquei aliviado e triste
pois fui e ainda estou tomando pé da extensão 
do problema
com o histórico de açoites a manchar
biografias
escrever é ato de bravura
a regra ainda é 
encolher-se

                                Out- 2025

Ser negro

ouvir o rádio
é um tormento para o meu ser todo preto
porque do outro lado
é sempre um branco a falar
com suas palavras 
brancas
o que sequer quero
ouvir

ler o jornal 
é um suplício para o meu ser inteiro negro
porque as mãos que escreveram 
as notícias
são sempre brancas mãos
com suas palavras
brancas
nem sempre íntegras
ou justas

como assistir tv, 
consultar o médico, ir à biblioteca pública,
ao banco, à universidade
ao dentista.
e quase todos 
os espaços públicos. 
é um desafio ser negro 
pelas portas
do fundo
com o mundo
de revés.

                   Out- 2025

domingo, 5 de outubro de 2025

Método

geralmente preto
o criminoso do morro
está a cumprir ordens
pensando ser chefe
e acaba morto ou preso
geralmente branco
o criminoso do asfalto
é quem dá as ordens
e acaba em Brasília
ou no Leblon
não é outro o método
como se estrutura
a sociedade doente
desta nação desigual.

             Out- 2025

Os escravos

comando vermelho pra mim
são corações pulsando 
na rocinha ou alemão
corações sentindo
na cidade do cristo estupefato
não criminosos 
a organizarem-se em facções
rendendo o povo das favelas
com fuzis granadas e opressão
mesmo sob o manto
da dor ancestral
sob o timbre das peles marcadas
esses munidos vilões
são escravos da casa grande
são feitores
a trancarem algemas e grilhões
guardando as chaves nas gavetas
das salas dos senhores.

                   Out- 2025

Não é a cor?

numa Paulista insuspeita
um meio-dia azul 
democrático
eu apenas usava o espaço público
como centenas
de outros transeuntes
deslocando-me
eram cinco policiais muito jovens
sacaram as armas
e como numa Congo deflagrada
abordaram-me
eu não tinha nada é claro
mas ficou a cicatriz
no coração acostumado
com açoites da vida
na negra pele.

                     Out- 2025

sábado, 4 de outubro de 2025

Nuanças

seja mulata seja pardo ou crioulo
sambando na avenida
                        ou no chão de fábrica
não importa o tom da sua dor
se não pode dizer que é branco é negro
o branco gosta 
                       de ser branco
no campo ou na cidade
e o negro tem que gostar de negro ser 
onde quer que esteja
mesmo com este lamento
                           de antigas datas
reverberando na integridade do corpo
isto é negritude
        é isto conciência negra.
libertar-se das correntes de desespero
romper com os elos desta dor.

                          Out- 2025

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O livro

eu gosto do objeto livro
e gosto ainda mais do que ele encerra
em forma de palavras
e gosto mais ainda das palavras
quando elas dizem
em altivas e negras imagens
as demandas 
           e angústias
de meu povo ignorado.

                    Out- 2025