à carolina maria de jesus
teve pouco contato a preta menina,
com o aprendizado formal que na escola se ensina,
mas observou, escavou e aprendeu com a vida, carolina.
veio de onde nasceu, sacramento, minas.
estrela negra num palco de astros brancos,
limpou chão, catou papel, cuidou da veste grã-fina.
pegou chuva, andou suja,
desdobrou-se em mil pra alimentar três bocas,
encaminhar três vidas, tragar a seco a dura rotina.
no meio de tanta labuta, tanta luta,
ainda deixou inscrita,
em folhas do lixo recolhidas, literatura de respeito,
escrita crua, direta, sem curva, essa foi carolina:
cinderela negra, que talhou a lápis a casa de alvenaria:
"quarto de despejo", "pedaços da fome",
"provérbios", "diário de bitita".
e apesar de tanto despeito e estranheza,
das altas esferas que monopolizam o mercado da escrita,
um mundo branco que exclui a diferença,
pelo povo negro, que se ocupa da arte literária,
carolina será sempre bem acolhida.
Agos-2026
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