Poemas de temática social onde aborda, em linguagem simples, de maneira aberta e franca a fome, a miséria, as desigualdades e os privilégios da elite brasileira, e, voltados para a condição do negro e afro-descendente no Brasil fazem menção a fatos históricos desde o continente de origem (África) aos dias atuais, ao amor, à paixão e ao desejo.
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
pulou do tanque
a rã de Bashô, que será que
a rã de Bashô, que será que
ele acho(u)?
o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima
o sal dos oceanos,
será, meu Deus, a lágrima
do peixe?
eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se
eu olho a formiga,
e ela nem liga, passa e se
equilibra.
espicha-se toda
a lagartixa, e devora a
espicha-se toda
a lagartixa, e devora a
barata viva.
o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será
o que te importa
é a cor da epiderme? saibas, será
banquete de verme!
digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade
costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental
não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência
inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo
"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é
digo em verdade
brincar a síntese do verso
é a maior liberdade
costurar no haicai
a etnia afro-ancestral brasileira
com o advento oriental
não se esgota a mágoa
por seu jeito torto de me amar
toda ausência
inerte me desfaço
agito alguma arte e me refaço
envelhecendo
"belo o boi no pasto",
mas belo? o que importa não é
o boi no prato?...
haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.
digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!
castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come
abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?
diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.
desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te
quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu
conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?
ENIGMA
sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes
haicai suburbano:
pega o ônibus, do trem desponga,
vive meio desengano.
digo com apreço,
tens amor por dinheiro? na sepultura
terás apenas esqueleto!
castiga a fome
devora a alegria da criança
que há dias não come
abjeto salário,
por que não tenta o patrão
viver como operário?
diverte-se o vento
num desmaiar em teus braços,
corpo em movimento.
desejo teu corpo intenso
mas tenho apenas o peito imenso
e a utopia d'esperar-te
quão bonito canto
de dor... profundo lamento
do sapo-cururu
conta-me sabiá,
onde construiste o lar seguro,
no pé de jacarandá?
ENIGMA
sr. peixe, pergunto:
no fundo do mar, como dormes
sem deitar?
A GALINHA
no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem,
A GALINHA
no manso murmúrio
do rio, a galinha, rente à margem,
dormiu.
INVERNO
bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.
PRIMAVERA
brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!
AMOR MENINO
hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.
MANHÃ
vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!
DEPOIS DA CHUVA
flutua deslumbrante
INVERNO
bicho de pelúcia,
no denso frio da invernada:
criança agasalhada.
PRIMAVERA
brota a primavera,
num desabrochar devagarinho...
- gorjeia passarinho!
AMOR MENINO
hoje vejo com
ternura, toda a tola inocência
dos bilhetes de amor.
MANHÃ
vendaval imenso,
que revirou, imenso drama:
mexeu toda a cama!
DEPOIS DA CHUVA
flutua deslumbrante
a lua no asfalto sob meus pés,
sigo por esta rua.
FLORES DE ABRIL
finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...
2011- 2012- 2013- 2018- 2019
.
sigo por esta rua.
FLORES DE ABRIL
finda as flores de abril,
pelas brandas mãos do outono.
- a última pétala caiu...
2011- 2012- 2013- 2018- 2019
.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
No silêncio dos dias
o açoite da artilharia do tempo
contra as sólidas muralhas deste amor
tenta o sequestro
do que existe frágil na pedra
a muda apatia
na tragetória fria da queda
luz que estilhaça esplendor e treva
a força da pedra que dura
está naquele sopro efêmero de ternura
no âmago
da própria substância
e sob a fustiga do vento no tempo
esgarçado de uma dor
o alarde da gente
oculto no silêncio dos dias
Mar- 2021
O que é do negro
o que é do negro
desde o ventre materno atingido na honra
ou antes predestinado por cruel afronta
à vida vunerável mesmo antes de concebido
a prostrar qualquer homem
no âmago ferido
o que é do negro
rendido à força de um tiro letal
certeiro no coração
sem apelo ou honrosa saída
atirado à terra seca da indigência
sem porvir que prospere
o que é do negro
implicado desde sempre a todo tipo de situação tóxica
surpreendido por um sistema
que sujeita e submete
ao arsenal de ultrajes da raça oposta
sem misericórdia ou pudor
o que é do negro forças ocultas
orixás da minha crença
deuses que olham por seus filhos
o que é do negro
a flor que brota na pedra
não acessa nutrientes que a fortaleça
o negro na sociedade branca
agoniza ainda vivo
lutando por um escape que
o liberte desta teia de apagamento
Jul- 2025
Fragmentos de uma dor
ponta de faca do feitor
captura na tocaia cepos grilhões pelourinho
e a condição bestial dos amputados
estigmas da desonra máscaras de ferro
a queda brusca
nos logradouros da imundice
e o sinhô de abastado capital
assegurando sua casta
tenra negra currada
mucama canga e fogão abusos da casa-grande
colônia sujeira subjugo fome
jovens escravos de velhas faces
eito lavra banzo de preto velho na enxada
amas negras de leite secas
de tão sugadas
e nhôzinho nutrido a fartar-se
de regalo no exterior
nos insalubres espaços
a bruta geografia dos descartados
uma dor em cada rosto que sobe e desce
os degraus pedrosos da pouca sorte
e neste avesso tecido
o histórico contraste:
a riqueza é toda branca
e negra a tragédia da indigência.
Jul- 2025
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Não há vaga
a universidade é pública
mas atende aos filhos
da alta classe
de pública torna-se privada
e para o filho
do pobre não há vaga
o diagnóstico é triste
a subsistência
a possível
o sentido fragilizado da vida
o osso do banquete
no prato
a liberdade abolida
e do que se precisa nem resto
a conta que nunca fecha
o ministério
da estatística adverte
a balança
não pende, (de)pende
poder perpétuo, justiça
a exata medida entre a vastidão
e o corpo inerte
as faces estranhas
da mesma moeda
a posse usurpada da terra
um oceano
de negras angústias
o desfalque,
a apropriação indébita
a cínica farsa do mérito
em vez de se extinguir
o abismo, aprofunda-se
o burguês
regala-se sempre
abastado
e mais falta a quem não tem nome
o feto indigente, coitado
já nasce com fome
a história restaurada
quanto maior a exposição dos fatos
mais a litania é constatada
a universidade é pública
mas para o filho
do pobre
NÃO HÁ VAGA!
Jun- 2020
domingo, 26 de julho de 2026
Mãe negra
à minha mãe
Mãe,
brincou os carnavais
sem alegoria ou samba-enredo,
nem estandarte, desfile, passista ou fantasia;
porque pisou apenas as avenidas árduas
das tuas obrigações.
na tua casa não teve "macumba,
galinha preta, azeite de dendê", nem "ladainha,
reza bonitinha ou canjiquinha pra comer".
não pude evocar por isso a nossa etnia ancestral
que se perdeu diante da carga
de intolerância.
Mãe,
a urgência perturba,
por que gestando as mães sentem tanto
as dores e prantos do ser que desentranham?
por que no parto sentem tudo
do filho que aflige feto e agora fato,
esta voz que ecoa fora do útero?
mãe negra é a mãe branca,
com os encargos da cor.
Agos- 2021
13 de maio
13 de maio,
cínico enredo encenado sem ensaio.
13 de maio,
desencargo pão e circo folclore atalho.
do ajuste malacabado da crônica funesta,
nem liberdade ou justiça, apenas cascalho.
13 de maio,
dormimos no cepo aquela noite,
com as portas da senzala trancadas,
no dia seguinte as calçadas.
13 de maio,
foram os grilhões, depois miséria e fumaça.
foi a tortura, depois fome e cachaça.
foram as lavouras, depois cortiços e favelas.
13 de maio,
arranjo apaziguador da ordem
da cabeça pesada do poder acuado.
atando ao calcanhar escravo a bola de ferro
da injustiça e do encargo.
13 de maio,
a farsa sem culpa de nhonhô e sinhá,
a culpa sem farsa dos subjugados,
peças descartadas.
13 de maio.
Set- 2025
Nada diferente no mundo dos iguais
falta pão na mesa do pobre
e a notícia não comove os que mordem
degustando gostoso o repasto nos finos pratos
dos apartamentos de luxo
sob o lusco-fusco de mais um dia que vai
e quando um governante qualquer
anuncia verba pra educação
a deseducada elite que se farta vocifera
contra o custo brasil
que nada custa à sua vida de misérias
pimenta não deixou de ser refresco
nos olhos do povo
Jul- 2026
Homem negro
não se ama além da própria utopia
pedaços de um homem,
pedaços de um homem,
partes inteiras de mágoa,
o coração rubro de um homem negro.
o estio vence os braços, vence a boca,
vence o pênis
-imenso de solidão-
enquanto os olhos têm os olhos
esquecidos noutros olhos.
eu quero a centelha no feno
muito além do fla flu casual
sem ausência ou apatia
eu quero a ousadia profana de um corpo
imperfeito
difusa qual artérias nas grades do peito.
hediondas paredes de pedra
à minha volta
-mais um emparedado destino-
o amor deflagrado
que não violenta.
mas não brincarei no carnaval sem passista
da avenida do tempo,
a vida escorrendo em suores.
eu quero mais que o amor alheio,
amor que morde e assopra
-tirano e frio-
eu quero o amor que volta,
a felicidade de uma boca,
de uma buceta, de uns seios.
14.02.2021
Negro existe
quando se pesquisa se encontra
pesquisaram a miséria e encontraram miséria
no ventre inchado dos subúrbios
pesquisaram a fome e encontraram fome
no bucho cheio da miséria
pesquisaram o analfabetismo e encontraram analfabeto
no seio farto da miséria e da fome
poeta negro só sabia de Cruz e Souza e Machado de Assis
tudo que aprendi na escola
andei pesquisando e descobri que preto escreve
quero dizer que fiquei aliviado e triste
pois fui e ainda estou tomando pé da extensão
do problema
com o histórico de açoites a manchar
biografias
escrever é ato de bravura
a regra ainda é
encolher-se
Out- 2025
Quadro negro
o estudante negro
e todos os anseios
de universidade
o estudante negro
e a restrita comarca
das possibilidades
o estudante negro
e a pesada carga
do morar periférico
o estudante negro
e os graves entraves
sociais
e mais a história
de senzalas escravos
e flagelos
o estudante negro
sentindo ainda mais
fundo o duro golpe
dos punhos de aço
RACISMO
Set- 2025
Matando hora
num certo discreto torrão
de então incerto destino
os grandes grã-finos de então
decidiram por escravidão
o negro lutou
resistiu, se rebelou
nasce a nossa revolução
Zumbi funda Palmares
o negro trama ação
a golpes de capoeira e facão
e os distintos senhores
ao lucro, ouro, especulação
todos sabem a história
a colônia tornou-se nação
o negro que não esqueceu
luta por reparação
o branco manda
desmanda, senhor da decisão
e esta breve história
é o poeta matando a hora
com versos por se fazer
não sabe senão linhas tecer
o negro ainda sofre
mas hoje sabe escrever
Mar- 2021
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