domingo, 26 de julho de 2026

Matando hora

num certo discreto torrão
de então incerto destino
os grandes grã-finos de então
decidiram por escravidão

o negro lutou
resistiu, se rebelou

nasce a nossa revolução
Zumbi funda Palmares
o negro trama ação
a golpes de capoeira e facão

e os distintos senhores
ao lucro, ouro, especulação

todos sabem a história
a colônia tornou-se nação
o negro que não esqueceu
luta por reparação

o branco manda
desmanda, senhor da decisão

e esta breve história
é o poeta matando a hora
com versos por se fazer
não sabe senão linhas tecer

o negro ainda sofre
mas hoje sabe escrever

      Mar- 2021

DO AMOR

Dos prazeres de agosto

não houvesse esta apatia no ar
este silêncio estranho nos guetos da cidade
este romper de artérias jorrando culturas européias
esta dor desatada no chão das masmorras
este sangue agrilhoado à memória do corpo
e tanto arrastar de correntes
alarido de grades contra a exausta esperança
pegava nas tuas mãos eloquentes
e no mar de lençóis desta cama de agosto
amar-te-ia com a negra ternura
deste corpo talhado aos acidentes insólitos
deste amor sem rédeas do nosso tresloucado
encontro de braços bocas e peles.

                     Set- 2025

Noite alta

o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável 
                       de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
                     o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
                       de nossa íntima 
                                              tempestade.

                        Set- 2025

Nos corredores da noite

esta carne nada vale amor
no entanto este desejo não arrefece
da tua boca úmida 
do teu corpo quente
e o que posso fazer são versos
enquanto a noite acentua
este clamor de paredes de senzala
e seus gemidos de dor
já procurei além da noite 
noite que fere qual ferro na carne
mas encontrei uma voz
de medo ou indiferença nos teus olhos
a gritar solidão
o verme virá comer em horas mudas
tudo que pensei para nós
e na garganta do verme estará o verbo
mais a luz de teu nome
a lhe obstruir o ar
só então estarei satisfeito
porque estará tudo acabado 
               para sempre.

                          Out- 2025

Abraço

nem povos extintos pela guerra
nem livros inacabados que não chegaram a ser
nem escombros de pétalas no jardim do peito
nada que consuma a força de mil braços
ou que sepulte a madrugada embriagada
dos loucos da cidade
nem o cais do porto de muitos séculos
nem os logradouros insalubres da província
de onde os donos de terras negociavam seres
nada
nada nos afastará
da comunhão de nossos corpos
desesperadamente entregues à bruma da madrugada
nada impedirá que renasçamos onde nasce nosso afeto
no alvoroço de nossos braços
encontrando-se no meio da noite

                     Jan- 2024

Terra do meu amor

terra seca que não germina
exausta terra rachada
terra nordestina 
do meu país
terra da caatinga e do sertão
houve escravidão na sua jurisdição
mas o seu condão
é de liberdade
terra que perdeu fertilidade
tantas vezes violada
que enriqueceu iaiá e nhonhô
velha terra castigada
de vovó e de vovô
de toda uma linhagem de escravos
tantos crimes sob seus domínios
terra sagrada do meu amor
e de vovó e de vovô
deixo aqui este poema
terra que tantas vezes sangrou
onde coagulou o sangue ancestral
gigante terra menina
terra que não dá pasto nem cana
terra que não germina
minha terra nordestina

              Fev- 2024

Laço que não desata

réu no tribunal do teu ser
implica-me grave delito: amo!

quando não quis 
senão o beijo tinha um arsenal
de gestos que te escapava
vestígios de mulher
inevitável minha captura

na cela de ardentes 
desejos trancado nego a liberdade
condena-me e submeta 
à perpétua pena 
deste apego, acato!

não me furte porém
da urgência do calor do teu corpo
do hálito úmido do teu sexo
a desvairar-me o tino

quero os laços 
dos teus cabelos a dissipar-me o ar
a fustiga dos teus pelos
tatuando a carne nua do meu peito
apenas morrer 
de afeto no teu sangue

     Mar- 2021

Agosto

na tua pele arde
qualquer coisa de fruta
talvez o cheiro talvez o sabor
que na boca 
fica depois do amor

os lençóis falam
de nossa pele indefesa
da chama que não se apaga
nossa fome
nossa orgia negra

ainda que durma
o corpo que se esgota
a noite teima e nos reclama
mesmo nas dores
que esconde a cama

amar ensina
a sina de viver o outro
o que a vida fustiga e fere
sepultamos na cinza
face de agosto

    Agos- 2021

Gratidão

agradeço
ao sêmen que a transportou
ao óvulo que a recebeu
                           e originou
ao cordão que a nutriu
e alimentou
à placenta que a protegeu
                              e sustentou
à mulher e ao homem
que a criou

agradeço!

agora
nesse mundo desumano
       onde há tanta injustiça
lutamos você e eu
          nosso amor em apogeu

                            Jan- 2024

IN MEMORIAM

Pedaços da fome

                   à Carolina Maria de Jesus in memoriam

a vida agora é de alvenaria,
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
filhos adotados dos teus braços pela miséria.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio,
o trabalho e a solidão.
o ódio de deus sobre os ombros dos seus,
sobre os ombros
dos que não têm que querer,
cuja escolha é não ter escolha.
nada conterá a força das tuas palavras
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora
nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
nuvens de África, ares de África, sóis de África.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto este gado,
ou nos finos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome?
despejada de cada quarto, de todo canto,
preterida da vida.
zela da veste grã-fina,
desdobra-se a cuidar deste chão,
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!

           Maio- 2020

Poeta Oliveira

                             a Oliveira Silveira in memoriam

poeta negro misto 
de cor mista afro singular
da terra de Rosário do Sul, Touro-Passos,
na Serra do Caverá.
rascunha ao pé da folha,
a forte punho negro rebusca a língua,
desdobra o verso, 
ecos de tambor, cantar.
cantou de Palmares 
à cultura popular,
dos trabalhadores aos orixás.
e no banzo da gente negra também foi África.
o mundo está na extensão de sua obra
legítima consciência negra.
poeta negro misto,
rabisco no solo brasileiro
rebentando em arte, vistoso baobá.
menssageiro Exu Bará.
quem dera fosse meu este estro poeta.
tramando a sua próxima
nos braços de Oxalá.

                            Jul- 2025

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terça-feira, 14 de julho de 2026

Mágoa pequena

minha mágoa é pequena
frente ao passivo que ainda não acertamos
tens de pagar com juros altos
todo delito praticado contra meu povo
e ainda te aguarda
desonrado homem branco
tombo maior que levou o negro
nos dias de eito açoites e violações
pois nas voltas que dá o mundo
ainda volta pra sua conta
toda brutalidade cega que praticaste
sob céus pejados de estrelas
e quero apreciar num camarote de carnaval
este dia historicamente belo

                                Jul- 2026