domingo, 26 de julho de 2026

Noite alta

o que é do nosso encontro
de bocas mudas na órbita do beijo?
o acervo inesgotável 
                       de nosso querer
e cais do porto de nossas peles a noite inacessível
desenha um tempo incontornável
não são de cepo ou grilhões os nossos elos
é de sambas e blues
                     o ritmo de nossa cópula
uma África livre de mando
corpos a transcenderem os fatos
lençois ao vento
                       de nossa íntima 
                                              tempestade.

                        Set- 2025

Nos corredores da noite

esta carne nada vale amor
no entanto este desejo não arrefece
da tua boca úmida 
do teu corpo quente
e o que posso fazer são versos
enquanto a noite acentua
este alarido de paredes de senzala
e seus gemidos de dor
já procurei além da noite 
noite que fere qual ferro na carne
mas encontrei uma voz
de medo ou indiferença nos teus olhos
a gritar solidão
o verme virá comer em horas mudas
tudo que pensei para nós
e na garganta do verme estará o verbo
mais a luz de teu nome
a lhe obstruir o ar
só então estarei satisfeito
porque estará tudo acabado 
               para sempre.

                          Out- 2025

Abraço

nem povos extintos pela guerra
nem livros inacabados que não chegaram a ser
nem escombros de pétalas no jardim do peito
nada que consuma a força de mil braços
ou que sepulte a madrugada embriagada
dos loucos da cidade
nem o cais do porto de muitos séculos
nem os logradouros insalubres da província
de onde os donos de terras negociavam seres
nada
nada nos afastará
da comunhão de nossos corpos
desesperadamente entregues à bruma da madrugada
nada impedirá que renasçamos onde nasce nosso afeto
no alarido de nossos braços
encontrando-se no meio da noite

                     Jan- 2024

Terra do meu amor

terra seca que não germina
exausta terra rachada
terra nordestina 
do meu país
terra da caatinga e do sertão
houve escravidão na tua jurisdição
mas o teu condão
é de liberdade
terra que perdeu fertilidade
tantas vezes violada
que enriqueceu iaiá e nhonhô
velha terra castigada
de vovó e de vovô
de toda uma linhagem de escravos
tantos crimes sob teus domínios
terra sagrada do meu amor
e de vovó e de vovô
deixo aqui este poema
terra que tantas vezes sangrou
onde coagulou o sangue ancestral
gigante terra menina
terra que não dá pasto nem cana
terra que não germina
minha terra nordestina

              Fev- 2024

Laço que não desata

réu no tribunal do teu ser
implica-me grave delito: amo!

quando não quis 
senão o beijo tinha um arsenal
de gestos que te escapava
vestígios de mulher
inevitável minha captura

na cela de ardentes 
desejos trancado nego a liberdade
condena-me e submeta 
à perpétua pena 
deste apego, acato!

não me furte porém
da urgência do calor do teu corpo
do hálito úmido do teu sexo
a desvairar-me o tino

quero os laços 
dos teus cabelos a dissipar-me o ar
a fustiga dos teus pelos
tatuando a carne nua do meu peito
apenas morrer 
de afeto no teu sangue

     Mar- 2021

Agosto

na tua pele arde
qualquer coisa de fruta
talvez o cheiro talvez o sabor
que na boca 
fica depois do amor

os lençóis falam
de nossa pele indefesa
da chama que não se apaga
nossa fome
nossa orgia negra

ainda que durma
o corpo que se esgota
a noite teima e nos reclama
mesmo nas dores
que esconde a cama

amar ensina
a sina de viver o outro
o que a vida fustiga e fere
sepultamos na cinza
face de agosto

    Agos- 2021

Gratidão

agradeço
ao sêmen que a transportou
ao óvulo que a recebeu
                           e originou
ao cordão que a nutriu
e alimentou
à placenta que a protegeu
                              e sustentou
à mulher e ao homem
que a criou

agradeço!

agora
nesse mundo desumano
       onde há tanta injustiça
lutamos você e eu
          nosso amor em apogeu

                            Jan- 2024

IN MEMORIAN

Pedaços da fome

                   Poema em homenagem à Carolina Maria de Jesus in memorian

a vida agora é de alvenaria,
os objetos, os filhos, as flores...
a casa talhada a lápis com palavras de dor.
filhos adotados dos teus braços pela miséria.
o prego, a madeira, a fome, o silêncio,
o trabalho e a solidão.
o ódio de deus sobre os ombros dos teus,
sobre os ombros
dos que não têm que querer,
cuja escolha é não ter escolha.
nada conterá a força das tuas palavras
ainda que as águas das chuvas tenham contido
teu corpo franzino, anônima de papel,
estrela sem hora
nas ruas avessas da cidade.
cidade hostil, afeto de pedra, flores sobre a sepultura.
nuvens de África, ares de África, sóis de África.
sopa de vento, poeira de terra no prato,
está no pasto este gado,
ou nos finos pratos de louça fina.
qual a cor da fome, Carolina?
dos pedaços da fome?
despejada de cada quarto, de todo canto,
preterida da vida.
zela da veste grã-fina,
desdobra-se a cuidar deste chão,
e sonha, Carolina!
escreve e sonha, Carolina!

           Maio- 2020

Poeta Oliveira

                             a Oliveira Silveira in memorian

poeta negro misto 
de cor mista afro singular
da terra de Rosário do Sul, Touro-Passos,
na Serra do Caverá.
rascunha ao pé da folha,
a forte punho negro rebusca a língua,
desdobra o verso, 
ecos de tambor, cantar.
cantou de Palmares 
à cultura popular,
dos trabalhadores aos orixás.
e no banzo da gente negra também foi África.
o mundo está na extensão de sua obra
legítima consciência negra.
poeta negro misto,
rabisco no solo brasileiro
rebentando em arte, vistoso baobá.
messageiro exu bará.
quem dera fosse meu este estro poeta.
tramando a sua próxima
nos braços
de Oxalá.

                            Jul- 2025

ENCERRA AQUI O LIVRO PALAVRA PRETA

terça-feira, 14 de julho de 2026

Mágoa pequena

minha mágoa é pequena
frente ao passivo que ainda não acertamos
tens de pagar com juros altos
todo delito praticado contra meu povo
e ainda te aguarda
desonrado homem branco
tombo maior que levou o negro
nos dias de eito açoites e violações
pois nas voltas que dá o mundo
ainda volta pra sua conta
toda brutalidade cega que praticaste
sob céus pejados de estrelas
e quero apreciar num camarote de carnaval
este dia historicamente belo

                                Jul- 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Homens negros também amam

importar o melhor do seu mundo
diretamente para o pior dos meus dias
para colher as alegrias
que não foram possíveis colher
do que você me ofereceu nos dias cruciais
em que nossos destinos se cruzaram
você roubou minha paz
e nunca foi capaz de devolver
um gesto uma flor
sequer o desprezo me foi restituído
do seu proceder
e ficou tudo sem ser explicado
sem ser absolvido ou mesmo assimilado
feito crime contra integridade física de indefeso
cometido por alguém sem escrúpulo

                              Jul- 2026

Crespo

é crespa a lei dos meus fios
por decreto de cópula de pai preto e mãe cabocla
e às vezes as palavras que escrevo 
ou pronuncio também fluem crespas
mas a crespitude que me forma
não atuou no palco dos poucos dias
do nosso breve lance
e mesmo assim sem alarde
embaraçou-se a fluência do que fomos dois
porque sem ser crespa nem nos fios nem na gênese
encrespaste o precoce amor pulsando
da juventude nossa

                          Jul- 2026

domingo, 12 de julho de 2026

Proletário marxista

mal e a duras penas aprendera a mais-valia
nos bares fronteiros ao sindicato
emancipara-se cruzando os braços nas grandes 
greves dos anos 1980
rodando panfleto revolucionário
e arriscando-se em piquetes nas portas das fábricas do abc
brigando contra o patrão e as mamatas burguesas
a luta companheiro vem de longe
do barquinho de papel
desdobrando-se nas águas do tanque materno
aos negreiros cruzando os mares
das desilusões dos negros perseguidos
das terras d'áfrica castigada
da graxa no macacão operário
à posse dos meios de produção séculos antes
do início mesmo da ganância do homem

                               Jul- 2026