segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Palavras à margem

andando por estas ruas 
observo sujeiras hereditárias:
estreitos, ajus-
tes, a asfixia, entraves. 
me bastas no culto agradecidos, mas, 
fatalidade, despejados; ecos 
de agonias ancestrais. 
e o peito aperta...

entre um e outro olhar,
a náusea: do tanto fazer de conta,
engolir máscaras, nem tantos
e nem cismas:
dos tantos sapos e cercos, 
e tanto encolher-se.

— não há espaço justo
ou vida plena
sob mãos de aço que segregam
empregadas à jugular —

já não quero nada
diante dos prazeres urbanos,
das intenções dos engenheiros da dor
e seus orgasmos deliberados
de poeira e pedras.
sorrir já não quero!...

enroscado, 
o esqueleto duma pipa
elabora o tempo.

                 Jan-2024

Arte de preto

usar cabelo de preto,
e ainda exigir do poema, verdade, 
isso também é arte.
acurar de ginga a estética,
pentear com as própria regras a língua,
revolucionar-se.

no batente de todo dia,
cabeça feita, conciência negra,
e muita atitude malunga,
desembaraçar-se.

arte preta é problema
para o opressor, cabelo de preto, como bem 
se entende, ameaça pro sistema
e engrenagens dos sinhôs,
encarapinhar-se.

ontem, negra pronta,
exibia argulhosa, nas ruas ásperas
da São Paulo degradada,
e de caráter racista!
a sua natureza crespa,
em fios de verdade —
insubordinada.

                    Jul-2026

domingo, 16 de agosto de 2026

Ainda me importo

não sei por que ainda me importo, 
você ganhou contornos de rosa pra mim:
bela, mas cheia de espinhos,
murchando num canto de jardim
até cairem as pétalas...

meu delito foi te amar 
diariamente, sem perceber que amor,
pra você, não bastava, e até hoje não sei 
o que você esperava de mim;
talvez nada, demais talvez.

sinto, que não quis ficar,
ou nem te ocorreu: que todo homem
tem esta fase oculta, gostosa de experimentar, 
a fase de tocar com os olhos, 
dizer coisas inesperadas...

e as delícias de mulher,
entre pelos, lábios, fogo, sabor de urina,
e o odor único e úmido de cio,
que guardo nestas narinas largas; cato às pressas, 
em qualquer rua, ou transporte público,

de seres, como eu, despercebidos.

  Mar-2021

sábado, 15 de agosto de 2026

Pedinte no centro da cidade

               40 graus, entardecer abrasador,
       na estufa da rua não tem o ar dos escritórios.
o asfalto invade-lhe a face, penetra-lhe a pele;
              não há distinção.
ele não tem canto onde chegar e restaurar o ânimo,
                              trancar os olhos, ignorar o mundo,
num sono que o resgate, trégua amiga.
fome não sabe o que é, quer um cigarro,
             enseja uma marquise
para largar a carne dum inchaço de decomposição:
cadáver que ambula com a morte nos calcanhares.
a vida à míngua e seus pertences de pano roto, 
                               a roupa do corpo. 
      distâncias estampadas na rigidez do rosto.
                mais nada.


                                                                        São Paulo, Out-2025

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O capitalista

                       o capitalista
dispõe da máquina 
e do capital,
              voz potente que ecoa, 
ele elege, governa e legisla, 
         nítido retrato
    do poder absoluto.

confina o gado, respira posse,
pratica o lucro, 
          acumula e multiplica,
sapateia nas víceras do trabalhador,
desdobra a própria miséria 
         em patrimônio.

                     desfigura
de cifra o sabor da vida,
          o seu âmago exala moeda,
impregnando de aridez 
as relações humanas, 
                     e tudo é universo 
de estrelas apagadas.

ainda dorme, ad aeternum,
sobre as plumas dessa queda.

                          Agos-2026

Fragmentos de uma dor

ontem e hoje 
o fragor do ferro doendo
ventos de estigmas e grades
a fome das elites legando
guetos de tombos e cravos
as noites de ouro dos barões
bebidas em taças intactas 
através dos séculos 

abuso à tenra idade
nos amplos casarões do café
o éden agora são borros
diante das pupilas serenas
de uns olhos sem culpa
as negras de leite secas
e o fruir dos desmamados
tragando noites europeias

os apertos dos dias
cercados por tábuas amargas
entre um e outro fedor
num sobe e desce de becos
o mesmo fardo imenso
toneladas de negridão
e a pele verga o corpo 
 
                          ontem e hoje!

                        Jul- 2026

IN MEMORIAM

Dona Nenê

                               a Carmelinda Dias, minha avó.

trago intacta, através do tempo,
a imagem prateada daquele corpo arco,
tecendo nuvens de banzo
à beira do fogão.

trago vivo ainda, o calor de um afago,
raro gesto de umas mãos trêmulas pelo fardo,
mãos de quem foi escrava na vida,
esgotadas de abolições.

os olhos enxergavam sob névoa densa
um aglomerado áspero de barracos,
a favela era o seu quilombo,
e a maior agressão.

preta que sofria a garatuja do próprio nome
trazia magras as suas estórias de vó:
retalhos de vivências antigas,
escavados da fumaça.

de utopia acuada por imensas pedras,
a Vida era negra.

                     Jul- 2025

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Pedaços da fome

                   à escritora Carolina Maria de Jesus 

a vida agora é de alvenaria,
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio, 
o trabalho e a solidão.
nada conterá a força das tuas palavras,
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto esse gado,
ou nos ricos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome? 
despejada de cada quarto, 
de todo canto, preterida da vida. 
zela da veste grã-fina, 
desdobra-se a cuidar deste chão, 
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!

           Maio- 2020

Poeta Oliveira

                             ao poeta Oliveira Silveira 

pois é, 
poeta de Touro-Passo, universal.
a notícia do seu trabalho se espalhou,
e desaguou nestes
cantos escuros deste país.
e o seu palmares, os seus orixás, 
os seus tambores, sons de cratera,
as suas origens descobertas
em velhos arquivos:
germinaram uma consciência,
a mensagem está transmitida.
e digo mais:
oliveira, poeta da conciência negra,
você deixou inscritos um desejo,
e uma luta coletiva:
de libertar as gerações vindas.
e digo, vem libertando.
pois negro
eu não sei ore-levo
de sua região,
mas a minha é escura.

                            Jul-2025

ENCERRA AQUI O LIVRO PALAVRAS À MARGEM

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

HAICAIS

pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que 
ele acho(u)?


o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima 
do peixe?


eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se 
equilibra.


espicha-se toda
a lagartixa, e devora a 
barata viva.


o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será 
banquete de verme!


digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade


costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental


não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência


inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo


"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é 
o boi no prato?...


haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.


digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!


castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come


abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?


diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.


desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te


quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu


conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?


ENIGMA

sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes 
sem deitar?


A GALINHA

no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem, 
dormiu.


INVERNO

bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.


PRIMAVERA

brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!


AMOR MENINO

hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.


MANHÃ

vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!


DEPOIS DA CHUVA

flutua deslumbrante 
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.


FLORES DE ABRIL

finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...



                  2011- 2012- 2013- 2018- 2019

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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

No silêncio dos dias

o açoite da artilharia do tempo
contra as sólidas muralhas deste amor
tenta o sequestro 
do que existe frágil na pedra
a muda apatia
na tragetória fria da queda
luz que estilhaça esplendor e treva

a força da pedra que dura
está naquele sopro efêmero de ternura
no âmago
da própria substância
e sob a fustiga do vento no tempo
esgarçado de uma dor

o alarde da gente
oculto no silêncio dos dias

     Mar- 2021

O que é do negro

o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado por cruel afronta
à vida vunerável mesmo antes de concebido
                    a prostrar qualquer homem
                    no âmago ferido
                    
o que é do negro
rendido à força de um tiro letal
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
                    atirado à terra seca da indigência
                    sem porvir que prospere

o que é do negro
implicado desde sempre a todo tipo de situação tóxica
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
                     ao arsenal de ultrajes da raça oposta 
                     sem misericórdia ou pudor

o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro

a flor que brota na pedra
não acessa nutrientes que a fortaleça
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
                      lutando por um escape que 
                      o liberte desta teia de apagamento

                     Jul- 2025