segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Rolê

os mendigos assassinos
pisando em baratas
no centro da São Paulo
escaldante

                      Dez- 2025

domingo, 14 de dezembro de 2025

Escombros periféricos sob um céu puro

o dia do azul mais belo
a fresca alva da manhã repleta de orvalho
e a fotografia mais triste da terra
dos homens pretos
um brasil de restos de lonas rasgadas
servindo de abrigo aos seres
mais carentes entre
os humanos.
aqueles que chamamos despudoradamente
como a nudez de uma virgem
em praça pública:
favelado.

                              Dez- 2025

O poema e seu legado de sombra

eram dois por dois toda a sua posse
o restrito espaço onde depositou toda a sua ilusão
poeta negro homem sem pertences
já não importava
estava a um passo de legar
alarido de sombra.

                         Dez- 2025

Poetas do crepúsculo

vestígios do tempo na tessitura
das trevas de uma rua sob o domínio do silêncio
menos que rua, beco escuro
viela deflagrada
de pequenas tragédias de seres irrelevantes.
um pássaro a rasgar a noite violada
de uma criança dormindo
sob os escombros da miséria
corroendo. a destroçar o peito inocente
sangue e lágrimas
crime perfeito, alguns otários
catando conchinhas
na guanabara.

                     Dez- 2025

sábado, 13 de dezembro de 2025

Talvez o fruto

o sêmen envelhece
a qualidade do fruto se degrada no corpo
e mesmo a mais amante das negras
jovens
sem senzalas rebenques ou 
                                      bacamartes
não é capaz de tanta ilusão
no ventre da manhã
gestando 
revoluções.

                              Dez- 2025

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Crônica despóstica de uma África viva

astros analfabetos
a riscarem os céus carentes de pássaros
nas trevas poluídas da metrópole
noturna.

NÃO!

adultos jovens e crianças negras
a catarem em suas vidas de desastres
uma réstia do alfabeto
massacrado
pela soberba egoísta
do homem
branco.

                    Dez- 2025

sábado, 6 de dezembro de 2025

Despertar

a lua periférica é vesga
catando passos negros aos tropeções
com vestígios de senzala e dor
entre as fibras ópticas
do progresso.

                   Dez- 2025

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Crua realidade

manicômio para o negro
o viés a inclemência
e o ódio do conjunto da sociedade e suas
instituições corrompidas,
mais as fezes fartas do capitalista.
para o branco
sombra, água de coco
e a paz dos
dias amenos.
uns braços da tolerância,
todo amor e afeto.

                   Dez- 2025

Humilhação

branquitude humilha o negro
desde que o negro é raça.
primeiro veio a exploração dos disponíveis
depois o espólio dos abnegados.
os últimos dos negros da história
não contada.
hoje é o negro com a branca
e os seus afetos de escárnios e fel
sobre o desespero.
e a negra com o branco
a perpetuação 
do domínio dos bárbaros.
sobre a ingenuidade.

                 Dez- 2025

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Madrugada

madrugada autivagante 
eu acordo todo mundo descansante
e saio escuro adentro
                           passo lento
de sonante
          para a realidade da batalha

                        Nov- 2025

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Escola primária

oh deus, o que foi a escola da infância?...
tínhamos todos caderno, lápis, borracha e régua.
em gradações diferentes, tínhamos.
bem ou mau vestíamos e calçávamos.
mas apenas eu tinha a pele negra.
a professora sangue azul
gostava e desgostava de uns e de outros.
mas apenas a mim lançava opressores olhares e palavras.
os livros todos nos levavam ao Novo Mundo,
mundo de príncepes e princesas rosas 
de tão branquinhos.
e eu sequer sabia ver 
a bola de ferro que prendiam
aos meus calcanhares.

                        Out- 2025

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Diagnóstico

quando nasci, nenhum anjo
torto ou reto, de sombra ou de luz, me veio dizer nada.
porém, nasci curioso de mais não poder.
mas na escola, diagnosticaram-me desinteressado.
pego hoje um Drummond e me fastio, 
quase nada ou nada escrito ali me diz respeito.
Drummond é poeta eloquente,
como usa em profusão as palavras Drummond.
talvez, ou certamente, houvessem diagnosticado interesses 
outros que não aqueles oferecido na escola de então
minha veia poética ostentasse a estatura 
de um Drummond?

                         Out- 2025

A São Paulo das sombras

estava bastante sujo
ou era negro o mendigo que lançava olhares
de espanto e desespero para o dia?...
por que são pretos ou quase 
pretos os mendigos que vagam distâncias?
nos cemitérios, nas calçadas,
nos esgotos, 
na Praça da República,
são negros os mendigos que vejo!
o que nem todos veem ou quase ninguém vê, 
envolta por sombra espessa,
é esta ferida exposta 
sob o claro céu 
da cidade.

                        Out- 2025

domingo, 26 de outubro de 2025

Uma doméstica

um bambolear de modelo 
de passarela aprendido nos atropelos da caminhada.
a roupa escolhida no capricho de cinderela negra, do jeito que deu.
um resto de sono imperceptível nos olhos.
preta, muito preta! 
linda, muito linda!
muito alheia às complexidades sociais, espana tudo da mente:
exploração da mão de obra infantil, trabalho escravo,
estatística dos homicídios no país;
notícias que ouviu no rádio às primeiras horas do dia.
espana tudo da cabeça,
lava e seca as dores da vida numa brastemp mordeníssima.
direto d'alguma favela no extremo oposto da cidade,
desponga do ônibus no ar nobre dum bairro fino.
o que ela sonha, impossível saber,
mas ia ligeira ao encontro
do dever cumprido.

                                   Out- 2025

sábado, 25 de outubro de 2025

Pela janela do trem

e essa noite de estrelas 
apagadas pairando nos rincões
da metrópole...

num sopro inerte 
feito monumento à miséria 
dos desgraçados
do mundo, 
a favela equilibra-se.

o que é a noite por lá?
as janelas dos barracos trocando
fios de conversa de porões...

o amor esquálido
de uma mãe repleta de culpa...
a pouca paz entre os
becos, uma ferida imensa
que não cura!?

e os sofisticados 
nós nas gravatas do poder, vizinhos,
pesando sobre esta dor...

                Out- 2025

Pedinte no centro da cidade

40 graus, um grande inferno,
a estufa da rua não tem ar condicionado.
o asfalto sobe-lhe ao rosto, 
cobre-lhe o corpo, não há distinção.
ele não tem onde chegar para descansar a vida,
trancar os olhos, ignorar o mundo.
num sono redentor
e profundo.
fome não sabe o que seja, quer um cigarro,
enseja uma marquise.
para largar o corpo de um inchaço
de decomposição.
defunto que ambula a morte nos calcanhares.
a vida em fragalhos e seus pertences
de pano roto, a roupa do corpo, 
o fundo do poço, 
mais nada.

                 São Paulo Out- 2025

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Poe mar

tirar da palavra o sumo
o somos negros
da palavra cheia de ginga escorregada 
da memória
do aprendido em velhos cadernos de infância
dos livros lidos na madrugada
palavra que dialética pousa na noite insone
duma folha em branco.

e nos becos desta noite 
desesperadamente grande
penetrar mudamente na nudez de cada verso 
e extrair o rumo dos passos desta raça
tão acostumada a curvar-se
diante do rei

                       Out- 2025

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Desamor

tem certas palavras
dos homens que nos governam
que parecem as da 
                        ku klux klan

tem certas caras
dos homens que nos governam
que parecem as da 
                        ku klux klan

tem certas ações
dos homens que nos governam
que parecem as da 
                        ku klux klan

quando será que perdemos 
             o amor
por nossa pátria?

                     Out- 2025

Nos corredores da noite

esta carne nada vale amor
no entanto este desejo não arrefece
da tua boca úmida 
do teu corpo quente
e o que posso fazer são versos
enquanto a noite acentua
este alarido de paredes de senzala
e seus gemidos de dor
já procurei além da noite 
noite que fere qual ferro na carne
mas encontrei uma voz
de medo ou indiferença nos teus olhos
a gritar solidão
o verme virá comer em horas mudas
tudo que pensei para nós
e na garganta do verme estará o verbo
mais a luz de teu nome
a lhe obstruir o ar
só então estarei satisfeito
porque estará tudo acabado 
               para sempre.

                          Out- 2025

Preto de alma branca

este preto que se fez gente
sob os cuidados da mãe crioula se esfolando
no tanque com a roupa suja do patrão
do pai negro deixando a alma
no cabo da enxada
agora cospe na cara da luta dos pais
escarra nos cornos da luta ancestre
dizendo que não há racismo 
nesta pátria amarga
que o negro se faz de coitado
fazendo-se vítima
este preto de que falo
é tão branco quanto a folha
onde teço estes versos.

                    Out- 2025

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Negro existe

quando se pesquisa se encontra
pesquisaram a miséria e encontraram miséria
no ventre inchado dos subúrbios
pesquisaram a fome e encontraram fome 
no bucho cheio da miséria
pesquisaram o analfabetismo e encontraram analfabeto
no seio farto da miséria e da fome
poeta negro só sabia de Cruz e Souza e Machado de Assis
tudo que aprendi na escola
andei pesquisando e descobri que preto escreve
quero dizer que fiquei aliviado e triste
pois fui e ainda estou tomando pé da extensão 
do problema
com o histórico de açoites a manchar
biografias
escrever é ato de bravura
a regra ainda é 
encolher-se

                                Out- 2025

Ser negro

ouvir o rádio
é um tormento para o meu ser todo preto
porque do outro lado
é sempre um branco a falar
com suas palavras 
brancas
o que sequer quero
ouvir

ler o jornal 
é um suplício para o meu ser inteiro negro
porque as mãos que escreveram 
as notícias
são sempre brancas mãos
com suas palavras
brancas
nem sempre íntegras
ou justas

como assistir tv, 
consultar o médico, ir à biblioteca pública,
ao banco, à universidade
ao dentista.
e quase todos 
os espaços públicos. 
é um desafio ser negro 
pelas portas
do fundo
com o mundo
de revés.

                   Out- 2025

domingo, 5 de outubro de 2025

Método

geralmente preto
o criminoso do morro
está a cumprir ordens
pensando ser chefe
e acaba morto ou preso
geralmente branco
o criminoso do asfalto
é quem dá as ordens
e acaba em Brasília
ou no Leblon
não é outro o método
como se estrutura
a sociedade doente
desta nação desigual.

             Out- 2025

Os escravos

comando vermelho pra mim
são corações pulsando 
na rocinha ou alemão
corações sentindo
na cidade do cristo estupefato
não criminosos 
a organizarem-se em facções
rendendo o povo das favelas
com fuzis granadas e opressão
mesmo sob o manto
da dor ancestral
sob o timbre das peles marcadas
esses munidos vilões
são escravos da casa grande
são feitores
a trancarem algemas e grilhões
guardando as chaves nas gavetas
das salas dos senhores.

                   Out- 2025

Não é a cor?

numa Paulista insuspeita
um meio-dia azul 
democrático
eu apenas usava o espaço público
como centenas
de outros transeuntes
deslocando-me
eram cinco policiais muito jovens
sacaram as armas
e como numa Congo deflagrada
abordaram-me
eu não tinha nada é claro
mas ficou a cicatriz
no coração acostumado
com açoites da vida
na negra pele.

                     Out- 2025

sábado, 4 de outubro de 2025

Nuanças

seja mulata seja pardo ou crioulo
sambando na avenida
                        ou no chão de fábrica
não importa o tom da sua dor
se não pode dizer que é branco é negro
o branco gosta 
                       de ser branco
no campo ou na cidade
e o negro tem que gostar de negro ser 
onde quer que esteja
mesmo com este lamento
                           de antigas datas
reverberando na integridade do corpo
isto é negritude
        é isto conciência negra.
libertar-se das correntes de desespero
romper com os elos desta dor.

                          Out- 2025

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O livro

eu gosto do objeto livro
e gosto ainda mais do que ele encerra
em forma de palavras
e gosto mais ainda das palavras
quando elas dizem
em altivas e negras imagens
as demandas 
           e angústias
de meu povo ignorado.

                    Out- 2025

Perspectiva

ouço uma música 
                           que pergunta:
"o que que tem na sopa do nenem?"
na sopa do nenem 
                     tem miséria
desespero de mãe
e uma fome desatada
que vem marcancando 
                          historicamente
com estigmas eternos
o ontem
                o hoje
                            o amanhã.

                         Out- 2025

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Roleta-russa

vejo através desta janela
os meninos do centro da cidade brincando 
de roleta-russa
heróis das angústias alheias
enquanto o burguês curte uma de felicidade
com um conforto surrupiado 
que a séculos vem herdando e vai legar
e os heróis do centro da cidade
estão nus e crackeados
a metropole é um covil de pólvora prestes a explodir
no colo dos inocentes do centro da cidade
cheirando à aids miséria e fome
quem salvará os valentes do centro da cidade
que ostentam algemas no pulso sol de marquise 
e poeira de chão de cela de cadeia
mais dentes cariados e ossos amostra sob a pele?
o burguês que estuda direito
no Largo São Francisco?

                          Out- 2025

Oceano

pacífico oceano
que sob a imensidão és tão imenso
de azul e vida
selvagens águas de lágrimas infinitas
por que permitistes que essas naus obscuras de tantos crimes 
e massacres atravessassem tuas águas rumo à dor
torturante de tanta gente?
por que sepultastes tantos corpos marcados
nas tuas marés?
por que sob o céu cristalino acolhestes no teu seio
homens tão cruéis nos intentos e ações
de mãos assassinas
a subjulgar e torturar tantos corpos negros
no todo e no fim inocentes?
por quê? 
             por quê?

                           Out- 2025

Um estranho

por justiça para meu povo eu brigo
e brigo cotidianamente como os que brigam
por um prato de comida cotidianamente
e uma briga das mais duras posto que com palavras
                          no entanto brigo
e dou a vida por esta briga
dou a vida
mas sou um estranho
           um estranho em minha própria terra
do que vale a palavra dum poeta? 
não apenas dum poeta desta pátria devastada
        mas dum poeta negro desta pátria?
como um Jesus negro é estranho
aos olhos até do mais negro dos homens de cor
                      eu sou um estranho
e é estranha simplesmente a minha negritude
e mais estranha esta negritude é.
                         é estranha minha negritude.
e mais estranha brigando com palavras por justiça 
ao povo negro desta terra.

                          Out- 2025

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Cardu-me

busca-te a imprecisão amarga
de meu verso mulher
talvez atrás da noite que ficou perdida
nalgum tempo que fez-se brisa
talvez neste cardume 
de palavras que é o poema
talvez na imprecisa memória dum instante
e te encontre talvez num tempo
que não há
não pode haver
no fabuloso instante 
de um sonho

                        Set- 2025

terça-feira, 30 de setembro de 2025

13 de maio

13 de maio,
rio sem leito desaguando n'abismo.
13 de maio,
braço de arroio seguindo para o breu.
do ajuste malacabado 
da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas, 
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio, 
apaziguando a culpa 
da cabeça pesada do império.
atando ao passo do escravo a bola de ferro
da própria sorte.
13 de maio, 
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos confinados,
escravos do vento contrário,
13 de maio.

                                  Set- 2025

Embriaguez

destilar no corpo o sabor 
                              de tua boca
produzindo a bebida que me entontece 
                             e embriaga
e no trançar de pernas 
deste amor
perder-me pelas ruas
                    do teu ser mulher.

                          Set- 2025

Os ratos

os ratos periféricos
           alimentam-se de nossos lixos
nossos esgotos nossos
                       restos
quando se tem descarte
         da sobra dos homens pobres
são seres esquálidos

os ratos dos bairros nobres
opulentos bichinhos saudáveis
alimentam-se
            de restos finos
                      da sobra dos abastados
nutrem-se mais que muitos
                  meninos

                      Set- 2025

sábado, 27 de setembro de 2025

Noite alta

o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável 
                       de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
                     o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
                       de nossa íntima 
                                              tempestade.

                        Set- 2025

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Cabeleira

ai ai ai, 
como sofre minha sobrinha
penteando a cabeleira de preta.
fosse ela eu deixava embaraçar e crescer.
mas é uma criança
bombardeada por costumes alheios à cultura de seu povo.
cabelo de preto não tem amizade com pente.
foi um branco quem inventou o pente
como quem inventou escravizar
castigar fisicamente e torturar
prender gente em ferro 
e senzala.

                         Set- 2025

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Uma lembrança

a baba do seu ódio não me afeta
já não podes mais me açoitar com rebenque
nem me agrilhoar no tronco
em logradouros
ou me trancar na senzala.
há uma fronteira que não podes mais atravessar
tendes embora respeitado muito pouco
os limites
entre o seu querer
e o poder.

                            Set- 2025

Senãos

vê-se pelas favelas afora
preto comendo preto pelas entranhas
depois de terem sido comidos
                                               por brancos
também pelas entranhas
por toda extensão da história.

o que deles poucos sabem

mas há um verdadeiro câncer
precisando ser extirpado do tecido social
- e não é o irmão de cor:
o câncer chamado racismo.

                      Set- 2025

domingo, 21 de setembro de 2025

O que os livros calam?

de repente este vento leste
infinitas vezes senti na pele seu furor soprando dos oceanos
trazendo notícias de velhos fatos incógnitos dos livros
soprando a dor latente de tantos séculos esquecida das nações
que dorme pousada na pele de uma raça
os olhos traspirando medo
o corpo muído de exaustão
nos ombros o peso da tragédia
que não apagaram os séculos
e querem contar a história encoberta às novas gerações
as trevas dos mares escondem segredos de antigos flagelos
boiando nas vagas o silêncio de bocas amordaçadas
e a triste constatação:
os livros calam obrigações prementes.

                      Set- 2025

sábado, 20 de setembro de 2025

Quadro negro

      o estudante negro
                      e todos os anseios                      
                                  de universidade
        o estudante negro
e a restrita comarca 
                   das possibilidades
                              o estudante negro
               e a pesada carga 
do morar periférico
                o estudante negro
                      e os graves entraves
                                     sociais 
                e mais a história
de senzalas escravos
e flagelos
         o estudante negro
                    sentindo ainda mais 
   fundo o duro golpe
               dos punhos de aço
                     RACISMO.

                     Set- 2025

Dos prazeres de agosto

não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.

                     Set- 2025

Dor secular

não conheço palavra que depure
o sangue jorrado dos "disponíveis" das terras desvalidas 
           do torrão de minha gente
no entanto tenho nas mãos um livro pejado de palavras brancas
vertidas sobre a desdita que enverga
meus ombros cansados 
                     de argumentos vazios
e mesmo entre as imensas pedras deste muro 
que estorva a liberdade de meus pés pela cidade
recuso-me a servir minha pele em tiras aos comensais 
desta república de absurdos pátria amada.

                          Set- 2025

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Alma - negra -

há uma paz rondando as esquinas
que não contempla meu corpo negro
minha pele imersa nas trevas
quando invisto em livrar-me de estigmas
legados a mim por um pacto
                                              obscuro
fronteiras de quintais invadidas
mares sangrentos de um macabro mercado
de necrópole das marés às margens do mundo

eu digo irmão:
não há perdão no vale atrás das montanhas
lá onde todos plantam e colhem e comem
idealizam constroem e moram
sofrem alegram-se e amam
em comunhão com a branca manhã
que rompe feliz
entre as grades do peito
coração quilombo.

                    Set- 2025

Cotidiano

sempre um poeta nas ruas assombradas
da cidade arruinada
e mãos de mando nas luxuosas salas de vidro
a produzir gordas rendas do arsenal de mãos operárias
o poeta num banco de praça lamenta o espetáculo bufo
- a vida pra lá deste jardim é triste.
                                    e obedientes ovelhinhas 
a cumprir expediente nas repartições
nos escritórios nas capitalistas engrenagens
de desigualdades
o poeta recolhe o chapéu pousado no banco da praça
guarda os papéis na bolsa de couro
e parte cabisbaixo com tantas misérias
pra encaixar no poema que tece sob a crespa dor
                              do seu dia de cão.

                             Set- 2025

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Uns olhos

ei,
irmão de pele anseio e adversidade
rebento da incerteza
                          entre as feras
                      daqui é possível te ver inteiro
esta cristalina pureza 
nos teus olhos
que mesmo na sorte são verdes ou azuis
antes é a grande expectativa
                                            pelo acerto almejado

expectativa geral

digo-te, 
há um quilombo no fim de cada esquina
da cidade tormentosa.
mesmo sob a vontade de nos querer enredar
neste novelo de insanidades.
e em nosso quintal um tambor 
à nossa espera.

                          Set- 2025

Se há conselho!...

toca tambor moleque toca tambor
que teu caminho é cheio de pedras e obstáculos
toca tambor que tua pele é negra
e tambor uma universidade
toca mas seja amigo das letras
toca tambor que tambor não é utopia
feito o almejar de toda a raça
toca que Ganga Zumba chega à pele fatiada em tiras
toca que Zumbi chega ao aferro e sangue vertido
toca que este som é o som de cratera do poeta
não de esquecimento do inimigo
tira do couro toda a luta de uma raça
toca que tambor é território livre de canga
é teu Palmares moderno
toca tambor e seja amigo dos livros
que o livro é uma placenta que se rompe
e o tambor a mãe que ensina educa e cuida
no seio deste encontro só nosso.

                             Set- 2025

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Refleções

o que eu quero tirar dum copo
se sou todo estilhaços de vidro nesta cadeira
e pensar que teus braços são muito mais confortáveis 
que este frio balcão de bar
a noite a escorrer-me por entre os dedos

mas senãos gritam sob o dilema que se desenha
fria e infalivelmente no pensamento

ser negro é olhar com muito mais cuidado
as ruas desertas por onde entram e saem os desejos
para sopesar na solidão de quatro paredes
o enredo de um encontro fortuito.

                                Set- 2025

Meu segredo

aquela sede de lábios
como a tirar-te da boca o ser inteiro
aquela fome de amor na carne
como a privar-me dos sentidos que a razão impõe
tudo isso no instante impreciso de um
corriqueiro - bom dia! 
de dois colegas de escritório.
nos becos da cidade
agitada.

                     Set- 2025

Ars poética

quando tua ausência se faz
e a noite embebida em silêncio e desastres
a bafejar seus fantasmas de brisa
desafia minha ars poética

a noite é uma abstração indefinida
do teu corpo desnudo
teu beijo escorrendo dos lábios 
a tisnar minha camisa

a aridez do papel inquisidor
e o desafio escruciante de inventar-te 
em versos conexos com o desejo
e você ainda assim se ausenta

indiferente à minha dor de poeta

                     Set- 2025

Desejos represados

aqueles toques agrestes no teu corpo
que as mãos indecisas e ainda jovens doaram
não foram sagrada música entoando liberdade
em noites de antigos cativeiros

foram desejos represados
                   de um cotidiano ausente 

e as cartas que eram para ser de amor
são avulsos bilhetes imaginados nalgum tempo
para lembrar-te
                   -como fosse necessário-

que teus beijos são inesquessíveis e as chaves
precisam estar sob o capacho da porta.

                     Set- 2025

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Artérias abertas

terra indígina sangrando
artérias abertas no brasil extremo
protesto indígina 
                frente ao planalto

ouro escoando pelas
fronteiras

hipocrisia parlamentar
conchavos negociatas propina
e a bunda opulenta
              sentada sobre a taba

                       Set- 2025


Crônica de Brasília

o poder em Brasília
roendo até o osso do erário
            a soma da magra
renda operária

o poder em Brasília
              engordando o gado
para próxima feira
agropecuária.

o poder em Brasília
sem nome sem rosto ou digitais
            engordando o gado
com a gorda conta
bancária

                  Set- 2025

Esquinas

as ruas aliciam jovens
em papelões sob as maquises
                         doendo

as ruas seduzem jovens
              até a próxima esquina
rasgando a pele
                  pelos ossos.

                   Set- 2025

domingo, 7 de setembro de 2025

Escolhas de cativeiro

o sequestro do meu corpo quilombo
pelos tremores de prazer do corpo teu
ganhou-me naquela noite amena
pagou-se o resgate
mas cativo dos teus desmandos
não quis a sagrada liberdade
um corpo negro é talhado de muitos nãos
desenganos e desencontros
mas é consagrado no amor por escolhas
como um corpo que não sofreu
cativeiro na história
se escolhi o calor dos teus braços
considere a licitude desta inacabada 
crônica do nosso encontro
fato consumado e imutável de amor.

                      Set- 2025

Swing da cor

depois de tanto fragelo e senzalas
de tantos estigmas e eitos
a dilacerar a alma em angustiadas noites
não descansei nas lavouras
nas lutas e revoltas
na macumba dos quilombos
sequer descansarei meus domingos
com televisão futebol
igrejas ou carnaval
eu quero pena capital ao opressor 
de meu povo gastigado
gozando do fruto do sangue ancestre
em tardes de sol churrasco 
e whisky nas piscinas
das mansões dos bairros nobres
com cheiro de cadáver 
apodrecendo de cada pele negra
em lanhos fatiada
há 500 anos de uma história encoberta
com verniz de legalidade.

                        Set- 2025

Eu tenho uma história

não a quero nesta noite
turbulenta de sirenes tempestade e caos
na cidade sitiada de pássaros e escuridão
não quero a farsa de mares
nunca antes navegados
quero a verdade dura dos nativos da terra
quero conhecer teus abismos
das janelas de teus olhos
e abrir-te os portões deste corpo quilombo 
para servir meus segredos
num banquete de boas-vindas
você não merece
a superfície falsa de terras inesploradas
tenho na biblioteca da pele
pinturas rupestres
que remontam a tempos de descobertas
para um mergulho fundo
na história represada
do latifúndio do meu ser amadurecido
ostentando pedras das tantas ruas
na memória dos sapatos.

                        Set- 2025

Desejo

não, eu não te quero perto,
de segunda à segunda por todos os anos
que me restam de vida,
à meia distância dos meus humores carnais.
percebendo meus dilemas íntimos
numa sacada de olhar.
eu te quero dentro,
feito a estrutura esquelética
que minha carne penetra pelos poros
numa complexa engenharia.
não quero simplificar.
falando assim talvez entendas
que esta distância de quilômetros
de asfalto e céus
esgota o ânimo de meu corpo guardado 
para desfrute dos teus sentidos.

                   Set- 2025

Livro sagrado

não pude ler este livro na íntegra
instigante livro inacabado
por uma noite passei meus olhos por suas páginas
noite especialmente saborosa
deixei-lhe nalgum canto que não encontro
talvez seja sua nudez secretamente indevassável 
por olhos com urgência de iletrado
por timidez congênita talvez
refiro-me a um livro corpo mulher
fechado em sagrados rituais de terreiro

                  Set- 2025

Fagulha

entre o dever e o fogo
de nosso encontro
perdemo-nos no remoinho de gentes
e a fria carnadura da cidade
fomos mais as regras das obrigações diárias
a nos ditar o ritmo da vida
e a chama ardendo cedeu prematura
mas sob as cinzas
restou a fagulha que quando menos 
se espera havendo lenha 
em fogo se torna
e nosso encontro incendeia
e passamos a viver 
um no peito do outro
perpetuamente

                   Set- 2025

sábado, 6 de setembro de 2025

Velhas crenças

segundo todos os indícios
não houve libertação
apenas uma farsa mal acabada 
de abolição.

que atrela o negro
à penúria de possuir a pele negra.
de atar o indivíduo à mesma 
danosa sorte.

que faz de gente besta
a chafurdar migalhas de existência
em mofados currais ungidos
de velhas crenças.

                    Set- 2025

Rapsódia rap

de parto negro
                    em parto negro
testemunhei muito corpo negro 
-em peripécias periféricas-
                           partir num rabecão.

aí me dizem:
olho por olho e acabaremos
             todos cegos!

mas quando olho 
as estatísticas
e perscruto vivências pra estes lados
onde é que a faca fere 
                     muito mais fundo 
a serrar as pálpebras?

as mesmas pálpebras
                          de histórias
e tonalidades idênticas
das mesmas balas assassinas
às mesmas sinas.

                      Set- 2025

Escravatura

alforria consegui nos tribunais
em tardes de tensas deliberações
protestos e discussões
mas de liberdade
gozei apenas no ventre de mãe África
de onde fui capturado e trazido
e por arrobas vendido
e jogado em frias senzalas
nas terras de homens sórdidos
com sede de ouro e posses

                        Set- 2025

Histórias de terreiro

no couro do tambor 
sons d'África a descontruir estigmas
que vem trazendo de longe a raça
plantados à traição na pele
pra disfarçar enganos
vieram contar histórias de abolição
mas não desceu a farsa
goela abaixo
porque tambores d'África de livres sons 
de trovão 
batuque em couro forte
desenham em noites de terreiro
a verdadeira história
de meu povo
e as digitais no couro
gritam liberdade

                   Set- 2025

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

As angústias de um negro

as angústias de um negro
são os fantasmas de um tempo cruento
ainda vivo na memória do corpo
tempo de ferros e ferrugens

as angústias de um negro
são os estigmas de vergonha nos guetos da pele
cicatrizes do parto das sujas violações
marcas da falência nossa

as angústias de um negro
é abraçar o dia a dia naturalizado nas sombras
tranzido com a farsa a sugar-lhe o sangue
a fazer-lhe natureza morta

gingando a sorte a escapar por um fio

                           Set- 2025

Porque hei de lutar

porque hei de lutar
mesmo usados muídos pilados vendidos trocados
como diz o bonito jongo
porque hei de lutar
mesmo depois de bombardeado no íntimo
pelo ocidente sem qualquer pudor
porque hei de lutar
mesmo depois do ensino fajuto
do alimento mirrado da condição de subempregado
da liberdade vigiada
da maturidade tardia do amor à míngua
da cachaça engolida contra vontade
das pedras brutas na história de meus ombros
eu hei de lutar hei de lutar

                      Set- 2025

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Por conta e risco

não fui à universidade para além de constatar
meu lugar do lado externo de seus muros.
não cheguei, nas minhas andanças,
além das linhas de limite da placenta a muito apodrecida.
prova cabal que fui concebido,
gestado e parido, mesmo que dum ventre negro.
este ventre que escapa a vis afrontas.
hoje resta-me o vulto a palmilhar os chãos da cidade,
por conta e risco de minha sorte esquálida.

                                     Set- 2025

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Porque sou negro

das senzalas às avenidas
viadutos e arranha-céus de sangue negro
forjou-se a cidade que hoje estranha-me.
e o próprio país, no seu porte
robusto, tem timbrado 
na sua história, sangue escravo.
e sequer me sinto
acolhido onde quer que eu vá dentro
da terra natal.
em cada pedra do chão onde piso
reconheço-me mendigando
uma paz que não encontro, onde eu possa
me alargar, e fazer parte
do entorno por onde me desloco,
onde eu possa sorver o ar
e livrar-me da canga pesada
a tolher-me o ser.
meu refúgio neste lugar onde me fiz,
nesta nação onde pensei
ser minha casa, é nas páginas de um livro, 
quando me encontro só
junto a meus dilemas, 
resolvendo minhas dores e alegrias, 
(poucas são as alegrias), 
nesta sociedade engatinhando.

                            Set- 2025

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Mais um dia

lanço-me à rua toda manhã
indagando, por que toda roupa que visto
não me cai bem?
é uma atenção da polícia
um puxar de bolsa pra frente
um subir os vidros dos carros
e um céu azul anuncia um dia democrático
não fossem as sombras
dos homens assombrando
os caminhos por onde entra e sai
minha boa fé no mundo.
não é capitalista minha fé, mas sigo a turba
mesmo discriminado, 
porque o pão está caro, e sobreviver
cobra seu preço.
e meu coração é uma pluma
que voa ao vento e plana e cai na grama
mesmo não encontrando
motivo pra tanta leveza
neste ar carregado
da metrópole.

                           Set- 2025

Meus sapatos

meus sapatos já envergados
pelos cantos de tantas pedras e chãos
arrastando o peso das minhas angústias
trazem no seu mutismo
notícias deste teatro de bonecos
que de norte a sul
arvoram-se a devastar
profundamente cada alma que tem um sonho
com sua artilharia de guerra
aposta para o genocídio
dos condenados desta terra
olho com olhos de tristeza esta comédia bufa
que leio no seu couro exausto
e já desenganado adormeço as mágoas
sob as palpebras cansadas

                                  Set- 2025

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Boas-vindas a um negro

havia gritado a plenos pulmões
milhões de vezes liberdade
e como no poema
não parei de gritar não parei
também evoquei Zumbi para guardar
as entradas de meu corpo frágil
mas escutava apenas
minha própria voz num eco
e de chapéu no chão
corpo prostrado sobre um sangue coagulado
sangue dos ausentes da guerra
desesperava-me
quando do outro lado da rua
uma cruz em chamas aterrorizava
num descampado
nos galhos fortes da única arvore
uma forca jazia em silêncio
pensei estar sob efeito dum sonho mau
mas não era sonho
era o vil cartão de boas-vindas
à sociedade "moderna".

                    Set- 2025

Cotidiano

a cada dia ao despertar 
eu acredito na vida
apesar das toneladas de rancor alheio
que carrego sobre os ombros
competentes no intento
fizeram tudo
sob o manto secreto da noite silênciosa
sob cada pedra do caminho
por onde me desloco
deslocado de tudo 
escancaradamente adverso
em cada esquina um olhar de esguelha
a cada rua onde vai meu passo
já cambaleante
a desconfiança a vigiar cada gesto
que natural me escapa
já não tenho destino
que talvez fosse um bar ou biblioteca pública
onde depositar os fragmentos
das certezas tortas
de cada olhar que atravessou
minh'alma tão inutilmente
obstinada

                             Set- 2025

sábado, 30 de agosto de 2025

Olho por olho

meu verso não ostentará leveza de pétalas.
não sei enfrentar uma guerra com cravos e rosas.
porque sou um negro, 
                     numa estrutura social adversa.

                          Agos- 2025

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Quilombo da palavra

a palavra é o meu quilombo
onde liberto da servidão cotidiana
exerço o direito à expressão
e passo a ter voz ativa
que protesta por um lugar ao sol
antes negado
usurpado a mãos de aço pelo opressor
protesta por "chega!"
ao assassinato e encarceramento
de tanto irmão
protesta por direito à minha crença
sem sofrer violência
ou discriminação de qualquer ordem
por meus direitos fundamentais
direito de ser negro
sem ser oprimido subjulgado ou relegado 
à categoria de casta inferior
direito de escolher
onde e como vou construir e usufluir
de minha vida
e escrever o exercício
de minha cidadania como quem ama 
o mocambo onde habita
e abre a porta para a manhã
entrar toda azul.

                    Agos- 2025

Conto de fadas

depois de quase 400 anos de flagelo 
os negros acordaram livres
era a abolição
depois de tantas mortes
em revoltas fugas e quilombos.
mas significava este gesto 
o início de uma luta diuturna e sangrenta
para disvencilhar toda uma casta
de homens e mulheres
da bestialidade
da subcategoria de seres humanos
a que foram atiradas
estas pessoas da pele negra.
e a veda desta sangria
de abnegação
parece não existir parece conto de fadas
contação de estória para entreter
no país do mito da democracia racial.

                            Agos- 2025

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Irremediavelmente

a eterna chibata
marcando profundamente minha carne
indefesamente negra
e o trauma profundo 
na estampa de meus dias
prostrando-me

o cárcere eterno
deixando estigmas profundos
na biografia do meu ser imutavelmente negro
irreversíveis nódoas
que desfazer e reparar 
não posso

que tisne minha história 
com os mais obscenos enganos
livrar-me-ei de toda chaga e governarei o mundo
pelo bem dos oprimidos
e sua remissão
racista

                          Agos- 2025

Emboscadas

fui calado em minhas demandas
por lanhos na carne e destroços na alma
mas parti as correntes
e me libertei das atrocidades
da escravidão.

mas inventaram
uma segunda classe de humanos
eu estava novamente subjulgado a outro humano
mais uma vez introduziram algemas
grades e correntes.

à trama silenciosa e sofisticada
implicaram-me dia após dia no passar dos anos
apesar da luta organizada de meu povo.
são visíveis as cicatrizes
e os farrapos d'alma.

deste ardil ainda sou cativo
mas virá o dia que de uma vez por todas serei apenas
um cidadão livre de fustigas e armadilhas
NEGRO, mas mais um cidadão livre
das emboscadas racistas.

                              Agos- 2025

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Banto

eu não falo banto
senão meu negro pranto
não teria este
amargo gosto de ocidente.

               Ago- 2025

terça-feira, 29 de julho de 2025

Araponga

E a negra pra os mares
Seus olhos alonga;
No alto coqueiro
Cantava a araponga.

              Jul- 2025

terça-feira, 22 de julho de 2025

Poeta Oliveira

                             a Oliveira Silveira em memória

poeta negro misto 
de cor mista afro singular
da terra de Rosário do Sul, Touro-Passos,
na Serra do Caverá.
rascunha ao pé da folha,
a forte punho negro rebusca a língua,
desdobra o verso, 
ecos de tambor, cantar.
cantou de Palmares 
à cultura popular,
dos trabalhadores aos orixás.
e no banzo da gente negra também foi África.
o mundo está na extensão de sua obra
legítima consciência negra.
poeta negro misto,
rabisco no solo brasileiro
rebentando em arte, vistoso baobá.
messageiro exu bará.
quem dera fosse meu este estro poeta.
tramando a sua próxima
nos braços
de Oxalá.

                            Jul- 2025

A história conta

o patrão 
e seu condomínio de luxo
à base do lucro com a mão de obra
operária
o trabalhador e seu barraco
na favela nos extremos
da cidade

averigue a história 
há 500 anos e não precisarei dizer
quem tem a pele branca
quem tem 
a pele negra

                         Jul- 2025

O coração

uma pedra é apenas uma pedra
de aspecto frio e superfície dura
restringe-se à inércia
de ser pedra

já o coração
pulsante no peito do homem
expande-se matéria viva 
e sentimento

e sob qualquer argumento
quando este se reverte em pedra
e de ódio se abastece
é apenas queda

que se abisma nas trevas
e desfortalece

                    Jul- 2025

Sentir

porque da flor
a gente tira a beleza das pétalas
e o cheiro que exalas
gratuitamente
e nenhuma antítese que lhe enfeie a natureza
mas do homem além da beleza física
e da arte que é capaz 
de produzir
encontra-se arraigado no seu ser
o racismo por exemplo
o ódio ao igual
que se distingue apenas
pela cor da pele

                           Jul- 2025

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Consciência

esta casa
o sangue e o tempo de meus pais
onde encontrei um teto
já armado
onde encontrei
fechados
os portões das universidades
não é senzala
não são porões dos negreiros
onde houveram crimes vis
mas aqui encontro
os ecos
das vozes ancestrais
e seus apelos
sambando nos holofotes
da consciência
emparedada

                          Jul- 2025

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Educação

a escola que eu vejo
é a do escárnio ao público
sevicia o professor
e afugenta
cedo o aluno 
no país da opulência
às elites 

                   Jul- 2025

Linha de frente

meu mocambo no quilombo
é mocambo simples
tem milho cozido farofa e peixe
tenho o corpo fechado
na umbanda
primeiro guerreiro de Ganga
pra matar e morrer
sou linha 
de frente na guerra
contra branco tirano
senhor 
de 
terra

                Jul- 2025

Negro escravo

por que eu tenho 
que arreganhar os dentes 
num sorriso
se sou negro de ganho 
de moenda
e arado?

              Jul- 2025

Negra Carmelinda, minha avó.

pude ver a minha avó
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão

pude ganhar um afago
raro afago posto que dura a luta
de suas trêmulas mãos 
anciãs
mãos de quem foi escrava na vida
mesmo muito depois 
da abolição

a canga sobre os ombros
fez dela uma velha de corpo curvo
os olhos enevoados
refletiam a tragetória madrasta dos passos
e a pouca fé no homem 
que governa

negra analfabeta e muda
eram discretas as suas estórias de vó
a favela era o seu quilombo
e a maior agressão

sua pele era negra
a pouca liberdade era negra
a vida era negra

                     Jul- 2025

terça-feira, 8 de julho de 2025

Leis impostas

ruas escuras do gueto
por onde passa dia após dia toda a minha
angústia
de onde saio pro mundo
e me vasto
mas sempre volto
preso às leis impostas à minha pele negra
porque em vez de pontes
encontro muros

                           Jul- 2025

Aguda discrepância: um sumário.

ponta de faca do feitor
captura na tocaia cepo pelourinho
trágica morte na forca
negro de ganho
cachaça roupa urinada boca cariada
lambida por cachorro de rua

e o senhor acumulando
pesada fortuna

negra mucama lavoura
roupa no rio lida pesada na casa grande
criança senzala adolescente
nos engenhos 
estupro banzo de velho na enxada
ama de leite engordando
rebento de sinhá

e o sinhozinho estudando
no exterior

favelas extremos confins
presídios homicídio analfabetismo indigência
desemprego mendicância
no heterogênio tecido 
social a mesma aguda discrepância
viajou no tempo:

a riqueza é toda branca
e toda negra a tragédia da miséria.

                     Jul- 2025

O que fez o negro

vai na direção dos guetos
o negreiro cinza dos poderosos da pátria
pegar negro no tapa ou no tiro
muitas vezes 
os seus iguais na cor 

o que fez o negro
pra merecer a canga o cepo
o antolho
os muros que lhe tolhem o acesso
aos espaços de poder

o que fez o negro
pra merecer a mordaça as algemas
a máscara de ferro
as grades que lhe estorvam o direito
às posições de destaque

fato que nem mesmo 
nos guetos
o negro tem a paz dos dias amenos
sempre em sobresalto amarga 
a mão pesada da tirania
sob a égide das leis

                        Jul- 2025

Há de ter coragem

há de ter coragem 
de palmilhar o chão do senhor de terras
e não se rebelar por parte 
do latifundio

há de ter coragem 
de não sujar as vestes no tronco 
dum pelourinho covarde
tomado de gente

há de ter coragem 
de não dobrar os joelhos carregando 
pedra imensa serra acima
sob sol a pino

há de ter coragem 
de não comer em louça fina 
o coração do senhor de sua gente
numa revolta escrava

                         Jul- 2025

segunda-feira, 7 de julho de 2025

O que é do negro

o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado
por mortal afronta
à vida indefesa na hora do parto
                    a prostrar qualquer homem
                    no âmago ferido
                    
o que é do negro
rendido à força de um tiro grosso
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
                    atirado à terra seca da indigência
                    sem porvir que prospere

o que é do negro
humilhado antes que conheça a guerra
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
                     ao poderio da artilharia da raça pura
                      sem miscigenado apelo

o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro

a flor que nasce na pedra
não encontra adubo que a dissemine
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
                      lutando por um escape
                      que o liberte destas algemas de dor

                     Jul- 2025

A cor do racismo

por que não me estarrece 
a cor que predomina
eurocêntrica cor enraizada
de sólidos alicerces entranhada
nos lugares de privilégio
em toda parte
por todo canto onde há destaque
onde há posição
um corpo branco pulsando vida
resguardado
escandalosamente inserido
na melhor das hipoteses
radicado no tecido que se quer justo 
que se quer isento
de qualquer mácula que o tisne
de qualquer nódoa
um corpo branco que colhe fortuna
bem-sucedido exitoso
florescente
sobre a sorte desfavorável
dum corpo negro

                    Jul- 2025

dos que me desentranharam

sei quase nada dos meus avós
nada dos meus bis 
e tataravós
dos meus país sei que sofreram e lutaram
pra ensinar educar alimentar e vestir
mas não preciso conhecer a história
da linhagem distante dos que me desentranharam
para saber
que sofreram aferro angústia flagelo
que foram marcados
a ferro em brasa
capturados vendidos enforcados
e uma série de graves afrontas
e humilhações
que reverberam no homem no poeta nos versos 
que agora lhes apresento 

                     Jul- 2025

Poeta do povo

um dia a máscara cairá
virá abaixo o escárnio da distinção do homem
ouvir-se-á nas bordas nos quilombos
nas favelas nos confins os mais distantes
o grito descomunal dum peito ao extremo oprimido
confins de nossas adestradas gentes
graduadas na tv de meias verdades e foscos argumentos dos mais iguais
reverter-se-á a miopia do povo humilhado
através da voz ostensiva da poesia
do poeta do povo

                        Jul- 2025

domingo, 6 de julho de 2025

As armas a prata o trono

não amargo cárcere
nas sujas senzalas de então
nem estou nas lavouras nas moendas
ou nos engenhos
muito menos sou negro forro
nasci livre à custa da luta ancestral
mas sinto o peso da pedra
pedra de erguer muros
de construir passagens aos bens
do patronato branco
livre sou até que marcado de cicatrizes
ceda meu corpo ao açoite diário
da exploração
da opressão e do escárnio
que explícitos impõem-se pela força
sob o império descarado
de uma cor que se distingue se exalta
se jacta de um poder usurpado
a braquitude tem as armas
a prata o trono
o negro trabalha se esfola se extingue 
eles usufluem apoderam-se
perpetuam-se exclusivos donos
de entes adestrados

                     Jul- 2025

New racist

ah sim, negro é lindo!
mas é artigo que se pesa em arroba
minha filha jamais estará metida 
nuns braços negros
e meu filho é educado bastante para estar com uma negra
mas sim, negro é lindo!

negro é lindo
mas foi vendido no mercado negro por patacas de ouro
em insalubres logradouros
e minha estirpe é pura 
não admite mistura que a tisne a alvura
mas claro, negro é lindo!

negro é lindo
mas urinou e evacuou nas vestes em público
pendurado no tronco feito charque
que ao sol se curte
e tem na essência o costume do cárcere
argolas e golilhas
mas certo, negro é lindo!

ah sim, negro é lindo!
e a sociedade precisa do negro
mas não metido nas escolas universidades e nos lugares do branco
tem negro hoje até nos parlamentos
cada qual no seu lugar
negro sim nasceu para chibata
está no DNA.

                         Jul- 2025

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Aonde poesia?

e nuvens flainam
e folhas adejam à brisa
um negrinho chuteira extinta
chão pé e poeira
trama a fama adversa
assistem incrédulos os esfarrapados
quase se exime a favela
diante de tanto risco tanta fome
nas faces o abandono
será viável o impossível
se nem o mínimo
se nem se aprende se nem se come
e mais um cadáver grita
indiferente à atmosfera que paira
do moleque que acredita
e desfalece a poesia
inerte à realidade explícita
o dia mais azul é cinza
amarga a escrita

         Jul- 2025

domingo, 8 de junho de 2025

A chaga não se apaga

a chaga não se apaga da noite pro dia
não se apaga a chaga incrustrada por séculos
como lanho de couro no lombo
não se apaga a chaga dum crime sob a égide das leis
um crime viajado no tempo que nos atinge
e fere de morte nossos teres e haveres
neste circo sem lona e sem público
neste tecido esfarrapado e sujo
a chaga não se apaga
não se apaga a chaga e vivemos como artigo de segunda 
ignorados no fundo do estoque
pegando poeira e traça com o pior do pior
e nó na garganta nuvens nos olhos apagados feito astro que expira 
num céu de ofuscantes estrelas
a chaga não se apaga não se apaga a chaga

               Jun- 2025

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Signos e sombras

                                                        Para Mariana

letra livre
escrita isenta de jugos
alforriada pela silenciosa e tenaz labuta
Ítaca a barlavento rasurada 
de horizontes e mitos
chega a ser

São Franciscos Ganges
Tejos Eufrates Senas Hudsons Nilos
correm na grandeza 
do protesto das tuas arejadas
palavras

teus livros estão em ti
como ruas passadas na história
dos sapatos que mudos possuem apenas 
indícios de antigos passos
é evidente

tuas janelas 
escrivaninha tapetes 
estantes xícaras cortinas cadeiras 
desesperadamente vazias
apenas o grito mudo do teu espectro existe
envelheceste e agora escreves 
o teu ocaso

eu temo o tempo
em que o sol desfeito em cera
não mais ilumine a treva 
dos séculos
e que a imagem tua
que me cobre de ternura
seja apenas sombra

   Mar- 2021

quarta-feira, 9 de abril de 2025

No jazz da noite

choroso sax no jazz da noite
os livros espreitam à espera que os abram
no instante de nenhum açoite 
além da aflição pressentida
a solidão desenha contornos que aprecio
é amiga a solidão consentida
o brio do estro e a palavra no cio

não obstante o destino 
com olhos de lince e garras à mostra 
observa com aguçado tino
o desafino do homem em poeta
consagrado asceta na lida do verso
a alma acessa o complexo
amplexo da vida no instante diverso

mas será o homem completo
se a sina de compor o verso é única sina
se o poeta é todo ele e ele discreto
se quem manda é apenas o poema
a compor toda a vida por lei e decreto
questões que são dilema
o poeta é homem o homem poema

       Fev. 2021

Miragem

corpo mulher miragem
retido das retinas à memória
dono de insondáveis terras
latifúndio do coração
posse única do poeta amador

talvez outras vidas
noutras lidas do amor

plenilúnio que entoa 
sagrado timbre d'estrelas
astro profano que reverbera
fenômeno ou vida
banha o poema de ardor

será a natureza
no tempo de esgalhar a flor

suspeita vasta ramagem
mas era miragem era miragem

          Fev. 2021

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Doces bárbaros

cuida desses meninos poeta
que romperam o ventre materno com asas
quebradas 
e jamais voarão
que deixarão cedo o seio da família
pra jamais...
quase todos com a noite pousada na pele
cuida desses meninos...

cuida desses meninos poeta
que vão se abrigar sob as marquises
disputando um palmo de chão
sem cama cobertor
ou colchão
assoprando com o pensamento as estrelas
e com as palpebras apagando a lua
cuida desses meninos...

cuida deles poeta
debutando no furto no roubo e no pinote
que portarão estiletes armas de fogo e drogas
que serão vendados amordaçados e torturados
pela polícia que não dorme em serviço
e acabarão em celas sujas e frias nas instituicões
de correção de menores
cuida desses meninos...

cuida deles poeta
que a escravidão ainda não acabou
e o sistema se encarrega de todos os petrechos
de tortura e opressão
dos negreiros senzalas e pedras que se carregue nos ambros
cuida!...

cuida poeta
que a favela é muito pouco
e a rua o tanto que lhes cabe dessa vida desgraçada
que o alimento é o travo amargo na boca
de cola de sapateiro e crack
e as vestes os trapos sebosos que os esquentam do relento
cuida deles poeta...

faça o que decretos leis estatutos ou políticas
não lograram fazer...
cuida poeta...

trata deles no teu poema reclamando
o que jamais haverá
que a força dos teus versos revigora suas asas inúteis

                   Fev- 2024

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Com urgência

meu silêncio
comunica-se com o seu
dentro
                        de nossa noite

mas virá o dia
esse meio-escuro dia que há
do nosso encontro
              abismos
e nos amaremos com urgência
nessa estranheza
                   infinito desejo

                    Jan- 2024

quinta-feira, 13 de março de 2025

Quando ouço um blues

quando ouço um blues
vozes ancestrais falam em mim
raízes de tempos remotos
só então reconheço minha própria voz
que emerge de um recôdito
onde o ferro grita
nas trevas de meu corpo marcado
quando reconheço cada cicatriz
que tento ocultar sob as vestes
e explicarei apenas
aos que compreenderão os motivos
então entendo
as correntes dissimuladas
os embustes que utilizam os mercadores de gente
a minha própra ignorância
então tomo ciência dos próximos passos
minha luta passa a ser questão
a honra cavada com as unhas
a prole distante do ferro
das crueis artimanhas dos donos de gente
dos quais ainda sou cativo
quando minha arma é a palavra
a síntaxe do poema suado
as metáforas escavadas da pedra
quando a voz são vozes nas lavouras do peito
então me liberto
crio minha própria abolição
deixo de ser escravo dos senhores da casa grande 
entro na posse do meu destino
quando ouço um blues

                   Dez- 2023

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

O que Será- Milton Nascimento e Chico Buarque ao vivo no youtube. Em qualquer circunstância esses dois valem muito a pena, mas eu conferiria esta obra-prima da MPB neste vídeo.

A casa das três senhoras

Todos haviam partido. Pelo menos todos que vieram antes. Vivas apenas as filhas e suas famílias, mas viviam distantes. Eram filhas de apenas uma delas e sobrinhas das outras. Falo de três velhinhas pretas feito carvão. Três irmãs na vida e nos costumes. A casa era simples e sempre a mesma, construída por seus pais no germinar da comunidade. Sabia-se pouquíssimo, quase nada, das três solares e diurnas velhinhas. Eram uma imensa incógnita para as gentes do povoado. Insuspeitas, ninguém previa nada demais no comportamento das três. Passaram toda a vida praticamente despercebidas de quase todos ali. Sabia-se que amaram, que sofreram, prosperaram; uma delas fora até professora na rede pública de ensino. Viveram, sempre reclusas em si mesmas e na casa. Tinham sempre os mesmos hábitos e, personalidades muito tímidas, andavam sempre retraídas. Viveram sempre muito tristes e cabisbaixas desde a morte da mãe, ainda em suas juventudes, jamais superam a grande perda. O pai que nunca se casou depois da partida da esposa tinha sido em vida o grande esteio das três. Gerações e gerações os Pereira da Silva, era este o sobrenome das velhinhas, nunca tiveram posses, haviam notícias até de escravizados na família no tempo do Império. Como já dito, elas eram indiferentes para quase todo o bairro, mas havia uma outra família que as notaram, sobretudo na figura de um dos membros que amou desesperadamente a professora, irmã do meio, contudo a história deu em nada pois ela odiava aquele homem atrapalhado que a cortejara num tão sem jeito que a história toda havia beirado o absurdo. Nossas heroínas viveram fechadas como fechadas morreriam. Gostavam e cultivavam pequenas plantas em vazinhos de louça, e também apreciavam cachorros, não obstante há tempos não tutelavam nenhum depois da morte do último, o Théo, apenas a mais velha costumava alimentar os cães de rua. Tudo havia passado e estava sepultado na vida das três, coberto por uma espessa camada de pátina de uma vida distante no tempo. De maneira que eram religiosamente autômatas criaturas que subsistiam dentro da casa das três senhoras como era conhecida aquela velha morada muda, soturna, mas cheia de histórias de um tempo que jamais voltará. Viviam de pequenas coisas e amenidades. Nesta rotina minimizada sem novidades e nos seus próprios mundos que abatera-se sobre as três lindas velhinhas, uma tristeza crescente abrigava-se nos bons coraçõeszinhos das nossas personagens. Já não tinham força para viver, para solucionar o mínimo esforço que demandava três vidas numa casa, estavam mais a abandonarem-se ao mundo que deixavam transparecer. Não se sabe como nem quando decidiram isso, mas uma tragédia abateu a manhã daquele outono de folhas caídas daquele ano, as três velhinhas haviam amanhecido, naquela amena manhã de sábado, mortas cada qual em seu quarto. Esta inesperado notícia chocou a todos da comunidade. Não tinham desprezo pela vida, mas laceravam-lhes o coração a solidão, o vazio, a dor de tanta perda e tanta renúncia que lhes impulseram o tempo e o destino. E decidiram o que vieram mastigando vagarosamente e em detalhes durante todos esses anos de sofrimento. Eliane, a irmã do meio, viúva e sem filhos encarregara-se de tudo, não sem antes combinar em detalhes com Márcia, a mais velha, solteira e também sem filhos e Elaine, a mais nova, viúva de alguns pares de anos do grande amor de sua vida e pai de suas duas filhas. Descera então à rua do comércio, a poucas quadras da casa e adquirira o arsênico clandestinamente, substância letal que provocava uma morte rápida e sem dor, voltou a casa e trocou um olhar mudo com as irmãs querendo dizer que estava tudo certo. Caído o crepúsculo da noite daquela fatídica sexta, reuniram-se as três em torno da mesa de jantar e sentaram-se em suas respectivas cadeiras de sempre, depois de fervida a água e preparado o chá  iserindo o veneno em cada uma das xícaras. Sem muita cerimônia, apenas um silêncio cúmplice entre as três, sorveram o conteúde que pertencia a cada uma e foram para seus quartos. O resultado foi o fim duma história que na soma dos prós e contras valeu a pena, e que o proseguimento dava-se com as famílias das amadas sexagenárias filhas de Elaine, sobrinhas de Márcia e Eliane, que sofreram muito com a decisão das três velhinhas, mas entenderam perfeitamente os seus motivos, afinal a vida fustiga cada um a seu modo, e há golpes da vida que são incontornáveis.

                      Fev- 2025
Quando as condições estiverem mais favoráveis e, estarão, este conto estará melhor escrito. O autor.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Formação do mendigo Pedro

primeiro ele não delinquiu
agressão não foi capaz de proferir e a própria voz não exibia
precariamente estudou entre a gente e até amou
mas era preciso fumar, era preciso perder-se entre a multidão
e como sustentar o vício e o desejo de tudo que não podia
a própria família era uma incógnita indevassável
no turbilhão voraz da disputa pelo lucro muitos se perderam
ele não assimilou os códigos de sobrevivência na selva
de repente a fuligem as carradas os ruídos e todas as engrenagens 
da cidade bruta ele era das ruas um espectro
sumido nas trevas do capitalismo 

                        Fev- 2025

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Justiça social

sim caros senhor e senhora das elites
caros donos do capital de nosso país tão castigado
a violência urbana que estarrece a todos
quando não acontece nas periferias com os periféricos
tem remédio na sociedade brasileira
e a solução para essa chaga é simples
resume-se a duas palavrinhas capezes de redimir
uma nação dos seus erros
                     duas mágicas palavrinhas:
              JUSTIÇA SOCIAL

                        Fev- 2025

Negrócios

quando eu não era letrado
e meu ofício era o eito e a revolta
quando eu tinha apenas a capoeira
falaram de mim nos livros
mas falaram dum jeito tão atravessado
tão atravessado que choca
que parece que eu não tinha alma
parece que meu intelecto
era versado na pinga e na pirraça
ou que eu pensava no falo
minha cabeça era oca
mas na base do suor e sangue
aprendi a fala
aprendi as letras
aprendi a escrita e cursei universidade
e agora falo de mim nos livros
conto livre de jugos as minhas andanças
os meus sonhos e desejos
a minha miséria e a minha luta
não sou mais o animal selvagem
que me fizeram ou tentaram fazer
não sou mais apenas um corpo da sinhá
não sou mais um corpo autômato
agora falo e penso e escrevo
e continuam falando de mim nos livros
mas agora posso refutar
escrever a minha própria história
e estou nas livrarias
mais um bocado de anos
e todos saberão que lá vai um homem
que fala e pensa e escreve
não mais na categoria de negro forro
mas na de gestão de negrócios 
cidadão do mundo

              Jan- 2024

sábado, 15 de fevereiro de 2025

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Um nome

                                            à Eliane Pereira da Silva

ostensiva a boca chama um nome
talvez tenha sido sonho ou um torpor matutino com restos de sono
e este nome está em meu sangue como a chama está no fogo
irreversivelmente parte que não segrega
este nome está grafado em cadernos perdidos nesta estante em desordem
um nome que trago estação após estação por entre escritos
esquecidos em folhas ao vento entregues
são letras tatuadas na memória cuja boca jamais esquecerá a pronúncia
e ratos e baratas não levarão pelos vãos estreitos da noite para as trevas
nome que não cabe nos sonhos de qualquer poeta desgraçado
que está apenas no grito do galo tecendo manhã com outros galos como diz o poema
nome que perdeu-se no cartório ante tantos nomes em papéis escritos
e que na desordem dos dias vai ficando assim na poeira do tempo
nos arquivos do meu peito esfacelado
soterrado sob um coração de pedra pra eternidade da carne que apodrecerá sob a terra 
e levará esta palavra no seu cerne mas que o verme não saberá dizer ao certo 
a quem pertence aquela perfeita junção de sílabas 
que te obstrui as entranhas

                  Mar- 2024


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Farsa

nos meandros de nós uma farsa
essa avenida que aproxima 
e afasta
pois
em todo caso
melhor que um são dois

              Fev- 2024

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Cervantes em São Paulo

olhando da janela do ônibus
cervantes talvez imaginasse quixote em batalha
contra os arranha-céus
mas vendo a cidade despida
coberta apenas por tanto gás e ruído
espantar-se-ia o grande mestre com as gentes da metrópole
e destacado das pessoas por suas roupas esfarrapadas
sua cor escura e aspecto medonho um bicho:
um mendigo esfaimado revirando o lixo
o que para muitos é processo natural das grandes urbes
para o poeta pareceria menos a mão da natureza que a do homem
e tudo que visse era ouropel ubíquo e frágil
quixote talvez voltasse para casa
sem batalha sem cavalo sem espada apenas resignado
com uma dor imensa no peito

                     Jan- 2025

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Catedral da Sé

o prefeito da cidade tomou uma medida disparatada
varreu das escadarias da catedral os bêbados e os vagabundos
cobriu o câncer com a mortalha de turim
só que a cidade está desprezada
as gentes que vivem na cidade estão desprezadas
mendigos, moradores de rua e usuários de droga
são a nova confuguração do povo do centro
as escadarias das catedrais são do povo
são dos bêbados e dos vagabundos que precisam mais de deus
que os burgueses que ouvem os sermões do arcebispo

                              Jan- 2025

domingo, 26 de janeiro de 2025

Fagulha

o amor que dorme
soterrado dentro do peito
está sujeito a vir à tona e incendiar
o corpo de quem ama
sorver o ar
queimar a cama
e não há oceano que debele as labaredas
que vão lamber tudo em volta
até que soçobre a casa
e tudo vire cinzas hulha
brasa
por conta duma
fagulha

                       Fev- 2024


Nossa terra

enquanto tardo a vida de escravidões
quando minha filha foi levada pela mão ao reino das sombras 
e minha esposa repousa um sono perpétuo sob as pálpebras
a cidade vazia sob o rigor do inverno espanta
os mendigos mortos aguardam algum calor dos sobreviventes da guerra
horas que escorrem em clepsidras
meu passo é lento minha esperança perdida
nos donos de nossa terra

                       Jan- 2025

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

O meu amor é maior que eu

o meu amor é maior que eu
se eu pudesse falar com você...
se eu pudesse beijar teu rosto inteiro
beijar teus olhos, tua testa, teu nariz, tua boca
beijar teus cabelos, teus braços, teus seios, teu sexo
se eu pudesse te abraçar muito
abraçar bem apertado
abraçar sem fim
abraçar abraçar abraçar até te sufocar
ler nos teus olhos a história da tua vida
eu a amo sem medida
amo desde sempre e por toda minha existência
já não sei mais o que fazer para viver sem você ao lado
sem você olhando nos meus olhos
sem você conversando comigo longamente
e sobre todos os assuntos por toda a noite
sem você pronunciando meu nome
sem você sorrindo ou chorando
sem teu cheiro
sem a tua saliva alimentando meu amor
a falta que você me faz
também é maior que eu, é maior que o mar
que o céu, que todas as galáxias
não queria estar em todos os momentos com você
pois apenas uma hora do seu dia
far-me-ia transbordar você por todos os poros
e a nossa conviência seria leve
mesmo intensa
saber do seu dia e contar do meu
calcular nossas dívidas e despesas
pois as coisas extremamentes chatas com você seriam alegrias para mim
eu a amo de um jeito profundo e infinito
dum jeito que excede os limites de uma vida
e vai por outras vidas
assim como acredito que veio de outras
extravasar este amor seria necessário muitos universos 
e muitas vidas
expandir ao infinito um sentimento que não cabe em mim
como o universo se expande sempre
se eu pudesse te falar um minuto...

             Jan- 2025

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Dentro da noite

mergulhar nos teus mistérios
banhar-me no teu corpo de tuas lágrimas teu gozo teu suor
e sair isento de tua drástica ausência que me fere
na tua verve me alargar e te conhecer por dentro 
tomá-la nos braços e te proteger do mundo
ver nascer a noite nos teus olhos a noite mais intensa 
que nos abrigará nas horas remotas
no seu âmago todo escuro

                      Jan- 2025

Nada além de sombra

não sou gama 
nem machado nem barreto
não passo de sombra desprezada
na sociedade que deglute
como podre alimento
a cor que me distingue
bibelô das elites
sambo minha sorte de coisa
e carrego nas andanças
o fardo que esgota
peso imenso de ser anônimo negro
inserido no império intacto
da branquitude

                  Jan- 2025

Um negro nos teus braços

um negro nos teus braços
esta cor tão viva que destoa da paisagem
um negro da bahia de alagoas de nova york do congo do haiti
leão selvagem com destroços dentro do peito
infenso de todo à violência que o persegue
um negro dos quilombos em guerra com uma flecha no peito
tomado por estes espectros de correntes e estas grades fantasmas
teus braços tão delicados assustar-se-ão com a brutalidade
que tem sofrido este homem tão estranho à sociedade
este marginalizado ser que entoa paz
que persegue a justiça e a liberdade embora tão encarcerado
neste mundo onde o branco tudo pode e seu dever é servi-lo
um negro de corpo e alma negros nos teus braços brancos 
intactos braços de tantos privilégios
na tua pele tão livre de avessos
acaso tisnarias a história tão imaculada
da tua sorte?

                       Jan- 2025

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Os espelhos

os espelhos estão cobertos 
minha mãe legou-me a mania de cobrir os espelhos quando chove
mania que herdou de minha avó
mas nos espelhos vejo apenas meu rosto aprendendo ser velho
tua imagem que me alegra o dia vejo apenas em fotografia
aprendi a te amar olhando tuas fotos
em que esquina exatamente vou ver teus olhos de novo?
medindo o chão talvez por uma timidez congênita
quando me extasiarei olhando minha imagem no espelho de tua íris?
deixastes tanta vida para um incerto depois
quando agora eu queria o teu calor
quando agora eu queria descobrir teu cheiro
deixar minha tatuagem no teu sangue
estes espelhos cobertos refletem minha vergonha agora
de haver deixado você partir nos braços de um vento de outono
de haver deixado você alheia de mim
de tê-la apenas nos versos

                           Jan- 2025