Poemas de temática social onde aborda, em linguagem simples, de maneira aberta e franca a fome, a miséria, as desigualdades e os privilégios da elite brasileira, e, voltados para a condição do negro e afro-descendente no Brasil fazem menção a fatos históricos desde o continente de origem (África) aos dias atuais, ao amor, à paixão e ao desejo.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
Dona Nenê
a Carmelinda Dias, minha avó.
trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo arco,
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.
trago vivo ainda, o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
esgotadas de abolições.
os olhos enxergavam sob névoa densa
um aglomerado áspero de barracos,
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.
preta que sofria a garatuja do próprio nome
trazia magras as suas estórias de vó:
retalhos de vivências antigas,
escavados da fumaça.
de utopia acuada por imensas pedras,
a Vida era negra.
Jul- 2025
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Pedaços da fome
à escritora Carolina Maria de Jesus
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio,
o trabalho e a solidão.
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto esse gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome?
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto esse gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome?
despejada de cada quarto,
de todo canto, preterida da vida.
zela da veste grã-fina,
desdobra-se a cuidar deste chão,
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!
Maio- 2020
Maio- 2020
Poeta Oliveira
ao poeta Oliveira Silveira
pois é,
poeta de Touro-Passo, universal.
a notícia do seu trabalho se espalhou,
e desaguou nestes
cantos escuros deste país.
e o seu palmares, os seus orixás,
os seus tambores, sons de cratera,
as suas origens descobertas
em velhos arquivos:
germinaram uma consciência,
a mensagem está transmitida.
e digo mais:
oliveira, poeta da conciência negra,
você deixou inscritos um desejo,
e uma luta coletiva:
de libertar as gerações vindas.
e digo, vem libertando.
pois negro
eu não sei ore-levo
de sua região,
mas a minha é escura.
Jul-2025
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que
a rã de Bashô, que será que
ele acho(u)?
o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima
o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima
do peixe?
eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se
eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se
equilibra.
espicha-se toda
a lagartixa, e devora a
espicha-se toda
a lagartixa, e devora a
barata viva.
o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será
o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será
banquete de verme!
digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade
costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental
não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência
inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo
"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é
digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade
costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental
não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência
inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo
"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é
o boi no prato?...
haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.
digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!
castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come
abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?
diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.
desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te
quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu
conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?
ENIGMA
sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes
haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.
digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!
castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come
abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?
diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.
desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te
quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu
conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?
ENIGMA
sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes
sem deitar?
A GALINHA
no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem,
A GALINHA
no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem,
dormiu.
INVERNO
bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.
PRIMAVERA
brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!
AMOR MENINO
hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.
MANHÃ
vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!
DEPOIS DA CHUVA
flutua deslumbrante
INVERNO
bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.
PRIMAVERA
brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!
AMOR MENINO
hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.
MANHÃ
vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!
DEPOIS DA CHUVA
flutua deslumbrante
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.
FLORES DE ABRIL
finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...
2011- 2012- 2013- 2018- 2019
.
sigo por esta rua.
FLORES DE ABRIL
finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...
2011- 2012- 2013- 2018- 2019
.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
No silêncio dos dias
o açoite da artilharia do tempo
contra as sólidas muralhas deste amor
tenta o sequestro
do que existe frágil na pedra
a muda apatia
na tragetória fria da queda
luz que estilhaça esplendor e treva
a força da pedra que dura
está naquele sopro efêmero de ternura
no âmago
da própria substância
e sob a fustiga do vento no tempo
esgarçado de uma dor
o alarde da gente
oculto no silêncio dos dias
Mar- 2021
O que é do negro
o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado por cruel afronta
à vida vunerável mesmo antes de concebido
a prostrar qualquer homem
no âmago ferido
o que é do negro
rendido à força de um tiro letal
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
atirado à terra seca da indigência
sem porvir que prospere
o que é do negro
implicado desde sempre a todo tipo de situação tóxica
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
ao arsenal de ultrajes da raça oposta
sem misericórdia ou pudor
o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro
a flor que brota na pedra
não acessa nutrientes que a fortaleça
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
lutando por um escape que
o liberte desta teia de apagamento
Jul- 2025
Fragmentos de uma dor
ponta de faca do feitor
captura na tocaia cepos grilhões pelourinho
e a condição bestial dos amputados
estigmas da desonra máscaras de ferro
a queda brusca
nos logradouros da imundice
e o sinhô de abastado capital
assegurando sua casta
tenra negra currada
mucama canga e fogão abusos da casa-grande
colônia sujeira subjugo fome
jovens escravos de velhas faces
eito lavra banzo de preto velho na enxada
amas negras de leite secas
de tão sugadas
e nhôzinho nutrido a fartar-se
de regalo no exterior
nos insalubres espaços
a bruta geografia dos descartados
uma dor em cada rosto que sobe e desce
os degraus pedrosos da pouca sorte
e neste avesso tecido
o histórico contraste:
a riqueza é toda branca
e negra a tragédia da indigência.
Jul- 2025
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Não há vaga
a universidade é pública
mas atende aos filhos
da alta classe
de pública torna-se privada
e para o filho
do pobre não há vaga
o diagnóstico é triste
a subsistência
a possível
o sentido fragilizado da vida
o osso do banquete
no prato
a liberdade abolida
e do que se precisa nem resto
a conta que nunca fecha
o ministério
da estatística adverte
a balança
não pende, (de)pende
poder perpétuo, justiça
a exata medida entre a vastidão
e o corpo inerte
as faces estranhas
da mesma moeda
a posse usurpada da terra
um oceano
de negras angústias
o desfalque,
a apropriação indébita
a cínica farsa do mérito
em vez de se extinguir
o abismo, aprofunda-se
o burguês
regala-se sempre
abastado
e mais falta a quem não tem nome
o feto indigente, coitado
já nasce com fome
a história restaurada
quanto maior a exposição dos fatos
mais a litania é constatada
a universidade é pública
mas para o filho
do pobre
NÃO HÁ VAGA!
Jun- 2020
domingo, 26 de julho de 2026
Mãe negra
à minha mãe
Mãe,
brincou os carnavais
sem alegoria ou samba-enredo,
nem estandarte, desfile, passista ou fantasia;
porque pisou apenas as avenidas árduas
das tuas obrigações.
na tua casa não teve "macumba,
galinha preta, azeite de dendê", nem "ladainha,
reza bonitinha ou canjiquinha pra comer".
não pude evocar por isso a nossa etnia ancestral
que se perdeu diante da carga
de intolerância.
Mãe,
a urgência perturba,
por que gestando as mães sentem tanto
as dores e prantos do ser que desentranham?
por que no parto sentem tudo
do filho que aflige feto e agora fato,
esta voz que ecoa fora do útero?
mãe negra é a mãe branca,
com os encargos da cor.
Agos- 2021
13 de maio
13 de maio,
cínico enredo encenado sem ensaio.
13 de maio,
desencargo pão e circo folclore atalho.
do ajuste malacabado da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas,
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio,
arranjo apaziguador da ordem
da cabeça pesada do poder acuado.
atando ao calcanhar escravo a bola de ferro
da injustiça e do encargo.
13 de maio,
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos subjugados,
peças descartadas.
13 de maio.
Set- 2025
Nada diferente no mundo dos iguais
falta pão na mesa do pobre
e a notícia não comove os que mordem
degustando gostoso o repasto nos finos pratos
dos apartamentos de luxo
sob o lusco-fusco de mais um dia que vai
e quando um governante qualquer
anuncia verba pra educação
a deseducada elite que se farta vocifera
contra o custo brasil
que nada custa à sua vida de misérias
pimenta não deixou de ser refresco
nos olhos do povo
Jul- 2026
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